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O político beato

Por:  Nilton Bertoldo*

O político beato é um sujeito obstinado e cegamente devotado à sua própria igreja, partido ou crença. Até aí, vai-se com os lexicógrafos, mas, quando se diz que ser beato é ter preconceitos, ser intolerante e de espírito estreito, vacila-se na lealdade ao dicionário. Excetua-se apenas o adjetivo intolerante. Se todo o político que não quer ou não pode tolerar algo é um beato, então beato significa bípede. Talvez os velhos dicionaristas e os seus sucessores tivessem em mente, apenas, a tolerância dos indivíduos de crenças religiosas, diferentes das da pessoa, mas, se foi assim, então eles restringiram o sentido do vocábulo.

Toda pessoa madura, que aprendeu muito, é intolerante em muitas coisas – e deve sê-lo, também. Existem muitos indivíduos que não toleram que se toque música alta em um prédio de apartamentos de moradia, que não toleram que indivíduos se embebedem e atirem garrafas nos transeuntes, ou que explorem viúvas ou órfãos, que recusem auxílio médico; enfim, que não toleram milhares de outros modos de humanidade perversa e grosseira. Para ser civilizado deve-se ser intolerante no bom sentido – e, em nenhum outro. Uma pessoa que suporta, calmamente, tudo, não é nem mesmo um bom selvagem – é consideravelmente inferior a um imbecil, uma ameaça social.

Para ser um político beato genuíno, é necessário muito mais do que intolerância. Um traço que se considera indispensável é a insensata e obstinada recusa a prestar atenção na outra face do caso. Um exemplo que se pode citar é o do grande chefe fundamentalista Wiliam Bryan, que fora testemunha num processo no Tennessee.

A essência da estultice desse tipo de gente é a mente fechada. Imensas zonas de fatos são excluídas, mesmo da mais ligeira consideração. Em tempo, portanto, uma enorme ignorância deve resultar daí, e o processo trabalha igualmente bem, ao inverso. Tudo o que mantém os indivíduos néscios pode trazer consigo a beatice – embora não necessariamente – pois, em última análise, o político beato deve possuir certa emoção. Porém, não se devem esquecer as grandes influências que produzem a estultícia. Talvez, estas influências façam luz sobre os beatos ignorantes.

O político beato é um sujeito emocionalmente dedicado a alguma série muito simplificada de ideias ou de práticas. A sua mente é estreita, seja por natureza ou por treinamento, apreende algumas noções e acha que são toda a coisa. Mas, esta simples crença não basta para fazer dele um beato, pois é necessária a emoção. Ele deve odiar ou desprezar aqueles que pensam de outro modo e ressentir-se com os esforços alheios para transformar a sua opinião. Deve ter um espírito fechado, para ser um político beato de primeira classe. Será um fanático ou pode transformar-se num deles? Difíceis questões para serem respondidas!

(Publicado em A Razão de 14.08.2014)

* UFSM



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