Marinalva Oliveira: “O conhecimento é um bem público”
Em entrevista, presidente defende trabalho de base para fortalecer o ANDES
Publicada em 03/07/2012 20h04m

Marinalva: Na CSP-Conlutas nosso compromisso não é apenas com a universidade
Empossada no 57º Conselho do ANDES-SN (Conad), realizado em Parnaíba, no Piauí, entre os dias 21 e 24 de Junho, Marinalva Oliveira é a nova presidente do Sindicato Nacional. Eleita no mês de maio, a chapa que trazia Marinalva à presidência, intitulada “Trabalho docente e compromisso social”, recebeu 90% dos votos. Quando questionada sobre o que se refere o “compromisso social” no nome da chapa, a presidente é taxativa ao afirmar que o conhecimento deve ser produzido para a sociedade, como um bem público, proposta que vem sendo atacada pelo governo através de políticas que privatizam o espaço da universidade.
Além desse cenário já preocupante, onde a necessidade de uma entidade que defenda a autonomia intelectual dos docentes se mostra ainda mais evidente, a dirigente assume o Sindicato Nacional em pleno movimento grevista que, segundo os cálculos do próprio ANDES, já atinge 95% das Instituições Federais de Ensino. Sobre a greve, Marinalva ressalta a importância de aproximar do ANDES os docentes que ainda não fazem parte do sindicato, mas tem nele a referência do movimento. Nesse mesmo sentido, reforçando a perspectiva de continuidade política da gestão anterior para a sua, Marinalva aponta o trabalho de base como principal meta em um processo de fortalecimento do Sindicato.
Abaixo você pode conferir na íntegra a entrevista concedida pela presidente Marinalva Oliveira no 57º Conad.
Pergunta – Quais as perspectivas para a gestão que começa nesse 57º Conad?
Resposta – A grande linha que nós estamos tirando para a gestão, primeiro que é uma continuidade política da gestão anterior, uma continuidade política quer dizer que o Plano dos Setores, que foi aprovado no (31°) Congresso (do ANDES-SN), agora nós estamos em pleno processo de aprofundamento dessa luta. Mas a grande perspectiva é que, apesar de ser uma continuidade política da gestão anterior, nós vamos aprofundar algumas ações, e o grande tom dessa organização das ações é que nós temos uma renovação da diretoria e essa perspectiva da renovação não é só de pessoas, mas uma renovação política também, de uma aproximação maior e mais fortalecida com a base, com os novos professores que estão chegando na universidade, professores que estão chegando em um contexto de aprovação de um plano de previdência privada, professores que foram contratados via REUNI e que ainda não estão sindicalizados, e também trazer para a nossa base um grupo de professores que não estavam fazendo parte do ANDES por conta de uma outra entidade e que hoje nós vemos que esses professores estão aderindo à pauta da nossa greve nacional. Então nós temos um trabalho nesse sentido de trazer essa base e fortalecer cada dia mais o ANDES-SN.
Pergunta – Nesse sentido, qual a importância dos Planos de Lutas que foram atualizados e referendados no Conad?
Resposta – O primeiro ponto é que nós aprovamos agora no Conad um encontro intersetorial. Um encontro intersetorial tem o objetivo de fazer uma aproximação entre os setores que fazem parte do ANDES, federais, estaduais, IMES (Instituições Municipais de Ensino Superior) e particulares, ou seja, tirar uma política comum, discutir essa política e reaproximar esses setores. Nesse encontro intersetorial, nós vamos aprofundar também as políticas que foram tiradas durante esse período, no sentido de verificar junto aos professores das particulares o que mais tem causado problemas, que são as perseguições, as demissões em massa, e fazer um levantamento de como isso está ocorrendo e daí tirar uma política para o 32º Congresso do ANDES, que será no Rio de Janeiro, para colocar essa política em curso no ano de 2013. Outro ponto é que nós vamos realizar também o encontro do setor das estaduais e das IMES. Esse encontro tem um avanço que foi na gestão que agora se encerrou, no sentido de tirar uma linha comum de financiamento e gestão democrática, porque as estaduais até hoje têm uma dificuldade de atuar em conjunto nacional, porque cada uma tem um governo específico, tem políticas específicas, e nós gostaríamos de tirar uma política comum a esse setor das estaduais. Nesse sentido tem dois pontos que são essenciais, que é o financiamento e a gestão democrática, e isso nós queremos aprofundar no encontro das estaduais que vai ocorrer agora também no segundo semestre.
Pergunta – Em relação a greve das federais, a atualização do plano de Lutas, o que vai no sentido de fortalecer a greve, o que os delegados daqui poderão levar para as suas bases que já estão nesse movimento?
Pergunta – Primeiro intensificar a greve e fazer um chamado, e também uma atuação política, no sentido daquelas universidades e institutos federais que não estão em greve. Para isso nós tiramos, e estamos discutindo isso, uma maior atuação das regionais nas seções sindicais. Então uma aproximação maior das nossas regionais, que dois regionais fazem parte da diretoria executiva e os outros são diretores regionais, mas a maior aproximação de levar até essas seções sindicais a nossa discussão sobre carreira, a nossa discussão sobre o Plano de Lutas, a nossa discussão sobre a CSP-Conlutas, de aprofundar a CSP-Conlutas nas seções sindicais, na base, que é a nossa Central Sindical e Popular, que nós fazemos parte e estamos nessa construção, mas que precisa de uma maior reaproximação das seções sindicais, de estar intensificando a sua participação nos estados, porque em nível nacional nós já estamos atuando enquanto sindicato nacional, mas tem essa necessidade de aprofundamento da participação das seções sindicais na CSP-Conlutas em nível estadual.
Pergunta – Então podemos dizer que essa diretoria está se empenhando em aprofundar o trabalho que já vem sendo feito pelas diretorias anteriores de aproximação com o professor que está na base, na luta do dia a dia, do cotidiano do professor?
Resposta – Exatamente, e lógico que para isso nós precisamos fazer com que esse professor conheça melhor o nosso sindicato e conheça melhor também qual é o Plano de Lutas que nós temos, e essa ação nós pretendemos fazer não só através das seções sindicais que estavam aqui presentes, mas também através das regionais atuando de forma mais firme e mais presente junto às seções sindicais. Nisso a ação estratégica que nós temos são os encontros, cada regional após o Conad é estatutário realizar o seu encontro e durante esses encontros estar discutindo o ponto auge agora da nossa conjuntura que é a questão da reestruturação da carreira, do reconhecimento do professor, da valorização do professor, e compreendendo também o perfil desse professor, de como ele trabalha, de como ele está atuando dentro da universidade.
Pergunta – A chapa que concorreu às eleições do ANDES-SN, na qual a senhora foi eleita, trazia o “compromisso social”, para além dos muros da universidade, já no nome. Em um cenário de crise como o que vivemos, como será a atuação da gestão nesse sentido, para além dos muros da universidade?
Resposta – Primeiro é na produção do conhecimento. A universidade tem o objetivo de produzir o conhecimento e produzir o conhecimento para a sociedade, o conhecimento como um bem público, e o que nós temos percebido nós últimos tempos é que o governo tem desvirtuado essa concepção de universidade e o capital se torna presente dentro das universidades a partir do produtivismo, a partir do financiamento privado para as pesquisas, e quando você tem um financiamento privado para as pesquisas, você gera um conhecimento também privado, esse conhecimento já não é de domínio público, esse conhecimento passa a ser de domínio particular. Então o grande mote dessa diretoria, do compromisso social, e que estava em curso pelas diretorias anteriores, é no sentido de voltar essa concepção de universidade para uma universidade pública, gratuita e de qualidade, como uma universidade que se desenvolve ensino, pesquisa e extensão com financiamento público e a ampliação desse financiamento público. Nesse sentido nós tivemos a atualização do Caderno 2 na parte de Ciência e Tecnologia, no Conad, e nessa parte é onde a gente coloca que nós temos que ter uma maior aproximação com as entidades científicas, uma maior aproximação dentro da política que o ANDES defende para a pesquisa e através dos órgãos como Capes e CNPQ estar buscando que se amplie o financiamento público para que o conhecimento seja público, porque a partir do momento que o conhecimento é público, ele é de domínio da sociedade e não passa a ser de domínio privado, de domínio particular, como nós temos visto nos últimos tempos que é uma política direcionada pelo governo. O controle pelas entidades, pelas empresas privadas, a partir da lei de inovação tecnológica, e também o controle do estado a partir de que pesquisa você deve desenvolver, sobre qual tema você quer desenvolver. Isso aconteceu nos últimos tempos e isso tem tirado a autonomia intelectual dos professores e nós temos como grande compromisso justamente estar fazendo essa volta da autonomia intelectual e tornar o conhecimento de domínio público, de toda a sociedade. Outro aspecto que é importante é quando nós fazemos parte da CSP-Conlutas, nossa Central Sindical e Popular. A Central Sindical e Popular ela aglutina não só setores sindicais, mas setores estudantis, setores populares, e quando nós estamos fazendo parte de todos esses setores nós temos um compromisso social não só com a universidade, mas também com uma mudança de postura dentro da sociedade.
Entrevista concedida aos jornalistas Rafael Balbueno (SEDUFSM) e Renata Maffezoli (ANDES-SN)
Foto: ANDES-SN
Assessoria de Imprensa da SEDUFSM
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