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13/09/2019   14/09/2019 01h40 | A+ A- | 1011 visualizações

Racionalização de gastos põe UFSM em marcha à ré

Diretores de Unidades comentam impactos de restrições do orçamento e corte de bolsas


Campus sede da UFSM, em Santa Maria

Na sexta passada, dia 6 de setembro, a reitoria da UFSM divulgou um documento em que acrescenta mais restrições às atividades que respondem pelo funcionamento da instituição. Contingenciamentos não são novidade e, no período mais recente, iniciaram a partir de 2015, no preâmbulo do segundo governo Dilma, se intensificaram no mandato-tampão de Michel Temer, e se aprofundaram de forma amarga no governo Bolsonaro. A assessoria de imprensa da Sedufsm foi ouvir algumas direções de Unidades (centros de ensino) para tentar auscultar como essas medidas restritivas estão sendo recebidas na ponta do processo de gestão. Os relatos a seguir dão conta da maioria dos centros, mas não de todos, tendo em vista que nem todas as direções responderam a tempo.

 A diretora do Centro de Ciências Naturais e Exatas (CCNE), Sonia Cechin, disse que “a reitoria e as Unidades estão fazendo o melhor possível dentro de uma situação de extrema precariedade que foi imposta por esse governo. E a nossa prioridade é manter o ensino em funcionamento na medida do possível”. É justamente a partir dessa afirmação que talvez caiba uma pergunta: diante de tanta precariedade, o que significa, em termos práticos, manter o ensino funcionando?

Sandro Petter Medeiros, diretor do Centro de Ciências Rurais (CCR), analisa que as medidas restritivas anunciadas afetarão as aulas práticas dos diversos cursos, pois não há recursos para pagar diárias e nem combustível suficiente, o que impedirá muitos deslocamentos. A falta de reagentes para laboratórios também é outra preocupação no CCR. Pode chegar algum momento, diz Medeiros, em que faltará material para as aulas práticas. Ele ressalta que, até mesmo a proposta aprovada de unificação das secretarias não será implementada, devido à ausência de recursos para adequação das salas. O corte de bolsistas vai afetar também as coordenações de cursos, publicações de revistas, entre outras coisas.

Ar-condicionado, o vilão

Uma das primeiras medidas de economia expressas no ofício encaminhado pela gestão da UFSM às unidades, é a orientação para que haja um esforço na redução de gastos em energia elétrica, restringindo o uso do ar-condicionado para locais imprescindíveis, como laboratórios, biotérios, entre outros.

Em relação a esse tema, o diretor do Centro de Ciências da Saúde (CCS), José Edson Paz, disse que, após diversas reuniões na Unidade que dirige, chegou-se à conclusão que não existe forma de proibir o uso de ar-condicionado. Segundo ele, não há como recolher cada um dos controles desses equipamentos, e mesmo que isso fosse feito, há ainda a possibilidade que condicionadores de ar modernos sejam acionados através de aplicativos de celular.

Diante dessa situação, ressaltou Paz, a alternativa é estabelecer um processo educativo entre todos os segmentos, apelando, evidentemente, para o bom senso. Contudo, o diretor explica que uma das ações concretas que será colocada em prática é que, até o final do ano, não serão instalados novos aparelhos de ar-condicionado.

As preocupações maiores, segundo o diretor, são quanto à redução de 50% nas chamadas bolsas de trabalho que atendem a estudantes, o bloqueio de bolsas da Capes e CNPq, além, é claro, quanto a possível restrição no uso do Restaurante Universitário (RU) a estudantes que possuem Benefício Socioeconômico (BSE).

Quando o verão chegar

Tiago Marchesan, diretor do Centro de Tecnologia, avalia que, por enquanto, pelo fato de estarmos no inverno, o uso do ar-condicionado não é uma grande preocupação. Entretanto, se a falta de recurso orçamentário se mantiver até os meses mais quentes do período letivo, que são novembro e dezembro, aí a redução, ou a não utilização desses aparelhos, assinala ele, poderá impactar na qualidade das aulas. De qualquer forma, ele explica, ainda estão sendo feitas as análises de como se adequar às orientações, tendo em vista que foi dado um prazo de duas semanas para avaliação.

Sobre o Restaurante Universitário, Marchesan o considera fundamental para a permanência estudantil. Se realmente ocorrer que apenas os que tiverem BSE poderão utilizar, o impacto será enorme, avalia. “Mas por enquanto, pelo que está colocado, a redução não é imediata, tudo depende da perspectiva de o governo federal liberar ou não o orçamento”, ressalva.

Trabalhando com o mínimo possível

No caso de Palmeira das Missões, o diretor Rafael Lazzari comenta que naquela Unidade já houve um corte orçamentário de 40%, o que já tem causado efeitos como a falta de reparos em serviços, a restrição no uso de veículos para situações essenciais, o que afeta docentes que têm projetos, por exemplo. Então, esse contexto de apertar o cinto, que não é de agora, já fez com que aquela Unidade esteja trabalhando com o mínimo possível para que possa se adequar à economia de dinheiro preconizada.

De maneira mais objetiva, explica o diretor, o grande impacto no campus de Palmeira foi a redução significativa nos serviços de terceirização. “Já diminuímos bastante a questão da limpeza, levando assim a menos servidores e menor frequência de limpeza. Mas, provavelmente teremos que reduzir ainda mais. Esse é o nosso grande gargalo”, frisa Lazzari.

O contingenciamento de 40% do total do recurso para a Unidade acaba afetando uma série de encargos, explicou. Nesse recurso tem material de consumo, equipamentos, material permanente, diárias e passagens, frisa o diretor. E, segundo ele, a questão da diária é um grande problema, pois “temos muitas reuniões em Santa Maria que o servidor tem que se deslocar para participar. Aí acaba pegando para isso um valor bastante reduzido. Então, hoje, a prioridade das diárias é para reuniões institucionais, para atender algumas demandas pontuais de ensino. Por exemplo, professor da área da saúde se deslocar entre os hospitais, acompanhar estágio. Então, isso implica na dificuldade de qualificação dos servidores, porque praticamente não liberamos mais recurso para eventos, nem mesmo para capacitação”, sentencia Rafael Lazzari.

Videoconferência: uma alternativa a deslocamentos

Quanto ao uso de veículos, o diretor do campus de Palmeira diz que só são utilizados em caso de muita necessidade. “Diminuímos o uso na faixa de 50%”, enfatiza Lazzari. Em algumas situações, as reuniões e defesas têm sido feitas por videoconferência,  evitando deslocamentos mais longos, complementa ele.

A videoconferência é um instrumento virtual que já vem sendo usado desde que começaram os cortes mais intensos de recursos. E deverá continuar sendo a alternativa. No caso do campus de Frederico Westphalen, somente estão permitidas as viagens (com carros oficiais) para as reuniões do Conselho Universitário e do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) na sede, em Santa Maria. “Todas as outras reuniões que teríamos que participar em Santa Maria ou em bancas estão sendo feitas via vídeo conferência”, explica o diretor da Unidade, Arci Wastowski.

Manutenção, só em casos urgentes

O diretor do campus de Frederico destaca que houve necessidade de reduzir os gastos com manutenção. “Somente o que for extremamente importante e urgente está sendo feito”, frisa Arci. Ele destaca ainda que “como somos o campus mais afastado da sede, o impacto é maior. Um exemplo é a nossa participação no ‘Descubra’, que este ano teremos muita dificuldade em participar”. O diretor comenta ainda que “mesmo tendo somente 13 anos de funcionamento, e a estrutura física dos prédios sendo nova, já temos algumas manutenções importantes a serem feitas. E esta redução no orçamento não está nos permitindo fazê-las”.

Insegurança

Alguns pontos do documento orientando as Unidades da UFSM são comuns a todos, como é o caso da possibilidade de restrição no uso do RU a estudantes BSE, a economia com energia, ou mesmo os cortes de bolsas de trabalho e da área de pesquisa e pós-graduação. Entretanto, a racionalização/corte com os terceirizados é algo que pode afetar duramente o dia a dia na instituição. Além da limpeza, que é algo fundamental, a vigilância também cumpre papel essencial. Conforme a diretora do Centro de Educação (CE), Ane Carine Meurer, depois dos constantes ajustes em contratos com empresas, que geraram redução de postos de vigilância, a situação ficou ainda mais precária naquela Unidade.

Segundo a professora, o fato de o CE ter aula nos três turnos (manhã, tarde e noite), e também aos sábados, somado ao fato de que lá não tem mais nenhum posto de vigilância, gera uma insegurança muito grande para a comunidade que frequenta aquele prédio. Além disso, Ane Carine também lamenta muito o bloqueio de bolsas de pós-graduação e o corte das chamadas ‘bolsas trabalho’ para estudantes.

Esperança e mobilização

A diretora do Centro de Ciências Naturais e Exatas (CCNE), Sonia Cechin relata que a Unidade a qual dirige está sendo impactada da mesma forma que os demais centros da universidade. Ela cita que a pesquisa está sendo muito prejudicada com o “desmonte da Capes e do CNPq”.

Apesar de desconfiar quanto às promessas do governo federal de que o orçamento será desbloqueado, Sonia guarda esperança. Isso porque há uma sinalização dada pelo MEC e por integrantes da área econômica de que, na medida em que melhorar a arrecadação do governo, a verba retida poderá ser liberada, ao menos em parte.

A conscientização da comunidade também pode ser uma saída na visão de Tiago Marchesan, diretor do Centro de Tecnologia. Segundo ele, esses aspectos críticos têm sido levados a todos os espaços coletivos, como por exemplo, as reuniões do conselho de centro.

O apoio da comunidade externa à UFSM é vista como uma ação importante em unidades fora do campus sede. Tanto em Palmeira das Missões, como em Frederico Westphalen, os três segmentos buscaram fazer atividades com Câmara de Vereadores, entidades sindicais, movimentos sociais, com o objetivo de buscar apoio para essa luta, que se desenvolve em várias frentes, mas que tem uma única essência: salvar a universidade do desmonte.

 

Texto: Fritz R. Nunes com o apoio dos estagiários de jornalismo Lucas Reinehr e Amanda Xavier

Fotos: Arquivo/Sedufsm

Assessoria de imprensa da Sedufsm



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