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15/05/2020   16/07/20 10h40 | A+ A- | 753 visualizações

O que pode acontecer quando a pandemia castigar a periferia?

Covid-19: agentes comunitários de saúde são a linha de frente no contato com as comunidades


Maria Claudete Xavier (d) atua com outras agentes comunitárias de saúde na Nova Santa Marta

Na metáfora belicista, o combate à pandemia do coronavírus é uma guerra contra um inimigo invisível. E se a luta contra a Covid-19 é uma guerra, pode-se dizer que a infantaria que a combate nas periferias é simbolizada pelo(a)s agentes comunitário(a)s de saúde (ACS). Em sua maioria mulheres, esses profissionais estão na linha de frente no contato com as comunidades carentes, nas quais as dificuldades já eram grandes antes mesmo do início da pandemia, com o surto de dengue, por exemplo.

Esse quadro se agravou ainda mais a partir dos efeitos do isolamento social usado como forma de diminuir a velocidade de propagação do coronavírus. Os empresários têm demitido em massa trabalhadores (as) sob a alegação de queda nas vendas.  Essa situação se reflete nas regiões periféricas, onde existem pessoas com trabalho precário ou mesmo desempregadas. Portanto, além da pandemia, profissionais de saúde têm que lidar com uma outra realidade, que é a condição social delicada de muitas famílias e ao mesmo tempo a própria dificuldade estrutural para o trabalho que realizam. Sendo assim, cabe a pergunta: como está a infantaria para o combate ao vírus que, conforme dados oficiais da última quarta, 13, já está distribuído por 24 bairros de Santa Maria?

Ana Zaira Silva Dias tem 46 anos, é agente comunitária há 21 anos na Vila Pôr do Sol, uma das comunidades que compõem o bairro Nova Santa Marta. Esse bairro resultou de uma ocupação iniciada em 7 de dezembro de 1991, e cuja população hoje estaria em torno de 25 mil pessoas (eram 12 mil no Censo do IBGE de 2010). A agente atende a um total de 180 famílias, numa área de grande vulnerabilidade social. Contudo, ela ressalta que segue cadastrando novas famílias, pois a cada semana surgem novas, que constroem suas moradias no fundo da casa dos pais. Ana explica que cada agente de saúde pode cadastrar até 750 pessoas (uma microárea), o que equivale a cerca de 200 famílias.

O trabalho se mostra pesado pelo número de pessoas a serem atendidas, e cuja determinação é definida pela Secretaria Municipal de Saúde, e é agravado pelo cobertor curto. A agente detalha que, na sua área (Vila Pôr do Sol), existe uma microárea descoberta, ou seja, sem atendimento direto. Mas em outros locais da Nova Santa Marta também há regiões descobertas. Conforme Ana, existem três microáreas descobertas no Núcleo Central e duas na Vila 7 de Dezembro, totalizando seis, que estão sem atendimento direto.

A equipe da qual Ana Zaira faz parte, integra a Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde (EACS), criada há um ano, e é composta por um médico generalista, um enfermeiro (a), um (a) técnico (a) em enfermagem, um (a) recepcionista (a), cinco agentes (ACS), que atende na Nova Santa Marta. Também há três agentes na área rural (distrito de São Valentim). A equipe se reúne semanalmente e o ponto de encontro é na rua Auta de Souza, anexo à Associação Espírita Francisco Spinelli.

Realidade da comunidade e condições de trabalho

Ana Zaira (à direita): agente de saúde na Vila Pôr do Sol

O trabalho realizado pela agente comunitária de saúde é definido por prioridades, que são as de atingir aquelas populações com maiores dificuldades. Estão nessa lista crianças entre 0 e 2 anos, gestantes, hipertensos, diabéticos, portadores de hanseníase, tuberculosos, acamados, e, atualmente, os infectados pela dengue. Ana Zaira explica que, normalmente, existem várias reuniões, capacitações, que acabam diminuindo as visitas domiciliares. No entanto, devido à pandemia, os grupos estão suspensos. Em relação aos suspeitos de coronavírus esses são encaminhados às unidades de referência. Em relação a outras enfermidades que necessitam de outras especialidades, são encaminhados à Unidade Básica de Saúde (UBS), que possui um contingente maior de profissionais.

Questionada sobre se estão preparadas (os) para um alastramento do coronavírus, Ana diz que “não estamos preparados para atender uma demanda maior, pois sempre falta algo”. A agente descreve que a Nova Santa Marta é uma região populosa, carente, com pouca infraestrutura. Em meio à população, muitos trabalhadores informais, alguns que trabalham com reciclagem, alguns desempregados, e muitos casos de envolvimento com drogas.

Além do trabalho dos ACS, obviamente, existem as UBS, para as quais as pessoas com suspeitas de doenças são encaminhadas. Em função de toda essa situação, ela destaca que “a Unidade Básica de Saúde não dá conta de toda a demanda. São filas enormes e poucas fichas para atendimento”. A agente esclarece que as filas ocorriam antes da pandemia, mas que foram suspensas. No entanto, desde o dia 8 de maio, os agendamentos para consultas foram retomados, via telefone, mas com número mais reduzido de fichas.

Ana ressalta também que existem, na localidade, famílias com muitas pessoas desempregadas ou com trabalho precarizado, o que gera um número grande de inscritos no CRAS (Centro de Referência em Assistência Social) da região Oeste, para o recebimento de cestas básicas, entre outras formas de assistência.

No que se refere ao preparo das comunidades na prevenção à doença, o relato não é muito otimista. Segundo a ACS, quanto ao uso de máscaras, os que as usam, utilizam aquelas improvisadas. Álcool gel, poucos têm em casa, sendo que, em alguns casos, faltam até materiais básicos de higiene. Segundo ela, quem depende do trabalho cotidiano para se sustentar, como é o caso dos recicladores, não realizam o distanciamento social, e saem diariamente para coletar os materiais, sem necessariamente ter condições de tomar os cuidados preventivos necessários.

Já sobre as medidas de proteção aos ACS, Ana Zaira explica que receberam, após intensa negociação, máscaras de tecido laváveis, além de álcool gel.

Nenhuma unidade está totalmente preparada

Maria Claudete Xavier (foto acima, à direita) tem 49 anos e no mês de julho completa 20 anos atuando como agente comunitária de saúde na região do Alto da Boa Vista, na Nova Santa Marta. Ela mora na localidade, pois quando iniciou sua função, o profissional precisava morar na área em que atua. Ela confirma que receberam, há pouco tempo, máscaras de proteção facial e álcool gel, mas perguntada sobre se estão preparadas para o caso de um alastramento de casos da Covid-19, ressalta que “nenhuma unidade está totalmente preparada”. Na sua microárea, por exemplo, falta um ACS, acrescentando mais um dado à fala anterior de Ana Zaira.

A agente comunitária detalha que, em seu trabalho, atende cerca de 200 famílias, praticamente todos os dias, exceto nos dias de reuniões e de campanhas de vacina. Para Claudete, a comunidade está bem consciente sobre a delicadeza do momento e da necessidade de tomar cuidados. Muitas pessoas usam máscaras e álcool gel, mas não é a realidade global. Segundo a ACS, há situações de famílias carentes, em que comprar álcool gel ou mesmo máscaras se torna secundário diante da prioridade em comprar comida.

Falta de profissionais para grandes demandas

Infelizmente, não conseguimos chegar a todas as pessoas para levar as orientações preventivas sobre saúde, especialmente agora, no período da pandemia. A explicação é de Tatiane Razera, agente comunitária de saúde e que também integra uma comissão com 10 outros colegas da área, no processo de diálogo com a prefeitura, já que não possuem uma entidade de classe. Ela atua junto ao distrito de Santo Antão, uma localidade em que falta ao menos um ACS para cobertura de área. Tatiane tem 39 anos e trabalha como agente de saúde desde 2012.

Ela ressalta que, mesmo sendo o distrito com uma população menor que algumas áreas urbanas, as dificuldades acabam decorrendo do fato de que a área é extensa e as estradas são precárias. Dessa forma, os obstáculos da comunidade acabam sendo grandes, pois muitos não têm automóveis, dependem do transporte coletivo, que, no entanto, possui horário reduzido, e tem circulação prejudicada devido ao mau estado das vias de circulação.

A agente comunitária explica que os ACS não atendem todas as vilas e bairros da cidade. Aproximadamente 23% da população é atendida por uma estrutura denominada de ESF (Estratégia de Saúde da Família). Contudo, nem todas as vilas e bairros com ESF possuem um agente comunitário de saúde. Segundo ela, o município de Santa Maria tem tido uma expansão grande, o que nem sempre é acompanhado por novos ACS. Nessa carência de profissionais, cita as regiões de ocupações, que não existiam na época em que foram divididas as áreas de abrangência. Os locais que não são atendidos por ESF, possuem Unidades Básicas (UBS), que, no entanto, não possuem serviço de visitas domiciliares.

Tatiane destaca que há um esforço dos profissionais de saúde em atingir as comunidades, usando desde métodos como telefone, internet, e, obviamente, as visitas presenciais, mas os entraves residem em aspectos como: apesar da orientação sobre o uso de máscaras, álcool em gel, muitas famílias não têm acesso a condições básicas de higiene, não possuem acesso ao saneamento, carecem de água e sabão para lavar as mãos, as roupas e os calçados.

No que se refere à proteção dos profissionais em tempos de Covid-19, Tatiane comenta que agora todos estão equipados. Entretanto, especialmente as máscaras, muitos agentes tiveram que comprar ou receberam de doações. “Algumas pessoas acham que porque os agentes não trabalham direto com o doente, não precisariam usar máscaras. Mas, nós estamos expostos diariamente nas casas e nas ruas”, diz ela.

Para entender o que é a Nova Santa Marta

A Nova Santa Marta é um bairro que resultou da ocupação da antiga fazenda Santa Marta, em 7 de dezembro de 1991, em uma área pertencente ao governo estadual. Já foi chamada vulgarmente de “invasão”, mas passou a ser considerada um bairro com o nome de Nova Santa Marta (já que existe a Cohab Santa Marta) a partir de 2006. Conforme o Censo de IBGE de 2010, o bairro possuía 12.700 moradores.

Esse número aumentou, mas ainda sem um novo censo do IBGE, a projeção é de aproximadamente 25 mil habitantes, conforme descreve Nilda Ribeiro, moradora da vila Alto da Boa Vista, militante do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), a partir de publicações na imprensa de Santa Maria.

O bairro é composto pelas seguintes localidades: Loteamento Alto da Boa Vista; Loteamento 10 de Outubro; Loteamento 18 de Abril; Loteamento Marista; Loteamento Núcleo Central; Loteamento 7 de Dezembro; Vila Pôr do Sol; Nova Santa Marta.

A saga de uma MÃE DESEMPREGADA em meio à pandemia

Maria Cristina Almeida (foto acima) tem 46 anos e mora no Residencial Leonel Brizola junto com três filhos menores de idade (um tem seis anos). Outros já tem maioridade e não residem mais com ela. Cristina, como é chamada por amigos (as), aceitou falar um pouco sobre os obstáculos que tem enfrentado após a chegada da pandemia do coronavírus, a partir de indicação de sua amiga Nilda Ribeiro, militante do MNLM.

Ela conta que, antes do isolamento social, trabalhava de doméstica com carteira assinada, ganhando meio salário mínimo. Contudo, assim que iniciou o processo de isolamento, a “patroa” ligou e pediu para que ela ficasse em casa. As outras faxinas que fazia também foram suspensas. Alguns dias depois, a empregadora alegou dificuldades financeiras e a demitiu, o que lhe causou um “choque”.

Restava à Cristina as parcelas do bolsa família, que totalizavam pouco mais de 200 reais mensais e a expectativa que, por ser “mãe solo”, como ela mesma descreve, teria direito aos 1.200 reais prometidos pelo governo federal. Mas, a expectativa foi frustrada e ela acabou excluída do rol de pessoas que teriam direito ao auxílio emergencial.

Cristina admite que a situação foi bem tensa, pois o dinheiro que tinha não cobria o necessário para pagar as contas, comprar comida para si e os filhos. Para enfrentar essa situação, ela recebeu assistência do CRAS (Centro de Referência em Assistência Social), apoio da escola dos filhos, e de amigos.

Contudo, esse momento já foi, ainda que parcialmente, superado, pois ela voltou a fazer faxinas a partir do relaxamento do distanciamento social. A preocupação de Cristina é daqui para a frente, tendo em vista que ela não tem mais carteira assinada. “Caso o vírus se espalhe, certamente teremos novo isolamento, e eu terei que parar com as faxinas. E daí, como é que eu fico? Sem trabalhar, não posso receber. Daí, como vou sobreviver com 200 e poucos reais do bolsa família”, interroga ela.

Confecção de doces: alternativa para fortalecer a renda de Cristina

Mas a preocupação não se resume ao aspecto econômico. Cristina Almeida precisa sair para trabalhar e conseguir o dinheiro para o sustento da família. No entanto, ela confessa que sai diariamente “com medo”, pois sofre de lúpus e de pressão alta. “Estou muito insegura, pois não sei o que será de mim e dos meus filhos caso eu tenha de parar de novo”. Para quem foi demitido e agora trabalha de maneira informal a situação é bem delicada, enfatiza ela. “Hoje eu tenho faxinas para fazer, amanhã não sei. Cada dia a gente tem que matar um leão”, frisa.

 

Texto: Fritz R. Nunes

Fotos: Arquivos pessoais

Assessoria de imprensa da Sedufsm



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