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25/05/2020   15/07/20 12h43 | A+ A- | 1729 visualizações

A rotina de mães e pais docentes em meio à pandemia

Dificuldade com trabalho remoto e sobrecarga emocional são elementos comuns relatados pelas (os) docentes


A suspensão das atividades acadêmicas e administrativas presenciais, instituída desde o dia 16 de março na UFSM, tem trazido um novo contexto às e aos docentes que são mães e pais de filhos pequenos. Se antes era possível instituir uma rotina que se dividia temporal e espacialmente entre os afazeres profissionais e o cuidado dos filhos, hoje ambas as tarefas misturaram-se. Ao invés de desempenhar suas atividades de ensino, pesquisa e extensão na universidade, os docentes agora as desempenham em casa. Ao invés de irem para as creches e escolas serem acompanhados por educadoras(es) especializadas(os) na educação infantil, as crianças agora desenvolvem as atividades escolares em suas casas, sob a supervisão dos pais ou responsáveis. O espaço-tempo modifica-se e traz novos desafios em meio ao isolamento social necessariamente demandado pela pandemia do novo coronavírus.

De forma geral, o que todas (os) as (os) docentes relataram foi a dificuldade de lidar com as novas ferramentas de ensino e aprendizagem a distância e a sobrecarga emocional. Ainda que docentes sempre tenham levado trabalho para casa, não se limitando às horas passadas dentro da sala de aula, agora todo o trabalho é desenvolvido remotamente. O sentimento de culpa por estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe dos filhos também é um elemento comum levantado pelas (os) entrevistadas (os).

Isolamento com bebês

Daiana Flores é docente do departamento de Matemática da UFSM e mãe do Benício, um bebê de sete meses. Embora não venha desenvolvendo atividades de ensino via Regime de Exercícios Domiciliares Especiais (REDE), modelo adotado pela instituição, ela segue nas atividades de pesquisa. Ainda em fase de amamentação, ela divide as tarefas de casa com seu companheiro. Quando não está envolvida com as tarefas de pesquisa, dedica todo o seu tempo ao convívio com o filho.

“Tem que ter muita criatividade para distraí-lo durante todos esses dias. Como eu voltaria na metade de abril [da licença maternidade] eu já havia começado a fazer a adaptação dele na escola, ele já estava se acostumando e teve que parar por conta do vírus, então não é fácil. Mas faço o meu melhor e dou prioridade a ele”, relata.

Gilvan Dockhorn, docente do departamento de Turismo da UFSM, também tem passado os dias em meio às atividades acadêmicas e ao cuidado de Sebastian, seu filho de um ano e cinco meses. Ao lado da filha mais velha, Isabelle, de 16 anos, e da companheira, o docente busca manter uma relação de proximidade com seus alunos e orientandos, embora entenda as grandes dificuldades enfrentadas por alguns discentes no que tange ao acesso às tecnologias digitais.

“Temos alunos que vivem excluídos digitalmente. Não é porque o sujeito tem um aparelho celular e possui um pacote que o permite acessar minimamente redes sociais ou se comunicar, que ele vai ter condições de acompanhar uma aula. É muito dificil trabalhar em casa. Tu tens de ter uma disciplina muito rígida para conseguir estabelecer horários. E tudo isso com um bebê, que dita os horários. Tem que construir um ambiente onde tu possas minimamente manter a sanidade, ou seja, são tempos extremamente difíceis porque tu quebras a perspectiva do futuro. Vivemos um dia de cada vez”, conta Dockhorn.

É como correr uma maratona”

O início da adaptação às aulas e orientações remotas foi difícil para Milena Freire, docente do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM. Mãe de Tomás, 11 anos, e Nina, 3, ela vem se divindindo entre as atividades de ensino e pesquisa. De algumas semanas para cá, contudo, ela vem tendo um cuidado maior com sua saúde mental, visto que, quando não utilizado com cautela, o trabalho remoto pode roubar muitos momentos de convívio familiares. O que mais dói em Milena é estar no mesmo espaço que os filhos, em casa, mas não poder destinar a atenção de que necessitam.

“As coisas se misturam o tempo inteiro. Eu estava em banca de defesa de doutorado e, quando ia começar minha arguição, minha filha entra no quarto e fala com as pessoas. Não que ela faça isso sempre, mas quero dizer que estou o tempo inteiro trabalhando com minha filha pedindo atenção. Isso tem me demandado um sentimento de culpa muito grande. Tenho procurado, de umas duas semanas para cá, cuidar um pouco da minha saúde mental. Pensar sobre isso. Tentar compreender os limites daquilo que não consigo dar conta. É como correr uma maratona: é preciso entender que não é uma corrida de velocidade, e para isso a gente tem que enxergar nossos limites e compreender cada dia como um dia novo”, diz Milena.

Colega de Milena no departamento de Ciências da Comunicação, Claudia Bomfa é mãe de uma menina de seis anos e tem desenvolvido todas as atividades de forma remota. Vem sendo um desafio conciliar as atividades da casa, o acompanhamento da filha em processo de alfabetização e as tarefas de trabalho.

“Precisei me reorganizar, reinventar e pensar em novas lógicas de trabalho, em ambiente online. O escritório de casa está sendo utilizado pela família, então difícil separar as rotinas. Eu e meu marido trabalhando em casa, cuidando de nossa filha, atendendo suas necessidades e também desempenhando as atividades profissionais. Estas também de certo modo com limitações, pois muitos dos alunxs não têm condições de acompanhar as aulas por falta de conexão ou equipamentos”, explica.

Dança e teatro a distância?

Tatiana Joseph é docente do curso de Dança da UFSM. José Renato Mangaio leciona no curso de Artes Cênicas da mesma instituição. Ambos vêm tendo algumas dificuldades a mais no que se refere às atividades acadêmicas a distância. Dada a natureza prática de seus cursos, as ferramentas remotas apresentam maiores limitações. Contudo, ainda assim eles vêm se envolvendo em atividades.

Tatiana é mãe de Camila, 11 anos, e Sofia, 9. Ela vem promovendo lives no instagram e vídeos no youtube com conhecimentos sobre as disciplinas que leciona, e cada um desses vídeos demanda cerca de quatro horas para ser preparado. O acompanhamento das meninas em suas atividades escolares tem sido um grande desafio. “Não sou professora de criança. Você tem que lidar com o emocional da criança, com a falta de vontade da criança, com o fato de você ser a mãe e não a professora, portanto é outra dinâmica. É super desgastante”, relata.

José Mangaio é pai de Miguel, 10 anos, e Ângelo, 7. Ele vem desenvolvendo lives e fazendo trabalhos junto a dois grupos de pesquisa. Não vem sendo possível a ele delimitar rotinas rígidas de trabalho e de acompanhamento dos filhos, visto que, neste momento, as certezas estão suspensas.

“Eu sempre tive essa oportunidade de participar muito ativamente na educação dos filhos, e a gente percebe que é fundamental. Mas agora, dentro da quarentena, isso fica muito intensificado, porque nós passamos a ser responsáveis por questões que antes eram delegadas aos professores. Por exemplo, eu tenho que escrever daqui a pouco, junto com meu caçula, uma atividade sobre ‘O negrinho do pastoreio’. Ele está sendo alfabetizado e isso demanda uma atenção para que aquilo seja feito com qualidade”, conta Mangaio.

Trabalho intermitente

Felipe Ricachenevsky era docente da UFSM até fevereiro deste ano, quando foi transferido para o departamento de Botânica da UFRGS. Lá as coisas estão um pouco diferentes, já que a instituição não aderiu a um modelo de atividades remotas. Ainda que não venha cumprindo tarefas na docência, no entanto, Felipe e sua esposa, que também é cientista, têm seus dias permeados por demandas de pesquisa. Mas não só por isso: ambos são pais da Maya, 4 anos e cheia de energia. A principal dificuldade relatada pelo docente é o caráter intermitente do trabalho remoto, pois não vem sendo possível oferecer muitas horas seguidas de concentração que a atividade de pesquisa demanda.

“A gente mora num apartamento que não é grande. A gente não tem como se esconder muito. Uma criança de 4 anos, cheia de energia, faz barulho, eventualmente corre, grita, faz bagunça, porque é isso que uma criança faz. Como eles não podem fazer isso na rua, a gente tem que imaginar coisas para eles fazerem dentro de casa. Só que isso não cria um ambiente adequado para outra pessoa estar sentada ali trabalhando. Ainda mais nesse nosso trabalho que não é mecênico, repetitivo”, conta.

Felipe integra o grupo Parent in Science, que busca levantar dados e promover discussões sobre maternidade/paternidade e ciência. Recentemente, o grupo publicou carta na revista Science alertando sobre as disparidades que podem se apresentar às docentes mães no retorno das atividades presenciais. Isso porque, ao contrário do que alguns profissionais vêm dizendo, o momento de isolamento não necessariamente implicará em um aumento da produtividade docente, visto que muitas mães, ao lado das tarefas profissionais, têm de cuidar da casa e dos filhos.

Acompanhe, abaixo, os relatos de cada um (a) dos (as) docentes entrevistados (as):

Milena Freire - docente do departamento de Ciências da Comunicaçãda UFSM

“Tenho dois filhos. Tomás, de 11 anos, e Nina, de 3. Desde o início da suspensão das atividades presenciais, eu fiz a opção - digo opção porque a portaria foi facultativa - de adesão à manutenção das atividades de ensino e pesquisa. Esse semestre não estou com projetos de extensão, mas minhas atividades de pesquisa e ensino permanecem acontecendo.

As duas primeiras semanas foram muito impactantes, especialmente porque eu nunca tinha tido nenhum tipo de adaptação ao trabalho remoto. Então eu não conhecia, para mim foi uma novidade, além do impacto da pandemia e da suspensão das atividades das crianças. As duas primeiras semanas foram extremamentes difíceis, até que fui me reorganizando. Precisei pedir auxílio para alguns colegas que tinham essa experiência [de trabalho remoto]. Hoje tenho mantido três disciplinas na graduação, uma na especialização, seis orientandos de graduação, dois na iniciação científica, uma no mestrado, e mais o grupo de pesquisa.

Estou enumerando para que se tenha um pouco da dimensão do tempo que essas atividades ocupam, e já ocupariam no normalmente, caso estivéssemos no ritmo presencial. Ou seja, não há folga. Ocorre que, com as crianças, e especialmente com minha filha menor em casa, que demanda mais atenção, as coisas ficaram muito muito difíceis. Nós temos uma trabalhadora doméstica que trabalha conosco na rotina, entretanto desde março ela se mantém na casa dela, e nós continuamos pagando ela. Eu pesquiso sobre as questões do trabalho doméstico, invisível, feminino. Acho importante pontuar. Acontece que todas as demandas da casa permanecem comigo. Isso porque meu marido continua saindo para trabalhar devido à natureza de sua atividade. Ele é psicólogo, atende on line mas precisa sair de casa, ir até o consultório para ter mais tranquilidade para os seus atendimentos, mesmo que online. Então eu fico com as crianças em casa com a demanda de trabalho e com a demanda da casa.

O meu filho de 11 anos vem tendo uma rotina de aulas online. Com ele isso tem sido relativamente tranquilo - na característica do meu filho em especial, pois sei que para cada uma das mães isso vem de uma forma diferente. Eu supervisiono as atividades a cada dois ou três dias, vejo com ele se as tarefas estão sendo feitas, eu tenho pouco trabalho no que diz respeito ao acompanhamento dele na escola.

Mas minha filha, de 3 anos, está na educação infantil, no primeiro nível. Nos últimos 15 dias a escola começou a ter lives de 40 minutos uma vez por semana. Ela [Nina] está o tempo inteiro em casa.

As coisas se misturam o tempo inteiro. Eu estava em banca de defesa de doutorado e, quando ia começar minha arguição, minha filha entra no quarto e fala com as pessoas. Não que ela faça isso sempre, mas quero dizer que estou o tempo inteiro trabalhando com minha filha pedindo atenção. Isso tem me demandado um sentimento de culpa muito grande, porque embora eu esteja com ela o dia inteiro, eu não consigo ter uma hora do dia em que eu consiga sentar com ela e estar só para ela. O trabalho remoto tem atravessado a vida da gente nesse período. Não é apenas o momento em que encontro com os alunos no Google Meet, é a elaboração das atividades, a busca por materiais, as mensagens que chegam. Fiz grupos de WhatsApp e no Facebook, me coloquei à disposição porque acho que faz parte do contexto tentar dar amparo para os estudantes. A gente fica recebendo mensagens individuais e tem que respondê-las. Até no fim de semana tenho de ter cuidado. Nas últimas três semanas tenho tentado cuidar e evitar, a todo custo, trabalhar no fim de semana. Tentar ter um tempo para ficar realmente só com eles [filhos], mesmo dentro de casa.

Isso tem sido o mais complicado. O fato de saber que minha filha precisa de uma distração. Tenho ido na livraria e comprado material para que ela possa pintar – papel, adesivos, tinta, canetinhas, para tentar preencher essa necessidade que obviamente ela tem de estar fazendo alguma atividade, de explorar o aspecto lúdico do desenvolvimento dela.

Infelizmente o contexto é esse. Eu não tenho nenhuma perspectiva em termos de escola que venha a mudar. Não temos perspectiva também no âmbito da universidade. Tenho procurado, de umas duas semanas para cá, cuidar um pouco da minha saúde mental. Pensar sobre isso. Tentar compreender os limites daquilo que não consigo dar conta. As demandas de trabalho continuam acontecendo. Os pedidos de pareceres, as bancas, tudo aquilo que é invisível da nossa produção continua acontecendo. Estou procurando reconhecer quais são meus limites para poder passar por esse período. Fora as tantas preocupações que nós temos do ponto de vista político, familiar, das questões de saúde, tantas outras coisas que nos perturbam nesse momento. É como correr uma maratona: é preciso entender que não é uma corrida de velocidade, e para isso a gente tem que enxergar nossos limites e compreender cada dia como um dia novo”.

Gilvan Dockhorn – docente do departamento de Turismo da UFSM

“Além da minha companheira, tenho dois filhos que moram comigo - Isabelle de 16 anos e Sebastian de 1 ano e 5 meses. Isabelle estuda no Ctism, está tendo aula remota.

Vivemos tempos extraordinários, e isso requer atitudes e posturas extraordinárias. Tenho tentado desenvolver, dentro desse regime especial que a universidade propôs, não propriamente aulas ou atividades, mas uma relação com alunos e orientandos, com a produção acadêmica e com a pesquisa. Mas é extremamente complexo. Primeiro porque a gente não tem formação para isso. É bom lembrar que isso não é EaD, pois EaD tem suas metodologias, suas formas, tem toda uma construção. Na verdade o que temos são ações para manter vínculos com alunos.

A questão fundamental é que com esse tipo de procedimento a gente atesta, confirma e expõe as desigualdades sociais, políticas e econômicas do país. Temos alunos que vivem excluídos digitalmente. Não é porque o sujeito tem um aparelho celular e possui um pacote que o permite acessar minimamente redes sociais ou se comunicar, que ele vai ter condições de acompanhar uma aula.

É muito dificil trabalhar em casa. Tu tens de ter uma disciplina muito rígida para conseguir estabelecer horários. E tudo isso com um bebê, que dita os horários. Tem que construir um ambiente onde tu possas minimamente manter a sanidade, ou seja, são tempos extremamente difíceis porque tu quebras a perspectiva do futuro. Vivemos um dia de cada vez.

Creio que a grande dificuldade é estabelecer uma nova rotina dentro desse novo normal. O mundo não será mais o mesmo, as relações não serão mais as mesmas, e a gente vai ter que aprender e construir isso. Sinto muita falta da sala de aula, acho que o processo de ensino e aprendizagem se faz pelo contato, pelo diálogo, pela troca, pelo olho no olho, pelo conhecimento das dificuldades dos educandos.

É muito difícil e as coisas acabam se misturando. Se isso não for bem trabalhado e construído, pode acirrar a precarização do trabalho docente, dos profissionais técnicos, daqueles envolvidos na educação.

Isso que estamos tentando fazer não é aula, não substitui o encontro, o processo de ensino e aprendizagem. Em tempos extraordinários, são medidas extraordinárias. Depois, quando isso abrandar, quando tivermos possibilidades de segurança para voltar, a gente tenta recuperar, pois esse processo efetivo da construção do conhecimento não foi substituído. É muito difícil, requer boa vontade dos alunos e a possibilidade dos alunos de acessarem a esse material, além de expor a desigualdade abissal que nós vivemos nesse país”.

Daiana Flores – docente do departamento de matemática da UFSM

“Eu tenho um menino de 7 meses chamado Benício. Eu estou realizando atividades de pesquisa de forma remota. Eu retornei da licença maternidade no dia 13/04, e optei por não realizar atividades de docência de maneira remota, pois tenho três disciplinas de álgebra linear, disciplina que já nos cursos presenciais os alunos têm bastante dificuldade, além disso eu não tenho nenhuma experiência de trabalho EAD com a docência.
Porém, já trabalhamos há bastante tempo por Skype com o professor Nicolas Andruskiewtsch da Universidade Nacional de Córdoba. Então quando voltei eu optei por dedicar o pouco tempo que tenho a essa atividade. Digo pouco tempo, pois o Benício ocupa a maior parte do meu tempo.

Eu e o meu marido dividimos as tarefas da casa e os cuidados com o Benício, eu trabalho de manhã e ele de tarde. O Benício mama no peito, então muitas vezes sou interrompida para dar mamá, mas com alguma adaptação estamos conseguindo trabalhar. Claro que não dá pra fazer tudo então às vezes vem um pouco de culpa. Mas estou fazendo o melhor que eu posso pra desempenhar ambos os papéis.
A minha irmã é pedagoga então ela me ajuda bastante com atividades, pois o Benício fica muito entediado de ficar todo esse tempo dentro do apartamento. Tem que ter muita criatividade pra distrai-lo durante todos esses dias. Como eu voltaria na metade de abril eu já havia começado a fazer a adaptação dele na escola, ele já estava se acostumando e teve que parar por conta do vírus, então não é fácil. Mas faço o meu melhor e dou prioridade a ele”.

Tatiana Joseph – docente do curso de Dança da UFSM

“Minhas filhas se chamam Camila e Sofia. Camila tem 11 anos e Sofia tem 9. Tenho acompanhado minhas duas filhas nas tarefas da escola. Diria que é uma mistura. Tentei instituir uma rotina desde o início, como dizia o pessoal que já tinha passado por isso na Europa ou nos Estados Unidos, é importante manter essa rotina o mais próximo possível de uma vida normal. Me sentia bastante culpada porque rapidamente as duas meninas comecaram a dormir mais tarde. O Camilo [esposo], escrevendo um livro, também dormia tarde. E eu acabava dormindo mais tarde também.

Acabo trabalhando muito intensivamente de tarde e no início da noite. De maneira concentrada. Quando chega 20h30, 21h, eu já estou bem cansada e, ao mesmo tempo, queria ver whatsapp e mídias sociais. Fiquei espantada de como o dia parecia passar muito mais rápido. Pensei que o dia fosse passar mais devagar, que fosse dar tempo de fazer as coisas porque não tinha que sair de casa. Muito pelo contrário, percebi que o dia passa super rápido, e que se você não faz o mínimo, as coisas comecam a se embolar.

Eu dou aula prática, então para mim o sistema remoto não funciona, não estou dando aula. No início comecei postando coisas teóricas no sistema, mas me senti bastante desconfortável com essa situação. Me manifestei em reuniões da coordenação e frente aos alunos. No meu ambiente de trabalho existe diálogo e consenso a esse respeito, não foi um problema. Mas a gente se sente pressionado. Existe uma ameaça que fica de uma maneira subliminar no ar, devido a todos os pronunciamentos do governo. Eu sempre coloco para os alunos essa situação. Mantivemos o diálogo e contato. Não com todos os alunos, mas com os que conseguiram se manter em contato. Trabalho principalmente com os que estão ingressando na universidade, então eu nem conheci eles ainda, isso torna mais difícil fazer tarefas a distancia se você nem conhece as pessoas ainda. Fiz alguns encontros a partir dos aplicativos ‘Zoom’ e ‘Jisti Meet’, que muitas vezes são frustantes, cai a conexão, gente que tenta entrar e não consegue. Eu fiz um grupo de WhatsApp com os alunos para manter o contato. Isso não foi aconselhado pela minha coordenação, pelo contrário, porque não é [ferramenta] de trabalho.

Estou começando a postar vídeos no Youtube. Meu projeto de pós-doutorado [que será desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Norte após a pandemia], visitarei escolas da rede pública para ver como as situações de inclusão e exclusão social aparecem ali dentro. Situações de bullying, discriminação, racismo, homofobia. Essas questões eclodem no contexto social, e a ideia é ver como elas eclodem, e como a palhaça [sua personsagem] desconstrói essas situações através da interação.

Não fui até a escola, mas de certa maneira a escola veio até a mim, porque comecei a acompanhar minhas filhas na escola. Isso me permitiu, por exemplo, ver o que está no livro didático. A mesa da sala fica forrada de livros e cadernos. Fico direto no computador e acompanhando as duas, cada uma numa disciplina. Tá sendo bem difícil acompanhar as duas na escola. A sorte minha é que o conteúdo escolar faz parte da minha pesquisa: observar como esse conteúdo é tratado nos livros didáticos, como a escola inclui e não inclui esses temas que são fundamentais para a formação da cidadania. Então isso faz com que haja interesse da minha parte em acompanhá-las na escola, junto com a maternidade. Agora eu te digo, eu sou uma mãe diferente por conta disso. Para uma mãe trabalhadora que não tem como objeto de trabalho esses conteúdos escolares, nossa, eu acho impossível.

Outra coisa que estou fazendo são as lives. São como aulas preparadas e estudadas. Demoro cerca de quatro horas para fazer cada live. Mas faço elas uma vez por semana, nas sextas às 9 da manhã, pelo Instagram. E faço encontros semanais ou quinzenas com meus alunos. Então a parte da docência estou levando dessa maneira. E nada disso retira o que eu vou ter que repor. Vou ter que repor tudo quando voltarmos. Agora, acompanhar as crianças na escola, isso sim tá sendo uma tarefa de gigante, viu.

No começo me estressava com minhas filhas, porque não sou professora de criança. Você tem que lidar com o emocional da criança, com a falta de vontade da criança, com o fato de você ser a mãe e não a professora, portanto é outra dinâmica. É super desgastante.

José Renato Mangaio – docente do curso de Artes Cênicas da UFSM

“Tenho 2 filhos: um de 10 anos que é o Miguel, e um de 7, que é o Ângelo. Tenho desenvolvido mais atividades de pesquisa e extensão de forma remota. Da docência eu já desisti de desenvolver, porque ficaram inviáveis, chegou a um ponto que estava difícil estabelecer contato com alunos e, além disso, minhas atividades são eminentemente práticas. Sou professor de Expressão Corporal e Vocal nas Artes Cênicas, imagina fazer isso online. Muitas das disciplinas exigem contato físico - ateé para a segurança dos alunos, tenho que estar observando. Outra disciplina que tenho é Prática Pedagógica em Teatro, que precisaria ser desenvolvida em alguma escola ou comunidade. Como vou fazer isso na atual conjuntura? Então as atividades docentes estão interrompidas, pois são práticas.

Em relação a conciliar atividade de trabalho com filhos, agora mesmo que estou respodendo a esse questionário, meu filho mais novo está brincando comigo, enquanto o mais velho está estudando línguas. A demanda doméstica sempre foi alta, e às vezes a gente não percebe por conta do ritmo da vida externa à casa. Eu sempre tive essa oportunidade de participar muito ativamente na educação dos filhos, e a gente percebe que é fundamental. Mas agora, dentro da quarentena, isso fica muito intensificado, porque nós passamos a ser responsáveis por questões que antes eram delegadas aos professores. Por exemplo, eu tenho que escrever daqui a pouco, junto com meu caçula, uma atividade sobre ‘O negrinho do pastoreio’. Ele está sendo alfabetizado e isso demanda uma atenção para que aquilo seja feito com qualidade.

Além disso, as atividades que estou fazendo em extensão envolvem dois grupos de pesquisa. Estamos conseguindo produzir vídeos e fazer imagens para eventos. Estou fazendo algumas lives. A gente está produzindo a partir de um texto que veio direto da Inglaterra para nós. Então tem uma série de coisas que estão acontecendo e a gente faz nesse meio tempo da loucura da vida doméstica e da própria condição que afeta a gente, de uma rotina alterada.

Eu poderia ser rigoroso estabelecer uma distância dos meus filhos [enquanto estivesse trabalhando], mas isso não seria humano. Numa condição tão sensível, as demandas não fluem de acordo com o planejamento. A vida também não é planejável assim como talvez muitos de nós achávamos antes do coronavírus. Eu particularmente já tinha desconfiança de que não era tão planejável assim. A gente pode fazer rotinas e essas rotinas vão ser rompidas porque o dia a dia está exigindo outras demandas que surpreendem.

As novas exigências que a gente está percebendo que acontecem em relação à forma de produzir, ao acesso ao material, às trocas que eventualmente nós faríamos com nossos pares ou alunos, agora estão sendo mediadas pelas mídias. Eu sou do teatro, não sou do cinema nem do vídeo, a mídia é outra, teatro é ao vivo. Agora a gente está tendo que aprender e reaprender a lidar com as ferramentas tecnológicas que possam nos ajudar. Meu computador, por exemplo, é completamente obsoleto, muito inferior ao que eu usava no meu trabalho, que também já estava velhinho. A gente tem que usar o nosso computador de casa, doméstico, para resolver problemas”.

Claudia Bomfa – docente do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM

Minha filha tem 6 anos. Tenho desenvolvido todas as atividades de forma remota, inclusive a tutoria do PET CiSA. Está sendo bastante difícil conciliar as tarefas de casa com as tarefas relacionadas à maternidade! Minha filha exige atenção e cuidados especiais, pois está em período de alfabetização. Com as aulas suspensas, tenho que dividir com meu marido as atividades de casa, os cuidados com ela, auxílio nas atividades escolares, momentos de brincar. Está sendo um grande desafio! Precisei me reorganizar, reinventar e pensar em novas lógicas de trabalho, em ambiente online. O escritório de casa está sendo utilizado pela família, então difícil separar as rotinas. Eu e meu marido trabalhando em casa, cuidando de nossa filha, atendendo suas necessidades e também desempenhando as atividades profissionais. Estas também de certo modo com limitações, pois muitos dos alunxs não têm condições de acompanhar as aulas por falta de conexão ou equipamentos. Enfim, dentro deste turbilhão temos que nos reinventar e também cuidar da nossa saúde mental, para que possamos desempenhar nossas múltiplas tarefas em um período que certamente vai passar! ;)”.

Felipe Ricachenevsky – docente do departamento de Botânica da UFRGS

“Minha filha Maya acabou de fazer quatro anos. A UFRGS não está tendo aulas de forma virtualizada. Há algumas disciplinas eletivas que estão sendo dadas, com poucos alunos. Mas uma das preocupações é com que todos os alunos consigam assistir. A gente sabe que as realidades são muito diferentes. Alguns alunos não têm acesso a computador ou a uma internet estável que permita uma aula adequada. No momento não temos calendário oficial, mas mesmo assim a gente não para.

Vim para cá [UFRGS] com dois alunos de doutorado, uma de pós-doutorado e um aluno de mestrado que defendeu um pouco antes de entrarmos em quarentena. Tenho muitas atividades de pesquisa e boa aprte do tempo que dedico para trabalhar é em relação à pesquisa. Tem artigos para escrever, dados para anlisar, discussões para serem feitas com colaboradores. Além disso estamos organizando um congresso que já foi adiado - seria em abril ou maio do ano que vem, e agora será em 2022. Além disso eu participei da semana acadêmica do curso de Biotecnologia da UFRGS na semana passada. A gente tem reuniões do ‘Parent in Science’ que têm ocorrido com uma certa frequência, pois temos realizado algumas ações e recentemente publicamos uma carta na Science sobre o provável efeito mais drástico do trabalho remoto para as mães, já que elas têm toda a carga a mais de cuidar dos filhos e estar com os filhos em casa. Isso certamente vai criar uma disparidade quando sairmos da pandemia e fazermos essa transição de volta para o trabalho presencial. A gente vai ter competição por recurso e editais e certamente quem ficou em casa cuidando dos filhos e sem apoio da escola ou familiares acabará prejudicado. Tem muitos profissionais que estão dizendo que teremos uma superprodutividade nesse momento, porque está todo mundo em casa sem atividade de docência. Isso não é a realidade.

Minha filha tem quatro anos e três encontros com a professora dela durante a semana, com a educadora. Realmente eu vou te dizer que é um desafio enorme. A gente tenta, eu e minha esposa, que também é cientista e tem várias atividades de pesquisa. A dificuldade é muito grande. Nossa atividade é basicamente intelectual, exige criatividade e concentração para a leitura, escrita, pensar. Isso é uma coisa em que tu normalmente precisa de algumas horas focado. A gente não tem esse tempo. A gente se divide, mas moramos num apartamento que não é grande. A gente não tem como se esconder muito. Uma criança de 4 anos, cheia de energia, faz barulho, eventualmente corre, grita, faz bagunça, porque é isso que uma criança faz. Como eles não podem fazer isso na rua, a gente tem que imaginar coisas para eles fazerem dentro de casa. Só que isso não cria um ambiente adequado para outra pessoa estar sentada ali trabalhando. Ainda mais nesse nosso trabalho que não é mecênico, repetitivo.

Acabamos trabalhando de forma intermitente. Trabalha quarenta minutos, uma hora, e paramos um pouco. Tu está sempre saindo e voltando. Essa é uma dificuldade bastante grande. A gente acaba trabalhando um bom número de horas por dia, mas é sempre de forma intermitente.

Maya é uma criança muito parceira. Gosta de se concentrar. Faz muito bem as atividades da escola, mas pergunta, conversa. Nunca estamos isolados realmente.

Somos afortunados. Temos duas pessoas para uma criança, dividimos tudo dentro de casa. Nosso trabalho já tinha uma certa maleabilidade em termos de horário. Não somos as pessoas que estão perdendo salário. O momento exige muita compreensão”.

 

Texto: Bruna Homrich

Arte: Bruno Silva

Fotos: Arquivos Pessoais

Assessoria de Imprensa da Sedufsm



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