Quanto se ganha quando a gente perde?
Publicada em
15/07/2026
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Embora pareça, este não é um texto sobre futebol. Até porque eu seria uma pessoa pouquíssimo indicada para falar sobre esse assunto. Nunca em toda a minha vida entrei em uma quadra ou em um campo, poucas vezes chutei uma bola e, até hoje, não entendo muito bem a regra do impedimento. Me permitam ainda mais uma contextualização sobre a minha inadequação enquanto comentarista de futebol. Na minha época de colégio, na educação física, era (infelizmente) assim: meninos jogavam futebol, meninas jogavam vôlei. Eu, que não era muito habilidosa, também não encontrei ali um lugar para me desenvolver.
Em todas as aulas, passava pelo constrangimento de ser a última escolhida para compor os times, pois ninguém me queria no seu. Entendi que esporte não era muito a minha praia, para dizer isso com certo eufemismo. Por isso, nunca fui aficionada em nenhuma modalidade, tampouco no futebol. Como torcedora, me enquadro em uma categoria pouco lisonjeira: sou uma clássica “vira-casaca”.
Já que o futebol, os times e os campeonatos nunca fizeram muito sentido para mim, torcia apenas como uma forma de agradar outras pessoas. Assim, quando criança, fui por um tempo colorada para agradar minha mãe, um pouco gremista para agradar meu pai e, hoje, acompanho meu companheiro torcendo pelo seu Internacional. De fato, não me faz muita diferença.
Mas em um contexto de Copa do Mundo? Nesse caso, já me agrada um pouco mais. Gosto do sentimento de excepcionalidade do período, da quebra de rotina, dos motivos para confraternizar e torcer. Mas isso não modifica muito a minha relação com o esporte em si: desconheço os jogadores, o técnico, não consigo formular palpites ou previsões. No máximo, avaliar que faltou garra, coragem ou vontade, essas coisas mais genéricas e visíveis até para leigos.
Mas se a maternidade transforma o sentido das coisas, a maternidade atípica é uma revolução. E essa Copa do Mundo teve justamente essa característica. Um A.C. e um D.C.: antes e depois da Copa. Mas não espere muito do meu relato. Eu só tenho detalhes, miudezas, puro suco de cotidiano. Já parou para pensar quanta técnica, paciência e controle são necessários para descolar uma figurinha do liner? Quanta motricidade fina é necessária para colar essa figurinha no álbum? Eu, que não sou especialista em esporte, também não sou especialista em neurodesenvolvimento, mas sei converter essas operações que, num primeiro olhar parecem banais, em complexidade e, no dia a dia, em autonomia: tudo isso pode virar manuseio de talheres, amarrar os tênis e abotoar a roupa. E isso é muito.
Antes do início do campeonato, porém, expectativas rebaixadas. Meu filho nunca havia se interessado por futebol, até porque seus interesses estão concentrados em uma área específica: animais, especialmente os macacos. Faz alguns anos que ele diz que será primatólogo. E ele tem apenas seis. É um pequeno especialista. Com ele, aprendi que existem centenas de espécies de macacos, a diferença entre babuínos e mandris, e como diferenciar um Papio hamadryas de um Erythrocebus patas. Mesmo sabendo tudo isso, de outras coisas ele sabe menos, como fazer amigos, por exemplo. Está aprendendo, mas definitivamente não é o seu forte. Puxar assunto, falar do tempo, ler os sentimentos de um rosto… coisas tão banais, você pode pensar. Nem um pouco em um contexto de neurodivergência.
É, dificilmente vai se conectar ao futebol… um universo do coletivo. Das trocas, de uma certa malandragem, da malemolência de quem finge que vai chutar em um canto e bate no outro. Dos sentimentos que vão do amor ao ódio em segundos: como é que foi perder essa bola? Mesmo assim fizemos a nossa parte. Víamos uma oportunidade ali e acreditamos, que é o superpoder dos pais atípicos: acreditar no próprio filho, no seu desenvolvimento, nas terapias, acreditar que o mundo será cada vez mais empático. Acreditar. Como quem torce.
Contamos sobre o que é a Copa do Mundo, compramos camiseta, álbum e figurinhas, embora sempre com a ressalva de que seria muito difícil e muito caro preencher um álbum inteiro. Previsibilidade é tudo. E, aos poucos, a mágica foi acontecendo. Assim como as cidades vão ganhando as cores dos países: num dia a bandeira vai para a sacada, no outro a calçada ganha uma pintura, depois o rosto.
E a empolgação foi sutilmente chegando por aqui também. Um dia ele pediu para usar a camiseta do Brasil na escola; no outro, comentou sobre um jogador, depois sobre Luka Modric, Lamine Yamal, Ronwen Williams. Decorou todas as bandeiras, as curiosidades sobre os países, apaixonou-se pelos mascotes, o que já era de se esperar. Mas foi mais do que isso. Um universo se abriu para meu filho, e isso é muito para quem tem a tendência contrária. Pediu para levar a bola e jogou com os colegas na escola. E eu nem consigo descrever em palavras o quanto isso significa. Por fim, chorou, xingou a Noruega e viveu intensamente o sentimento da derrota. Aprendeu um pouquinho mais a perder. E, desculpa, Brasil, mas aqui em casa essa foi a lição mais importante nessa Copa de tantas vitórias.
Sobre o(a) autor(a)
Professora Associada do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM