Plenária docente discute sobrecarga de trabalho, desvio de função, adoecimento e precarização na UFSM
Publicada em
03/06/26
Atualizada em
03/06/26 11h49m
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Debate com a categoria continua em plenária online na manhã da próxima terça (9); relatos serão encaminhados à Reitoria e sindicato cobrará medidas para solucionar e amenizar os problemas
A dificuldade de encontrar novas coordenações para os cursos, o trabalho que invade fins de semana e férias, a transferência crescente de tarefas administrativas para docentes e os impactos na saúde mental de todas e todos na universidade. Esses foram alguns dos relatos que apareceram durante a plenária que a Sedufsm realizou na tarde desta terça-feira, 2 de junho. O objetivo da plenária partiu de uma demanda da própria base do sindicato, sintetizada na discussão a respeito da sobrecarga de trabalho e o desvio de função na UFSM. A atividade, realizada no Auditório Sérgio Pires, no CCNE, reuniu docentes de diferentes unidades acadêmicas para compartilhar experiências e discutir possíveis encaminhamentos para problemas que têm se tornado cada vez mais frequentes na universidade.
A plenária se organizou no formato de uma roda de conversa para favorecer a escuta de experiências e relatos de professoras e professores. Este foi o primeiro de dois encontros previstos pela Sedufsm sobre a temática. A próxima plenária ocorrerá já na terça-feira, 9 de junho, às 9h, em formato online, com o objetivo de ampliar a participação de docentes de todos os campi da UFSM (Santa Maria, Frederico Westphalen, Palmeira das Missões e Cachoeira do Sul).
As discussões retomaram preocupações já apresentadas pela categoria durante reunião realizada no começo de maio entre a diretoria da Sedufsm e integrantes do Conselho de Representantes. Na ocasião, foi encaminhado à Reitoria um documento solicitando providências em relação aos desvios de função atribuídos a docentes.
Já no início da discussão sobre desvio de função na UFSM, a diretoria da Sedufsm reforçou que o sindicato não é contrário à greve dos Técnicos-Administrativos em Educação (TAEs), respeitando a autonomia e apoiando as motivações do movimento paredista. Também foi ressaltado que o desvio de função afeta não apenas a categoria docente, mas igualmente os próprios TAEs ao descaracterizar atribuições específicas, contribuindo para um discurso de enxugamento e desvalorização desses profissionais.
Ao longo da plenária, participantes apontaram que a sobrecarga de trabalho e a transferência de atribuições administrativas para docentes têm se intensificado nos últimos anos, especialmente após a pandemia de 2020 e 2021. Professoras e professores com mais de três décadas de atuação na UFSM relataram que as mudanças ocorridas no período alteraram profundamente a dinâmica institucional. A digitalização, o enxugamento de pessoal e o esvaziamento dos espaços compartilhados são alguns elementos que aparecem nesse cotidiano assoberbado na universidade.
Entre os pontos mais recentes, foram destacados o recente processo de oferta de disciplinas para o semestre de 2026/2. Segundo informações apresentadas, coordenações de curso foram orientadas a assumir a viabilização operacional da oferta, atividade tradicionalmente desempenhada com suporte técnico-administrativo. A situação ocorre em um contexto de déficit de TAEs na UFSM e de greve da categoria, iniciada no final de fevereiro de 2026.
A avaliação compartilhada durante a plenária é de que a transferência de responsabilidades administrativas para docentes vem ocorrendo de forma gradual desde a implementação da integração das secretarias dos cursos e da digitalização dos processos administrativos. Atualmente, a sobrecarga administrativa atinge amplamente todas e todos os docentes, com impactos cumulativos sobre coordenações de graduação, pós-graduação e chefias de departamento.
Relatos evidenciam acúmulo de tarefas administrativas por docentes
Os relatos demonstraram a diversidade de situações enfrentadas no cotidiano docente, ao mesmo tempo que sinalizaram para experiências em comum. Foram mencionados casos em que coordenadoras e coordenadores precisam produzir atas de reuniões de colegiado por conta própria ou agendar previamente esse serviço junto às secretarias; docentes responsáveis por organizar integralmente viagens de estudo, incluindo coleta de dados pessoais de estudantes e trâmites administrativos; e coordenações que respondem simultaneamente por mais de um curso.
Também foram relatadas responsabilidades relacionadas à gestão de Processos Eletrônicos Nacionais (PEN), cadastramento de bolsistas, encaminhamento de processos administrativos e até a realização de levantamentos patrimoniais de salas. Em diversos casos, participantes apontaram que atividades não previstas nas atribuições do cargo docente vêm sendo incorporadas à rotina de trabalho com certa “normalidade”.
A falta de docentes em determinados cursos também foi apontada como fator de sobrecarga. Nos cursos de Dança e Teatro, por exemplo, foi relatado carga horária elevada sem a quantidade necessária de docentes nos cursos de licenciatura para atender às demandas previstas desde o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni).
Outro aspecto recorrente foi a ampliação da jornada de trabalho para além dos horários formais. Docentes relataram que a gestão administrativa realizada por aplicativos de mensagens tem produzido uma lógica de disponibilidade permanente, alcançando finais de semana e feriados. Da mesma forma, editais internos de pesquisa e extensão, bem como processos seletivos da pós-graduação, frequentemente exigem atividades durante períodos de gozo de férias e descanso semanal. Chefias de departamento estão encaminhando processos de regime domiciliar de estudantes diretamente para os próprios docentes e as professoras e professores, em alguns casos, não podem acessar salas de secretaria para impressão de provas e documentos avaliativos de suas disciplinas.
A dificuldade de encontrar docentes dispostos a assumir funções de coordenação também apareceu nos relatos. A elevada carga administrativa associada aos cargos de gestão tem provocado adoecimento e desestimulado novas candidaturas. Foi citado o caso do curso de Agronomia, que abriu edital para escolha de nova coordenação sem registrar candidaturas.
Questões estruturais também foram apresentadas. Entre elas, a situação do prédio dos cursos de Dança e Teatro, que, conforme relatado, está há oito anos sem elevador e sem sistema de ar-condicionado, comprometendo as condições de trabalho e o desenvolvimento das atividades acadêmicas.
A diretoria da Sedufsm ainda reforçou: todas as funções que não estão previstas no edital do concurso do servidor público são caracterizadas como desvio de função. A Lei nº 12.772/2012, por exemplo, estabelece que as atividades da carreira do Magistério Federal estão relacionadas ao ensino, à pesquisa, à extensão e às funções de direção, assessoramento, chefia, coordenação e assistência na própria instituição. Da mesma forma, o Estatuto da UFSM e o Regimento Geral da universidade definem as atividades próprias do pessoal docente e estabelecem que funções ligadas às áreas de planejamento, administração, recursos humanos, finanças, serviços gerais e infraestrutura não integram as atribuições da carreira do magistério.

Saúde mental e inteligência artificial também entram no debate
A plenária abordou com preocupação os impactos da crescente utilização de ferramentas de inteligência artificial no ambiente universitário. As e os docentes levantaram preocupações sobre a ausência de diretrizes institucionais para lidar com o uso dessas tecnologias, tanto por docentes quanto por estudantes, bem como sobre os novos desafios e demandas que essas mesmas tecnologias vêm produzindo.
Ao longo da discussão, emergiu uma percepção compartilhada de desgaste generalizado na comunidade universitária. Docentes relataram dificuldades para organizar atividades presenciais, diante do acúmulo de tarefas e do cansaço vivenciado por diferentes segmentos da instituição. A saúde mental e o adoecimento foram apontados como preocupações que atravessam docentes, TAEs e estudantes, envolvendo toda a universidade em um contexto de adoecimento e fadiga.
Também houve reflexões sobre os modelos de gestão neoliberais que vêm orientando as universidades públicas. A plenária avaliou que políticas de redução e enxugamento de pessoal têm contribuído para o aumento da sobrecarga administrativa e pedagógica, afetando o funcionamento institucional e as condições de trabalho, consequentemente a saúde mental e a ideia de cooperação no trabalho.
Colega docente, queremos te ouvir! Nova plenária será na próxima terça (9), às 9h e em modo online
Como encaminhamentos da plenária, foi reafirmada a realização de uma segunda rodada de debates na próxima terça-feira, 9 de junho, às 9h, em modo remoto para contemplar a participação da categoria em todos os campi. A diretoria da Sedufsm reforça a importância da participação das e dos colegas como forma de coletar os relatos para que possam ser encaminhadas cobranças de possíveis soluções.
O link para ingresso na plenária online é: https://meet.google.com/ttb-yqow-gzc
A Sedufsm também informou que já encaminhou ofício solicitando audiência com a Reitora, a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) e a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progep) para tratar das questões relacionadas à sobrecarga de trabalho e ao desvio de função. A expectativa é que os relatos e apontamentos levantados nas plenárias subsidiem o diálogo com a Administração e a cobrança de medidas concretas como possíveis soluções.
Entre os encaminhamentos discutidos está ainda a necessidade de uma avaliação institucional sobre os impactos da integração das secretarias, incluindo seus resultados, consequências e a situação dos cargos técnico-administrativos não repostos ao longo dos últimos anos, desde que essa medida foi implementada.
Por fim, outro ponto aprovado foi a busca por diálogo com os sindicatos dos TAEs para discutir conjuntamente os efeitos das secretarias integradas, os desvios de função e a sobrecarga de trabalho que atingem todas as categorias da universidade.
Texto: Nathália Costa
Fotos: Nathália Costa
Assessoria de Imprensa Sedufsm
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