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30/04/2019   30/04/2019 18h16 | A+ A- | 881 visualizações

Professores da UFSM criticam corte de verbas nas Ciências Humanas

Noeli Rossato (Filosofia) e Everton Picolotto (Ciências Sociais) defendem autonomia das universidades


Abraham Weintraub, ministro da Educação, diz que corte nas Ciências Humanas objetiva 'respeitar os pagadores de impostos'

A declaração do presidente Jair Bolsonaro (PSL) sobre uma possível redução de investimentos em faculdades de Filosofia e Sociologia vem repercutindo e gerando críticas por todo o país. Para o docente do departamento de Filosofia da UFSM, Noeli Dutra Rossato, dizer que as Ciências Humanas não dão retorno imediato à sociedade é uma falácia, ainda mais em se tratando de períodos como o atual, permeado por sintomas de crises diversas, com destaque para a crise moral.

“É simples assim: deixamos de ser humanos ou somos menos humanos que antes. Passamos a roubar. Matar. Agredir. Tentar eliminar os demais. Enriquecer a qualquer custo. E não adianta defender a técnica sem desenvolvimento humano: isso é a barbárie. Os exemplos históricos do século XX são por demais convincentes. Duas guerras mundiais, bombas atômicas, fome, extermínios de etnias, racismo, enfim, tentativa de eliminar o outro que é diferente de mim”, opina Rossato.

Quem também compartilha da crítica às recentes declarações de Bolsonaro é o docente do departamento de Ciências Sociais da UFSM, Everton Picolotto, que lembra o estatuto de conhecimento científico já reservado a tais ciências, “que se ocupam da pesquisa sobre as desigualdades presentes na nossa sociedade, as relações trabalhistas, o campo da cultura, as relações interétnicas, gênero, Estado, poder, etc. O estudo destes temas, muitas vezes, mexe com assuntos espinhosos e que incomodam setores privilegiados e o próprio Estado por revelaram, por exemplo, as razões da riqueza de alguns na miséria de outros. Somos ciências incomodas para estes, mas essencial para evoluímos como sociedade e país”, diz o docente.

Quem lucra?

Ao defender a redução de orçamento para as áreas de Filosofia e Sociologia, o novo ministro da Educação, Abraham Weinbtraub alegou que “a função do governo é respeitar o dinheiro do pagador de imposto”. Já Bolsonaro disse que objetivo seria “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina”. Contudo, Rossato questiona sobre quem, de fato, lucra com os conhecimentos desenvolvidos dentro das universidades. Para o docente, não são as pessoas adoecidas das periferias, nem os pequenos produtores, por exemplo, mas a indústria farmacêutica [quase sempre estrangeira], o agronegócio [venenos, adubos] e o capital financeiro [bancos]. E esse lucro, explica o professor, é privatizado, embora seja fruto de investimentos públicos.

Deixar de investir nas Ciências Humanas significa, para Rossato, ir na contramão de todo o avanço tecnológico.

“Ultimamente presenciamos [...] uma ascensão das humanidades. Um dos motivos é que, com a crise do fordismo, em que tínhamos controle sobre o produto final, já não se sabe qual é o produto no final de um processo. Exemplo disso: temos a clonagem, a fissão nuclear e o próprio bombardeamento de imagens (fakes) nas redes sociais. Outros dizem que vivemos na era da pós-verdade. Que fazer, então? Refletir. Testar as fontes. Ter ética. Buscar a verdade. Para isso, o Brasil precisa de mais filosofia e menos ignorância nos seus ministérios e cargos públicos. A ignorância é a companheira inseparável da corrupção. E ambas levam desperdício de dinheiro público. Mesmo que, muitas vezes, tenham sido eleitas pelo voto popular”, comenta Rossato.  

Autonomia universitária

Tanto Rossato quanto Picolotto salientam que as universidades públicas brasileiras possuem autonomia, sendo tal preceito amparado pela Constituição Brasileira e a Lei de Diretrizes e Bases [LDB]. “Não cabe ao governo decidir quais cursos de graduação abrir ou fechar e a destinação de mais ou menos recursos para uns em detrimento de outros”, diz Picolotto.

Na avaliação do docente de Ciências Sociais, tais declarações de Bolsonaro e de sua equipe passam longe de abordar os reais problemas do país. “O desemprego só cresce, a economia está estagnada, os salários estão perdendo valor, o Congresso se ocupa com uma proposta de reforma da previdência que penaliza os mais pobres, entre outros assuntos graves, e o governo fica lançando polêmicas para não falar desses problemas”, pondera Picolotto, para quem o projeto de educação do atual governo “condena nossos jovens a serem força de trabalho acrítica e submissa”.

Texto: Bruna Homrich

Foto: Wikipedia

Assessoria de Imprensa da Sedufsm



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