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27/09/2013   27/09/2013 19h42 | A+ A- | 734 visualizações

Ato histórico em aldeia fortalece laços com indígenas

Lançamento de revista kaingang proporciona integração inédita


Registro em frente à escola indígena: momento para a posteridade

O motivo de se reunirem professores universitários, sindicalistas, integrantes de movimentos sociais e mesmo alunos de uma escola infantil da UFSM era bem singelo. Lançar oficialmente uma revista, editada pela Sedufsm, que conta a história das aventuras de uma criança indígena em meio à cidade dos homens brancos. Mas, o ato acontecido na tarde desta quinta, 26, na aldeia Três Soitas, em Santa Maria, trouxe outros simbolismos. Um deles, de resistência, já que a área em que desejam permanecer os kaingang está em disputa e, possivelmente em outubro, tenha uma definição por parte da Justiça Federal.

E um outro sentido do ato, que contou com a presença de uma figura histórica, como Irmã Lourdes Dill, do projeto Esperança/Cooesperança, de representações da Secretaria Estadual de Educação (8ª CRE), e da Secretaria de Cultura (Prefeitura Municipal), foi de demonstrar que a integração cultural é possível, que os indígenas podem e devem ser respeitados pela ancestralidade que possuem nas terras desse país e, que, sobretudo, têm algo a dizer para a construção de um “outro mundo possível”.

Augusto Opê da Silva, 56 anos, também conhecido como Augusto Kaingang, importante liderança indígena da região sul, e que dá nome à Escola que funciona na aldeia, trouxe a mensagem mais dura e ao mesmo tempo mais tocante do ato. Se qualificando como um “sobrevivente do massacre feito no passado”, ele destacou que a revista que estava sendo lançada- ‘As aventuras do indiozinho Bretã’- “não é qualquer material”.

O líder indígena enfatizou que o material precisa ser distribuído nas escolas, pois a “história indígena não está nas escolas”. Para Augusto, as escolas e as universidades precisam se aproximar dos indígenas. E complementa: “a universidade carrega muitos conhecimentos, mas ela ainda não está pronta. Só vai estar pronta quando aprender a respeitar as diferenças, as diferentes culturas”.

Assim como outro grande líder, mas que era negro e viveu nos Estados Unidos, Augusto também diz ter um sonho. O sonho dele é que todos um dia se deem as mãos, sem olhar as diferenças, na construção de um mundo sem violência, sem injustiças. Que acabe a exploração a que são submetidos não apenas os índios, mas os negros, os sem-terra e todo o conjunto da classe trabalhadora.

Orgulho

Em sua manifestação, o vice-presidente da Sedufsm, professor Julio Quevedo, destacou a felicidade da diretoria da entidade em promover a publicação da revista. “É um orgulho dos professores estar ao lado do movimento indigenista, recuperando as memórias desse importante grupo étnico de nosso país. O fundamental agora é que essa publicação circule pelas escolas, tanto nas indígenas quanto nas não indígenas”, frisou Quevedo, que é docente do departamento de História da UFSM.
Natanael Claudino, cacique da aldeia Três Soitas, e também professor da Escola Augusto Opê da Silva, deu as boas vindas na língua kaingang, enfatizando a importância de mostrar à sociedade, através de uma publicação, como são e como vivem os indígenas. Ele fez um agradecimento à Sedufsm pelo apoio à causa dos indígenas.

A palavra também foi utilizada pela coordenadora do projeto Esperança/Cooesperança, Irmã Loudes Dill. Para ela, o momento era bastante significativo e acrescentou que, na opinião dela, as famílias indígenas deverão ganhar a causa de permanecer na área em que se encontram, pois está comprovado que elas têm cumprido um papel importante, dando uma finalidade social àquela propriedade.

Após a breve fala da secretária de Cultura do município, Marilia Chartune, que ressaltou que há espaço no Plano Municipal de Cultura para a cultura popular, foi a vez de Matias Rempel, do Grupo de Apoio aos Povos Indígenas (Gapin). Além de saudar as lideranças indígenas presentes, não apenas kaingang, mas também de parte dos guaranis, Rempel saudou a importância de ter parceiros como a Sedufsm e a Assufsm. Ele aproveitou e deixou um recado público para que a prefeitura de Santa Maria se envolva mais na questão indígena, principalmente no apoio para que as famílias permaneçam na área.

Alegria e reflexão

Para Sandro Tope da Silva, filho de Augusto Opê da Silva, e que foi o tradutor do português para o kaingang das histórias que constam na revista, o momento era de “alegria e reflexão”. Sandro, emocionado, cativou a todos cantando, violão e voz, músicas de sua própria autoria, que falam de paz, harmonia e justiça social.

Quem estava bastante emocionado também era Joacir Dias Xavier, o Jô. Ele foi o ilustrador, a pessoa que traçou as figuras que deram vida à história do indiozinho Bretã. Ele disse que faz parte da sua trajetória “abraçar as causas sociais” e colocou-se a disposição para auxiliar, através do desenho, as crianças que frequentam a escola indígena. Junto com ele também esteve presente Jader Guterres, do grupo teatral Saca Rolhas, responsável pela captação das histórias na aldeia indígena, que geraram a esquete, que depois foi transposta para a revista.

O ato desta quinta foi prestigiado também por lideranças indígenas guarani como Genicio Timóteo e Arlindo Benites. Contou com a presença da diretora da escola indígena, Ana Cristina Tavares Oliveira. Ela aproveitou a oportunidade para saudar a iniciativa da produção da revista e informar que já está sendo planejada a construção de um outro prédio para a escola.

Crianças da Ipê Amarelo visitam espaço indígena

Na tarde da quinta-feira, a aldeia kaingang também recebeu 26 crianças, de dois a cinco anos de idade, que estudam no Núcleo Infantil Ipê Amarelo, que funciona no campus da UFSM. Acompanhadas por diretoras, coordenadoras e algumas professoras da escola, as crianças devolveram a visita feita pelos curumins (crianças indígenas) ao Ipê, ainda no ano passado, quando assistiram à peça de teatro sobre o indiozinho Bretã. Para a diretora da creche, Viviane Cancian, nesses momentos de intercâmbio de culturas, as crianças podem entender o que é valorização e inclusão social. Duas canções kaingang foram cantadas pelos pequenos índios, que, ao fim, foram presenteados por brinquedos recicláveis confeccionados pelas próprias crianças da creche. Além disso, várias também levaram outros brinquedos, cobertores e agasalhos para doarem aos indígenas.

“A Ipê tem uma proposta diferenciada. Não incentivamos o consumo, trabalhamos numa perspectiva mais voltada para a valorização do humano. O índio, no nosso entender, é uma das etnias mais excluídas nesse país. E esse momento é importante porque os alunos levarão para suas histórias o respeito a esses seres humanos tão discriminados na sociedade. Penso que vale a pena investirmos nessas crianças”, diz Viviane.

O cacique kaingang, Natanael Claudino, explica que, para a comunidade indígena, o encontro também foi muito importante, já que a educação é vista como a principal via para liquidar o preconceito existente. “Hoje quando crianças não indígenas vêm visitar a aldeia, notamos no rosto de cada uma que elas já saem daqui com a opinião mudada para o futuro. Porque a história verdadeira não é aquela que, muitas vezes, os professores contam nas escolas. A comunidade está de braços abertos para receber visitas de crianças e escolas. Que essa seja a primeira de muitos”, deseja o cacique.

Durante a visita, as crianças ainda assistiram a imagens da peça de teatro, elaborada pelo Teatro Saca Rolhas, apresentada em 2012 na escola Ipê Amarelo. A exibição aconteceu na casa que abriga a escola estadual indígena Augusto Opê da Silva. Depois ainda foi incentivado um tour pela aldeia, onde as crianças conheceram o cotidiano dos moradores, como por exemplo, o trabalho na horta. A tarde foi de descontração e integração entre as culturas, o que pode ser constatado até na hora do lanche coletivo.

Texto: Fritz R. Nunes e Bruna Homrich (estagiária)
Fotos: Bruma Homrich e Renato Seerig
Assessoria de Imprensa da Sedufsm

 



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