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12/04/2020   13/04/20 09h02 | A+ A- | 13548 visualizações

Os desafios do isolamento social na visão de alguns professores

UFSM suspendeu atividades acadêmicas e administrativas em 16 de março e segue assim até 15 de maio


Comunidade da UFSM encontra-se em isolamento social desde o dia 15 de março

Desde o dia 16 de março, as atividades acadêmicas e administrativas da UFSM foram suspensas (e assim se manterão até o dia 15 de maio). Já faz quase um mês que professores, técnico-administrativos e estudantes, passaram a conviver com uma realidade com a qual ninguém havia imaginado: o isolamento social. O distanciamento físico, a reclusão, com várias facetas: há quem more sozinho, há que more com familiares, há quem tenha filhos.

Cada docente enfrenta uma realidade que é só sua, com interpretações peculiares sobre o momento em que vivemos, acuados por um vírus, que é invisível, mas extremamente letal, e estupefatos não apenas pelos números de contagiados e mortos pelo novo coronavírus, mas também pela deterioração política expressada pelas mais altas autoridades da República. Sendo assim, impossível não pensar o futuro com apreensão, seja por ter que lidar com a possibilidade de ser atingido pela Covid-19, ou mesmo em relação ao que será o futuro econômico e social do Brasil.

A ideia dessa pauta foi buscar, de forma aleatória, professores (e professoras) de áreas diferentes do conhecimento. Saber como estão encarando essa “quarentena”, de que forma estão se relacionando com alunos (as), de que forma desenvolvem o “fora da sala de aula”, e também como veem o futuro da universidade e do país, depois que cessarem essas medidas de isolamento, inéditas em quase 100 anos, pela dimensão planetária que atingiram.

Márcio Badke, do departamento de Enfermagem da UFSM (campus de Santa Maria) avalia que o atual momento é “delicado”. Isso, por que, segundo ele, “o curso de Enfermagem não foi ofertado como um curso em EaD, e nós, docentes e estudantes, não estamos preparados para realizar atividade que não seja presencial. Esta proposta (EaD) me trouxe muitas angústias, pois, em algumas ocasiões, tanto alunos como professores não têm acesso à internet ou computador em sua residência”.

Oscar Daniel Morales, professor de Música do CAL/UFSM, também vê este período cheio de desafios. “Estamos tendo que reinventar as nossas ações como profissionais da educação. Horários novos, dificuldades de comunicação com os alunos que não estão acostumados a este relacionamento a distância”, analisa ele.

Há, no entanto, quem encare o distanciamento, não apenas como preocupante, também como um momento de destaque para o aperfeiçoamento de outras formas de comunicação. É o caso do vice-reitor da UFSM, professor do departamento de Processamento de Energia do Centro de Tecnologia (CT/UFSM), Luciano Schuch. Para o professor, “a necessidade do distanciamento social é uma realidade totalmente diferente para mim, como marido, pai, professor e gestor. A adaptação é constante e o aprendizado de novas ferramentas de comunicação é uma realidade. Por um lado, o trabalho remoto é bom por estarmos em casa junto da família, por outro lado, exige disciplina e foco para desenvolvermos nossas atividades. A maior angústia é com a quantidade de informações sobre a pandemia do Coronavírus e as mudanças constantes das normas, decretos e legislações que exigem muita atenção e tomadas de decisões a todo momento”. Schuch ressalta que não está ministrando as disciplinas da graduação, apenas as da pós-graduação.

Angústias e preocupações

A realidade do isolamento social, como destacou o vice-reitor, sem dúvida é um grande desafio, e seus efeitos atingem as pessoas de forma diferenciada. O relato da professora Luciana Carvalho, do departamento de Ciências da Comunicação, campus de Frederico Westphalen, dá uma pequena dimensão. “Não tem sido fácil manter o foco para trabalhar remotamente, mas tenho tentado ser produtiva, até para não pirar. Tenho muita insônia e o dia rende pouco, embora sempre tenha várias demandas e eu procure dar conta de todas. Estar em família ajuda, mas aumentam as demandas para dar conta, também. Tenho uma filha adolescente comigo, cheia de tarefas da escola. Intercalo momentos de tranquilidade com outros de muita angústia. A noite é mais difícil, a cabeça não para, as dúvidas sobre o futuro não dão trégua”, frisa ela.

Para o professor do departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural do CCR/UFSM, Marcos Piccin, é um grande desafio para quem tem uma criança em casa, de dois anos e meio. “Quem tem criança em casa deve ter uma experiência diferente para contar, pois uma criança dispende muito tempo. Eu e minha esposa nos dividimos, procurando que cada um tenha um turno para se envolver com a criança, que agora não tem mais a escolinha. E outro turno para trabalho. Mas, mesmo tentando dividir-se, é difícil, pois criança exige atenção, quer fazer coisas para não ficar entediada, e não entende essa história de dividir os turnos”, salienta Piccin.

Por isso, diz ele, eu vejo que, para docentes que possuem filhos, fica muito difícil implementar o trabalho em casa, de seguir com as aulas. E acrescenta: “eu conversei com as minhas turmas e chegamos à conclusão de que não prosseguiríamos com as aulas. Apesar de mantermos contatos através da internet, as aulas não estão ocorrendo no modo virtual. Mesmo sem aulas, eu prossigo com outras atividades, em casa, que igualmente já eram desenvolvidas anteriormente, como por exemplo, montar relatórios de projetos, escrever artigos, etc.”

Tensão, produtividade e falta de planejamento

José Iran Ribeiro, professor do departamento de Metodologia do Ensino do Centro de Educação/UFSM, reflete sobre a produtividade durante o isolamento e a satisfação pessoal. Para ele, “o isolamento tem sido produtivo em atividades que podem ser realizadas com os limites da situação. Participei de algumas bancas de defesa de mestrado, posto atividades para alunos da graduação presencial e de cursos EaD utilizando o ‘Moodle’. Mantenho contato com colegas, inclusive por estar desempenhando a função de chefe substituto de departamento”.


No entanto, enfatiza ele, “não posso afirmar que é tranquilo. Há tensão, preocupação com o futuro, com a família, saudade dos amigos queridos, do convívio, com os alunos e alunas, com as pessoas que não dispõem de boas condições de ficar em casa, com a situação política do país em que o presidente não faz jus à sua responsabilidade e, ao contrário, parece desejar o caos. Há mais preocupação que tranquilidade, ainda que minha casa seja muito confortável”.
 

Roséli Nascimento, professora do departamento de Letras Estrangeiras Modernas, considera que tem alcançado uma produtividade parcial. “Trabalhando de casa, me vejo menos assediada por tarefas burocráticas e de atendimento ao público que acabam gerando interrupções, por exemplo, na concentração quando estou envolvida com produção intelectual ou mesmo preparação de aulas e correção de trabalhos”. Todavia, destaca que “um aspecto negativo é a falta de interação direta com os alunos em disciplinas com alunos de semestres mistos ou disciplinas introdutórias com alunos menos experientes ou maduros, que tendem a se perder, se distanciar e não têm base para avançar”. 

Para a docente, um outro aspecto que afeta a produtividade “é a falta de planejamento e apoio para elaboração de atividades pedagógicas remotas. O improviso, as tentativas e erros, a necessidade de planejamento não apenas intelectual, mas de tecnologias de informação/disseminação, e grande consumo de tempo para gravar, uma aparentemente simples, vídeo aula de 15 minutos, por vezes são frustrantes”. 

Além das preocupações com a situação do Brasil, cujo governo tem se perdido em embates entre o Presidente da República e o Ministro da Saúde, a professora Andréa Cezne, do departamento de Direito do CCSH/UFSM, aponta ainda outros motivos para estresse. Segundo ela, “no plano pessoal e profissional, essa situação tem sido muito angustiante. Para mim, não tem sido possível manter a produtividade. Por não ter conhecimento em determinados aplicativos, tenho optado ainda por meios mais tradicionais, como a preparação das aulas em ‘power point’ e disponibilização dos materiais escaneados aos alunos, bem como de exercícios de fixação, com um prazo bastante longo para entrega.  Infelizmente, a adesão tem sido bastante baixa”.

Andréa ainda faz a seguinte ressalva: “gostaria de dizer que não sou absolutamente contra o EaD, se é utilizado como uma ferramenta complementar. Ou se o curso é pensado desde o início dessa forma, com planejamento adequado e formação para os docentes atuarem na área, com suporte técnico. Não acredito que essas medidas de EaD, que foram estabelecidas de forma emergencial, e por isso mesmo sem a preparação necessária dos professores e alunos, vão suprir as necessidades de ensino- aprendizagem. Já temos uma situação emergencial que afeta o psicológico e a vida cotidiana de todos nós”, frisa.

Ensino virtual ainda como uma possibilidade

Vânia Rey Paz, professora do departamento de Administração, do campus de Palmeira das Missões, explica que tem procurado desenvolver as disciplinas que ministra no modo ‘on line’ com os alunos. No entanto, ela diz observar que um número considerável não está participando. “Penso que muitos não têm acesso à internet, ou computadores para tanto, ou ainda nem sabem como fazê-lo”, comenta.

Na perspectiva da docente, a expectativa é de que “daqui para frente o trabalho docente, principalmente o exercido no modo presencial, será mais valorizado, pois essa experiência do isolamento demonstra a importância deste trabalho na vida de tantos brasileiros que não têm acesso às tecnologias e equipamentos, nem ao conhecimento para tanto, estão desplugados, assim como para a vivência da socialização das pessoas, tão necessária para sua formação profissional e cidadã”.

No que se refere ao futuro do país, Vânia avalia que está sendo pedagógica a experiência do isolamento, pois há algum tempo várias medidas foram tomadas para impedir o investimento em políticas públicas na importante área social do governo, englobando a saúde e educação. “E agora, nossa realidade demonstra o quanto dependemos vitalmente desses setores para encontrarmos alguma saída possível da encruzilhada em que nos encontramos”, assevera.

Para a professora Mônica Barboza, do departamento de Desportos Individuais do CEFD/UFSM, o isolamento tem sido produtivo “dentro das possibilidades, pois este ‘outro fluxo’ acaba permitindo ler, escrever e estudar com mais fluidez ou mesmo maturar com mais tempo os trabalhos enviados pelos/pelas estudantes para dar-lhes retorno. De todo modo, considero este processo a distância muito menos potente do que os encontros presenciais com a turma. Sobretudo para mim, que trabalho com o corpo na centralidade dos processos de ensino e aprendizagem (Dança-Licenciatura), a fisicalidade é extremamente importante e tem feito falta”, ressalta.

Mônica faz um relato de quem já tem experiência com ensino a distância. “Já atuei no ensino a distância e esta experiência certamente dá subsídios aos quais recorro. Tenho feito/elaborado atividades diferentes daquelas que eu adotaria presencialmente e tento manter-me em contato com as turmas sem, é claro, com isso, ficar sobrecarregada. Busco atender e responder trabalhos nos horários convencionais e não à noite.  E, durante o final de semana, faço uma ‘parada’. Este é um cuidado que precisamos ter, com certeza. Respeito também o meu tempo neste processo, que envolve adaptação a uma nova rotina que também tem acrescentadas tarefas domésticas”.

E os aposentados?

E como uma docente, aposentada há não muito tempo, encara essa realidade de distanciamento social? Marta Tocchetto, professora aposentada do departamento de Química do CCNE/UFSM, explica que um dos aspectos que lhe evita a angústia, é o fato de, mesmo já tendo deixado a atividade de sala de aula, conseguiu organizar uma rotina. Além disso, destaca outros “privilégios” como, por exemplo, morar em uma casa, ter um pátio, o que lhe permite o contato com animais, plantas, frutas, e ainda ter uma nora que é educadora física, e que acabou por se tornar a sua “personal”. Marta diz que uma das coisas que lhe faz se manter disciplinada no isolamento social, é a percepção de que é a única forma, atualmente, de evitar a disseminação da Covid-19. Para ela, fala mais alto o “senso coletivo”.

Sobre o futuro, ela entende que “o trabalho remoto vai ganhar um grande impulso com todas as iniciativas atuais para aproximar as pessoas e possibilitar o desenvolvimento de diversas atividades, de forma que não haja uma paralisia total”. Contudo, ela se preocupa com o fato de que essas “tecnologias possam ser usadas para o desmonte da educação, por meio de tornar o professor uma figura dispensável, em especial pelo governo federal que tem buscado de várias formas, a inanição das universidades e do sistema educacional. Estas ferramentas que poderiam dar um novo dinamismo ao ensino, podem ser virar contra o mesmo tendo em vista, a disposição já verificada deste governo”.

Por outro lado, ressalta Marta, “acredito que diversas barreiras para trabalhar e desenvolver atividades científicas serão derrubadas, pois grupos de várias partes do mundo estão trabalhando em conjunto e integrados aproximados pelas tecnologias digitais, tornando mais cristalinas as evidências de que sem ciência e educação não há saúde, economia e igualdade social”. Ela também diz acreditar que “as relações de trabalho serão alteradas, pois o desenvolvimento das mesmas, exclusivamente de forma presencial, está sendo desmistificada, demonstrando que é possível produzir e trabalhar remotamente com resultados expressivos”.

Fizemos, acima, uma brevíssima síntese do que falaram um total de 11 docentes, de áreas diversas. O tema não se esgota aqui, e muito menos o objetivo é dar unicamente voz à categoria de professores e professoras. Posteriormente, queremos trazer também depoimentos de estudantes e de técnico-administrativos.

E, agora, abaixo, você pode ler a íntegra das respostas dos docentes ouvidos, a partir das seguintes ideias gerais: “como está sendo o período de isolamento social; como está sendo o contato com os estudantes; quais as alternativas buscadas fora da sala de aula; e qual o futuro da universidade e do país”.
 

Oscar Daniel Morales

Professor do departamento de Música do CAL/UFSM

Como está sendo o período de isolamento social?

Este período de isolamento social está cheio de desafios. Estamos tendo que reinventar as nossas ações como profissionais da educação. Horários novos, dificuldades de comunicação com os alunos que não estão acostumados a este relacionamento a distância. Assim como mudamos o nosso trabalho devem mudar os parâmetros de avaliação. A cada tarefa vencida, como nova que é, a avaliação é positiva. Devemos reavaliar, reinventar, ser ousados a todo momento nas ações propostas, para não cair na angústia e no desalento. 

Atividade com estudantes

Com muitos alunos estamos em contato com atividades on line. Gravações de peças do repertório das disciplinas, discussões teórico–práticas, pesquisas. Entretanto, há um bom número de alunos com dificuldades de acesso. Isso me preocupa muito. 

Alternativas fora da sala de aula

A maior parte das disciplinas a mim assignadas são práticas. Assim sendo, tenho realizado gravações, procuramos exemplos na internet e compartilhamos entre os sujeitos participantes. Tenho usado o Moodle colocando algumas tarefas para os alunos. 

Futuro da universidade e do país

Tudo será diferente. Fica demonstrada a falência injusta e irresponsável deste sistema social em que estamos inseridos. Novas formas de relações sociais devem surgir. Nunca mais seremos os mesmos. Faço votos que o foco de vida possa sair do consumismo desenfreado e fique centrado em relações mais justas. Isso só será possível com estruturas educacionais justas. Os “heróis” e referências sociais, deverão ser outros. Não mais o jogador de futebol (gosto e curto muito futebol), será mais importante que o enfermeiro, o trabalhador da construção, o médico, a diarista ou o professor. Sei que este é um pensamento ideal, mas se me ocorre que somente assim meus netos poderão ter um país um pouco mais justo.

Márcio Badke

Professor do departamento de Enfermagem, CCS-UFSM, campus de Santa Maria

Como está sendo o período de isolamento social?

Sendo docente do curso de Enfermagem, a disciplina que estava ministrando antes do isolamento era teórico-prática, e não tive como continuar através de atividades remotas. Considero este isolamento uma situação delicada, pois como o curso de Enfermagem da UFSM não foi ofertado como um curso em EaD, nós, docentes e estudantes, não estamos preparados para realizar atividade que não seja presencial.

Esta proposta me trouxe muitas angústias, pois, em algumas ocasiões, tanto alunos como professores não têm acesso à internet ou computador em sua residência. Além disso, muitos professores-pais precisam cuidar de seus filhos ou de outros familiares que vivem sobre seus cuidados, sobretudo, idosos, o que dificulta ainda mais esse processo de atividades remotas.

Outra observação aflitiva é que um curso proposto via atividades remotas deve ser organizado em módulos, mas como a Enfermagem não pode ser um curso realizado exclusivamente a distância, nós, professores, não estamos preparados para realizar tais atividades domiciliares a distância com os estudantes, o que resulta em: cada um envia o que acha importante! Esquecendo que os estudantes participam de outras disciplinas no mesmo semestre, podendo gerar um sofrimento psicológico e sobrecarga de atividades.

Todas essas particularidades do curso de Enfermagem precisam ser revistas, especificamente junto aos órgãos gestores da instituição, pois muitas vezes fica como se o professor é contra os exercícios domiciliares a distância e não é isso. A situação é que para alguns cursos é inviável o andamento com exercícios domiciliares, sobretudo, em função do elo entre teoria e prática.

Contato com estudantes

Tenho realizado junto ao nosso grupo de pesquisa, a construção de projetos de conclusão de curso, assim como organização de atividades de pesquisa e extensão.

Alternativas à sala de aula

Busco divulgar nas redes sociais, informações que contribuam na formação de nossos estudantes, como o convite para lives referentes ao COVID-19 e os auxilio na construção de artigos científicos.

Futuro da universidade e do país

Espero que tudo volte ao normal, porque não existe a possibilidade de formar um estudante de Enfermagem no modo a distância. Deixo aqui uma reflexão: você gostaria de ser puncionado um acesso venoso periférico por um profissional formado por meio exclusivo de atividades remotas? No que se refere ao país, temos que priorizar a saúde SEMPRE e seguir as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Sendo assim, quem pode ficar em casa, que fique! E se precisar sair, utilize máscara, para proteção dos outros e de você mesmo.

Luciana Carvalho

Professora do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM, campus de Frederico Westphalen.

Como está sendo o período de isolamento social?

Fiquei duas semanas sozinha em Frederico Westphalen, depois de voltar de uma viagem a Brasília, no dia 16 de março. Assim que cheguei, cancelei minha aula ainda antes de a universidade ter suspendido as atividades presenciais. Incrível como tudo mudou rápido. Na sexta, viajei, ainda parecendo que a pandemia era algo distante. Na volta, no domingo, o medo já começava a ditar as regras. Só depois desse autoisolamento, para ter certeza de que não poderia contagiar alguém, vim passar a "quarentena" com a família, em outra cidade. Viajei sozinha, de carro, tomando todos os cuidados. Não tem sido fácil manter o foco para trabalhar remotamente, mas tenho tentado ser produtiva, até para não pirar. Tenho muita insônia e o dia rende pouco, embora sempre tenha várias demandas e eu procure dar conta de todas. Estar em família ajuda, mas aumentam as demandas para dar conta, também. Tenho uma filha adolescente comigo, cheia de tarefas da escola. Intercalo momentos de tranquilidade com outros de muita angústia. A noite é mais difícil, a cabeça não para, as dúvidas sobre o futuro não dão trégua. Outro problema é que, sem horários certos de trabalho, acabo trabalhando até tarde.

Contato com estudantes

Estou postando conteúdos e atividades semanalmente, no Moodle, e converso com os alunos via Whatsapp e e-mail. Testei algumas ferramentas para videoaulas, que darei início na próxima semana, para poder explicar melhor alguns conteúdos e atividades. Percebo que muitos alunos querem adiantar as disciplinas, outros estão com dificuldades psicológicas para lidar com a situação. A gente, enquanto docente, fica tentando atender a todos em suas particularidades, mas não é fácil. Muitos não respondem nossas mensagens, ficamos sem saber ao certo como agir. Eu creio que o melhor é usar do bom senso, e flexibilizar, neste momento, questões avaliativas, por exemplo. Além das aulas, faço orientações de TCC e projetos de iniciação científica, também nas plataformas digitais. Como estou na coordenação de curso, há eventualmente demandas de estudantes envolvendo a coordenação. 

Alternativas fora da sala de aula

Além das atividades do trabalho, procuro me manter informada sobre tudo que tem acontecido no país e no mundo, mas procurando diminuir o consumo de notícias porque estava ficando muito ansiosa. Tenho lido, assistido a filmes, comido bastante e tomado um vinho para relaxar. Está em projeto fazer meditação e alguma atividade física, mas por enquanto faltou força.

Futuro da universidade e do país

Pelas projeções que tenho acompanhado, das principais pesquisas científicas que tem saído, acredito que não conseguiremos retomar tão cedo as atividades presenciais na universidade devido à necessidade de manter e até reforçar o isolamento social. Mais cedo ou mais tarde, a UFSM acabará suspendendo o calendário, pois não me parece produtivo aproveitar as aulas feitas EaD, não em sua totalidade. Nossos cursos presenciais não podem ser substituídos, assim, de repente, pela modalidade remota. Estamos quebrando um galho enviando atividades pelo Moodle, nos mantendo ocupados e em interação com os alunos, mas o aproveitamento não é o mesmo. Infelizmente, teremos atrasos em formaturas, mas diante do cenário da pandemia, tudo se torna secundário. O mundo do trabalho está vivendo uma transformação abrupta, em uma época de tantas reformas que vieram só para prejudicar os trabalhadores. A população já estando sentindo na pele as consequências da precarização. É hora de fortalecermos a luta pelos direitos dos trabalhadores, por meio dos sindicatos, dos partidos e dos movimentos sociais. O país está, em plena pandemia, com um dos piores governos de sua história, um presidente que não está preocupado em cuidar da saúde da população e que compra briga com o ministro da saúde que, apesar dos pesares, tem se amparado pelos protocolos internacionais na condução da crise. O medo agora é que, após a ameaça de demissão, comece a flexibilizar as medidas de contenção. Além disso, um dos filhos do presidente e o ministro da educação resolvem criar crise com a China, atrapalhando negócios importantes no combate à pandemia. Ter de lidar com a Covid-19 e, ao mesmo tempo, com uma crise política, exige de cada um de nós ainda mais força. Não sei se é o momento de ser aberto processo de impedimento, Bolsonaro está enfraquecido, já se diz que quem está governando é uma ala do exército. Diante de tanta incerteza, é hora de reforçar o papel das instituições democráticas, como congresso e judiciário. 

Mônica Barboza

Professora do departamento de Desportos Individuais do CEFD/UFSM

Como está sendo o período de isolamento social?

É um outro fluxo de tempo, naturalmente. Porém, tenho considerado (isolamento) produtivo, dentro das possibilidades, pois este “outro fluxo” acaba permitindo ler, escrever e estudar com mais fluidez ou mesmo maturar com mais tempo os trabalhos enviados pelos/pelas estudantes para dar-lhes retorno. De todo modo, considero este processo a distância muito menos potente do que os encontros presenciais com a turma. Sobretudo para mim, que trabalho com o corpo na centralidade dos processos de ensino e aprendizagem (Dança-Licenciatura), a fisicalidade é extremamente importante e tem feito falta. Em termos de planejamento pedagógico estamos em uma segunda etapa, pois havia uma primeira proposta, no caso das disciplinas que trabalho, de desenvolver um semestre totalmente presencial, para uma nova roupagem que foi começando a “ser desenhada” no meio do caminho. Isto impacta uma série de coisas. Provavelmente, ainda teremos uma terceira etapa que será o que fazer e como conduzir o trabalho após este processo. Inicialmente, eu fui totalmente contra as atividades a distância para o caso das minhas disciplinas, pois desde sua elaboração nos PPCs foram pensadas no formato presencial e via enorme prejuízo neste processo novo. Também me preocupa a situação de acesso à internet e a computadores, pois sei que muitos estudantes têm dificuldade neste sentido. Quando comecei a ouvir e ler as orientações da instituição, iniciei um movimento de tentar pensar/desenvolver algumas estratégias para as disciplinas. Acredito que o contato com as turmas tem sido importante, sobretudo no que diz respeito a mantermos diálogo e alguma aproximação com os conteúdos que serão desenvolvidos. No meu caso, vejo que as propostas estão sendo instigantes para uma parte da turma, o que acaba ajudando-os a manter um melhor estado emocional diante de tanta instabilidade. Porém, tenho ouvido de alguns acadêmicos e acadêmicas que estão sobrecarregados e até perdidos em meio a tanto material recebidos de diferentes professores e matérias. No caso do Curso de Dança (uma das graduações em que atuo), nós, professores e professoras, realizamos uma reunião por skype bem no início do isolamento e decidimos, juntos, quais disciplinas teriam especificidades que permitiam as atividades domiciliares. Também elaboramos um calendário para envio das propostas. Acredito que dentro de todo o quadro que se apresentava foi sensato e ajudou, pois coletivamente foi organizado e encaminhado. Acredito que logo faremos uma avaliação como grupo, deste primeiro bloco de envios, para decidir como o curso seguirá atuando.

Contato com estudantes

Criei um grupo de ‘whats’ para dúvidas rápidas ou avisos e envio tarefas pelo email. As tarefas são pensadas de forma que sejam possíveis de serem realizadas nestas condições adversas e ao mesmo tempo motivadoras. Minha intenção é retomá-las no retorno aos encontros presenciais com experimentações práticas e reflexões mais aprofundadas. Retorno individualmente todas as tarefas respondidas por eles, de forma dissertativa. Este contato tem sido positivo. Porém, não é a totalidade da turma que responde e tenho dificuldades para saber sobre os demais pois não retornam as mensagens.

 Alternativas fora da sala de aula

Eu já atuei no ensino a distância e esta experiência certamente dá subsídios aos quais recorro. Tenho feito/elaborado atividades diferentes daquelas que eu adotaria presencialmente e tento manter-me em contato com as turmas sem, é claro com isso, ficar sobrecarregada. Busco atender e responder trabalhos nos horários convencionais e não à noite e, durante o final de semana, faço uma “parada”. Este é um cuidado que precisamos ter, com certeza. Respeito também o meu tempo neste processo, que envolve adaptação a uma nova rotina que também tem acrescentadas tarefas domésticas.

Futuro da universidade e do país

Bem difícil responder esta questão. Está tudo muito incerto, não sabemos como será. O que vejo, infelizmente, são tempos muito difíceis, sobretudo para os trabalhadores e trabalhadoras, pois as atitudes do governo federal, além de ineficazes, seguem uma linha cruel de ataques aos nossos direitos, iniciados desde o princípio do governo e que se mostram cada vez mais preocupantes neste período de pandemia. Vejo o capital sendo colocado acima das vidas e isto é cruel, brutal. Nestes momentos a luta de classes fica ainda mais evidente e os mais vulneráveis socialmente acabam sendo os mais atingidos. Precisaremos de resistência e organização coletiva.

Marcos Piccin

Professor do departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural do CCR-UFSM.

Como está sendo o isolamento social?

Tenho uma filha de dois anos e meio. Quem tem criança em casa deve ter uma experiência diferente para contar, pois uma criança dispende muito tempo. Eu e minha esposa nos dividimos, procurando que cada um tenha um turno para se envolver com a criança, que agora não tem mais a escolinha, e outro para trabalho.

Mas, mesmo tentando dividir-se na atenção é difícil, pois criança exige atenção, quer fazer coisas para não ficar entediada, e não entende essa história de dividir turnos.

Por isso, eu vejo que, para docentes que possuem filhos, fica muito difícil implementar o trabalho em casa, de seguir com as aulas.

Eu conversei com as minhas turmas e chegamos à conclusão de que não prosseguiríamos com as aulas. Apesar de mantermos contatos através da internet, as aulas não estão ocorrendo no modo virtual.

Mesmo sem aulas eu prossigo com outras atividades, em casa, que igualmente já eram desenvolvidas anteriormente, como por exemplo, montar relatórios de projetos, escrever artigos, etc.

Sobre o futuro, não tenho a menor ideia do que vai acontecer. No que se refere à universidade, eu continuo entendendo que as ferramentas de ensino a distância (EaD) são importantes acessórios, mas não podem ser a ferramenta principal. Defendo que o calendário acadêmico seja suspenso e um novo seja elaborado após o fim do isolamento social.

Para o futuro do Brasil, minha visão não é de boas expectativas. Com esse governo que aí está, o que se desenha é um quadro social caótico.

Luciano Schuch

Vice-reitor da UFSM, professor do departamento de Processamento de Energia do Centro de Tecnologia/UFSM.

Como está sendo o isolamento social?

A necessidade do distanciamento social é uma realidade totalmente diferente para mim, como marido, pai, professor e gestor. A adaptação é constante e o aprendizado de novas ferramentas de comunicação é uma realidade. Por um lado, o trabalho remoto é bom por estarmos em casa junto da família, por outro lado, exige disciplina e foco para
desenvolvermos nossas atividades. A maior angústia é com a quantidade de informações sobre a pandemia do Coronavírus e as mudanças constantes das normas, decretos e legislações que exigem muita atenção e tomadas de decisões a todo momento. A UFSM não parou e, mais do que nunca, está engajada em dezenas de projetos com a comunidade no combate ao Covid-19, nos quais servidores técnico-administrativos, docentes e estudantes estão diretamente envolvidos. Esse momento exige muito de nós, servidores públicos da área da educação, mas ao mesmo
tempo estamos tendo o reconhecimento do trabalho de cada um e da nossa Instituição, o que muito me orgulha.

Contato com estudantes

Como vice-reitor, não estou ministrando disciplinas na graduação. Meu contato com os estudantes é com as disciplinas do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e com a orientação de mestrandos e doutorandos. Com estes estudantes, mesmo antes da pandemia e da suspensão das atividades acadêmicas presenciais, já mantinha muitas
atividades remotas e orientações com apoio de ambientes virtuais. Acredito que as tecnologias educacionais em rede são ótimas ferramentas para complementar as atividades presenciais e para o acompanhamento individualizado do processo de aprendizagem do estudante.

Destaco que, em 2004, fiz meu primeiro curso de capacitação em educação a distância (Ead) e desde lá nunca mais deixei de estudar e utilizar tecnologias educacionais em rede para transformar a “minha sala de aula” e melhorar o processo de aprendizagem dos estudantes. Não é uma tarefa fácil e exige muito dos docentes e dos alunos, mas é muito motivador, pois nunca uma disciplina é igual a outra.

Alternativas à sala de aula

Como já mencionei, a UFSM não parou, apenas as atividades presenciais foram suspensas. Desta forma, o trabalho segue sendo realizado de forma remota, o que exige da gente ainda mais atenção e engajamento. Na gestão, como forma de aprendizado, temos utilizado diferentes ferramentas para fazer as reuniões virtuais (hangout, Jitsi e Zoom,
entre outas). Como professor, conheci o Google Classroom, uma ferramenta didática e amigável. O WhatsApp nunca foi tão utilizado como ferramenta de trabalho. Como pesquisador, voltei a ler artigos científicos usando bases de dados on-line. Como cidadão, tenho trabalhado como voluntário no conserto de respiradores mecânicos dos hospitais de todo o estado do RS. Nunca estive tanto tempo longe da UFSM e ao mesmo tempo tão conectado a ela.

Futuro da universidade e do país

A pandemia do Coronavírus ainda não chegou no seu ápice, aqui no Brasil. Espero que com as medidas de distanciamento social consigamos retardar e reduzir a sua intensidade, mas isso exige tempo e equilíbrio de todos. A ciência e a experiência de outros países têm mostrado que ficar em casa sempre que possível é a melhor
alternativa. Desta forma, a suspensão das atividades presencias na UFSM será mantida de acordo com as orientações do nosso comitê de avaliação do Covid-19 e da OMS.

Por outro lado, a UFSM tem oferecido suporte aos estudantes e aos servidores para enfrentar o período de distanciamento social e para realizar as atividades de forma remota, como por exemplo: ambientes virtuais de ensino, acesso remoto ao SIE/SIAPE, atendimentos médico e psicológico, ações culturais e esportivas, entre tantas outras. Além disso, vem desenvolvendo pesquisas e ações de apoio à comunidade e de combate à pandemia do covid-19, como por exemplo: Disque Covid-19, abertura da CTI do HUSM, produção de álcool gel, conserto de respiradores, produção de EPIs, entre outras. 

Em termos do trabalho, acredito que se institua uma nova relação com as tecnologias em rede para o apoio às atividades presenciais, o que para muitos já era uma realidade e para outros está sendo uma oportunidade “compulsória” de imersão no mundo virtual. Neste novo cenário, vamos aprender novas formas de produzir e de nos
relacionarmos, exigindo discernimento individual de utilizá-los da melhor forma possível no retorno das atividades presenciais.

Com relação ao ensino, acredito que, mesmo antes da pandemia do Covid-19, já não se distinguia o ensino presencial do ensino a distância. O conceito de ensino que tínhamos, e agora está mais presente, é o ensino mediado por tecnologias em rede, onde o docente é fundamental e insubstituível para conduzir e conectar os conteúdos e as tecnologias com a vida real, dando sentido, emoção e razão para o processo de aprendizagem.

Com relação ao país, temos que ter políticas de proteção à saúde da população (fortalecimento do SUS e das medidas de distanciamento social) e, ainda, políticas de proteção do emprego e da renda dos trabalhadores. Não podemos aceitar a falácia de escolher entre a saúde ou a economia, ambas devem andar lado a lado. Este é o papel fundamental do Estado e dos governantes.

Para finalizar, não posso deixar de destacar que a sociedade mundial está vivendo um momento doloroso, único e de constante transformação. Estamos revendo nossos valores, redescobrindo a importância da família, dos amigos e do consumo consciente. Estamos sentindo falta de um simples aperto de mão e de um abraço apertado. Temos a oportunidade de sair dessa crise mundial muito mais unidos, onde a solidariedade e a empatia serão as ‘armas’ da mudança.

José Iran Ribeiro

Professor do departamento de Metodologia do Ensino do CE/UFSM.

Como está sendo o período de isolamento social?

O isolamento tem sido produtivo em atividades que podem ser realizadas com os limites da situação. Participei de algumas bancas de defesa de mestrado, posto atividades para alunos da graduação presencial e de cursos EAD utilizando o Moodle, mantenho contato com colegas, inclusive por estar desempenhando a função de chefe substituto de departamento. 

Não posso afirmar que é tranquilo. Há tensão, preocupação com o futuro, com a família, saudade dos amigos queridos, do convívio, com os alunos e alunas, com as pessoas que não dispõem de boas condições de ficar em casa, com a situação política do país em que o presidente não faz jus à sua responsabilidade e, ao contrário, parece desejar o caos. Há mais preocupação que tranquilidade, ainda que minha casa seja muito confortável.

Contato com estudantes

Utilizo o ‘Moodle’ para postar textos e outros materiais para leitura e atividades. O skype para fazer reuniões, defesas de pós-graduação, etc. Whatsapp para reuniões. Facebook para conversar, acompanhar orientandos e demais estudantes.

Alternativas fora da sala de aula

Leio livros diversos da minha área de trabalho e pesquisa, mas também literatura diversa. Leio mais de um livro ao mesmo tempo. Assistir séries, filmes, ouvir músicas e vejo noticiários com moderação, apenas para acompanhar as notícias principais. Nem sempre muita informação ajuda.

Futuro da universidade e do Brasil

Não temos como prever nada ainda. Em breve, o inverno chegará, talvez com muito frio e ainda pode ser um contexto delicado, em razão dos casos de covid19 somando aos casos dos diversos tipos de gripe e problemas respiratórios normais do período. Então, acredito que vão demorar alguns meses para retornarmos ao trabalho normalmente.

Sobre o país, se não fosse a ação da maioria dos governadores, prefeitos, as pressões das redes sociais, dos profissionais de saúde, etc, já estaríamos numa situação muito pior, com mais casos e muitas mortes. A chefia do governo federal é inepta e desconsidera a seriedade da situação. Felizmente temos o SUS e um conjunto de instituições e profissionais, como as universidades e os centros de pesquisa para nos orientar e ajudar que o país passe da forma mais branda por esse grande desafio da pandemia. Haverá o problema da economia. Mas, como disse um dos maiores líderes políticos brasileiros, o ex-presidente Lula, primeiro devemos salvar as pessoas, depois a economia. Vai passar. Mas até lá precisamos ser responsáveis por nós e por todos e todas.

Roséli Nascimento

Professora do departamento de Letras Estrangeiras Modernas do CAL/UFSM.

Como está o isolamento social?

Relativamente produtivo. Trabalhando de casa, me vejo menos assediada por tarefas burocráticas e de atendimento ao público que acabam gerando interrupções, por exemplo, na concentração quando estou envolvida com produção intelectual ou mesmo preparação de aulas e correção de trabalhos. Um aspecto negativo é a falta de interação direta com os alunos em disciplinas com alunos de semestres mistos ou disciplinas introdutórias com alunos menos experientes ou maduros, que tendem a se perder, se distanciar e não têm base para avançar.  Outro aspecto que afeta a produtividade é a falta de planejamento e apoio para elaboração de atividades pedagógicas remotas. O improviso, as tentativas e erros, a necessidade de planejamento não apenas intelectual, mas de tecnologias de informação/disseminação, e grande consumo de tempo para gravar, uma aparentemente simples, vídeo aula de 15 minutos por vezes são frustrantes. 

As atividades de nossos projetos de ensino/extensão (cursos de idiomas para a comunidade de Santa Maria e da UFSM, testes de suficiência) foram todas adiadas. Eles envolvem agrupamento de pessoas. Não há como dar continuidade por via remota. 

De modo geral, tenho conversado com colegas, inclusive de outros departamentos, e a posição é de que temos que ter paciência com relação à situação inusitada, com as reações dos alunos e nossas próprias limitações neste momento. Todos estamos fazendo o nosso possível. Muitos de nós estão conciliando docência, pesquisa e atividades administrativas profissionais com 1) apoio pedagógico a filhos em "ensino domiciliar" improvisado, 2) assistência a parentes idosos ou com necessidades especiais (pela dispensa de profissionais antes contratados para tal) e 3) tarefas domésticas diárias (pela dispensa dos profissionais que atuavam no serviço doméstico para que eles também se protejam ou por evitarmos deslocamento a restaurantes). 

Contato com estudantes

Uso principalmente o moodle e o e-mail. O primeiro para disponibilizar o plano de atividades, as tarefas previstas para 6 semanas (de modo que os alunos possam se organizar, se programar dentro de sua rotina alterada), os textos teóricos que embasam as tarefas, handouts (material com dicas e conteúdos de apoio), vídeo aulas, inclusive um vídeo de caráter mais pessoal convidando os alunos a participarem na medida de suas condições (infraestrutura e emocionais). O e-mail é usado para avisar, alertar ou reforçar as demandas disponibilizadas no moodle e para recebimento de tarefas (tais como resenhas) e envio de feedback individual. Meu contato de whatsapp foi disponibilizado para dúvidas, mas os alunos não têm usado essa via. Ainda assim, na turma que mais tem respondido, isso se limita a cerca de 50% dos alunos matriculados. Em outra turma, de uma disciplina introdutória com alunos de semestres variados, apenas um aluno deu retorno. Então, não tenho insistido porque avaliei que será improdutivo. 

Alternativas fora da sala de aula

Além do que mencionei na questão anterior, ou seja, focar nas tarefas de produção escrita dos alunos, consegui finalizar um capítulo em co-autoria com colegas de outras IEs e submeter um artigo de minha autoria para revista acadêmica. Como atuo e um curso de formação de professores de língua estrangeira, os aspectos práticos e o desenvolvimento e avaliação da performance oral dos acadêmicos, que são cruciais, terão de aguardar o retorno das aulas presenciais. Nosso curso na UFSM não foi pensado para uma modalidade remota que dê conta desse aspecto da formação. 

Futuro da universidade e do país

O ponto positivo foi que alguns de nós, eu especialmente inclusa, fomos levados a perceber com mais ênfase as possibilidades de ferramentas de apoio às aulas e tarefas administrativas, por exemplo, reuniões virtuais que podem ser conduzidas mesmo que algum colega esteja em outra cidade, complementação das aulas, já que os alunos podem acessar o material postado pelo professor a qualquer momento, rever uma vídeo aula no seu ritmo e estilo de aprendizagem. 

Por outro lado, considerando se tratar de um curso/disciplina que não foi planejado para a modalidade EaD, em  função de uma crise de saúde com impacto psicossocial sobre todos, em cuja modalidade os alunos não assumiram compromisso de performar, penso que a instituição deverá buscar alternativas de como dar conta do contrato social ao qual aderimos. Já li a respeito de uma sugestão para mesclar 2020/2021. Podemos especular alternativas, mas acredito que a posição mais sensata é re-avaliar conforme avançamos. 

As universidades públicas me parecem estar focadas no que é mais importante neste momento: usar e explorar ao máximo sua expertise, sua infraestrutura, sua reputação para mitigar e se adiantar às consequências mais imediatas da pandemia.

Andréa Cezne

Professor do departamento de Direito do CCSH/UFSM.

Como está o isolamento social?

Para mim esse período está sendo bastante angustiante. Pelas atuais circunstâncias do país, e a insegurança gerada por uma crise sem precedentes, que afeta principalmente a saúde pública. Sabemos que as consequências num país com desigualdades sociais imensas como o Brasil serão possivelmente muito maiores que em países mais ricos. E a população mais prejudicada em termos de serviços e direitos essenciais como habitação, saneamento básico é que está mais vulnerável. Ao mesmo tempo, a questão do combate à pandemia tornou-se uma guerra dentro do próprio governo federal, em que parte dele insiste em negar as recomendações da OMS e os dados científicos dos países que já estão há mais tempo na crise. Isso, com certeza, diminui a adesão às medidas de isolamento social. Deveriam ser tomadas medidas mais contundentes para que principalmente a população mais pobre pudesse permanecer em isolamento. Também chama a atenção a falta de estratégias de produção de insumos para hospitais, principalmente tratando-se dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), dentro do próprio país.  É inadmissível que o Brasil dependa de importação de insumos como máscaras. Deveria ser criada uma política pública articulada de incentivo para que as empresas (como do setor têxtil) passassem a produzir máscaras. 

Tratando especificamente da área tributária, minha área de estudo, quanto à questão dos recursos estatais para o combate à pandemia, poderiam ser reforçados com a criação da tributação sobre grandes fortunas, por exemplo. A competência constitucional que permite a criação desse imposto já existe desde 1988. Infelizmente, até hoje os projetos existentes não avançaram. Além disso, a Constituição Federal também permitiria a criação de um tributo temporário chamado de Empréstimo Compulsório de Calamidade Pública ou Guerra, que poderia ser instituído e cobrado para fazer frente a essa calamidade pública que assola todo o país. Esse tributo poderia ser cobrado de imediato, e tem como uma de suas características, a necessidade de devolução posterior dos valores atualizados ao sujeito que seria obrigado a pagar esses valores. Ressalto também que os valores arrecadados seriam estritamente vinculados ao gasto com a calamidade pública para o qual o empréstimo compulsório seria criado.

No plano pessoal e profissional, essa situação tem sido muito angustiante. Para mim não tem sido possível manter a produtividade. Por não ter conhecimento em determinados aplicativos, tenho optado ainda por meios mais tradicionais, como a preparação das aulas em power point e disponibilização dos materiais escaneados aos alunos, bem como de exercícios de fixação, com um prazo bastante longo para entrega. Infelizmente a adesão tem sido bastante baixa. Gostaria de dizer que não sou absolutamente contra o EaD, se é utilizado como uma ferramenta complementar. Ou se o curso é pensado desde o início dessa forma, com planejamento adequado e formação para os docentes atuarem na área, com suporte técnico. Não acredito que essas medidas de EaD, que foram estabelecidas de forma emergencial, e por isso mesmo sem a preparação necessária dos professores e alunos, vão suprir as necessidades de ensino aprendizagem. Já temos uma situação emergencial que afeta o psicológico e a vida cotidiana de todos nós.

Temos pessoas que passaram a ter demandas cotidianas muito maiores, como cuidar da casa e dos filhos em tempo integral, e isso se soma a uma necessidade de uma hora para outra produzir material em EaD. Isso é agravado no caso das mulheres, que na maioria das vezes são as que assumem o protagonismo do serviço doméstico e do cuidado com os filhos, pelas desigualdades de gênero, ainda muito presentes na nossa sociedade. Também essas dificuldades ocorrem para os estudantes. Muitas pessoas não têm um computador exclusivo para poder preparar material e também para estudar. E têm  que trabalhar concorrendo com as demandas do resto da família, com outros membros trabalhando em EaD, e com as crianças estudando também dessa forma. 

Claro que há colegas que estão se esforçando muito, e também há colegas que já usavam os meios de acesso digitais com mais frequência e estão lidando com a situação de forma mais tranquila. Mas, temos que se considerar que há vários problemas, como a dificuldade de acesso à própria internet de qualidade para muitos alunos, o que dificulta e muito o acompanhamento dessa modalidade de ensino. Outra questão que também não tem sido muito falada é que a modalidade em EaD demanda uma dedicação muito maior do professor em preparar materiais. O tempo para aprender a usar as ferramentas de forma adequada e para preparar os materiais é muito maior do que de preparar uma aula presencial. As instituições que oferecem de forma rotineira esses cursos têm suporte técnico e formação que auxiliam o professor na preparação dos materiais. Isso se verifica quando se assiste a cursos preparados por instituições a mais tempo no mercado. O aluno também tem que se dedicar mais ao estudo em EaD e ter uma autonomia maior na relação ensino-aprendizagem. Pessoalmente, também tive problemas de acesso à internet,  pois não tinha uma internet banda larga, e o acesso via celular no local onde moro é instável. Só consegui a instalação nessa semana da internet banda larga. Estou procurando agora buscar materiais e acompanhando, também, cursos gratuitos oferecidos em instituições consagradas, como a Fundação Getúlio Vargas e outras que realizam esse tipo de curso a distância rotineiramente.

Futuro da universidade

Infelizmente, não vejo como, no curto prazo, a situação se resolver sem uso desses instrumentos de EaD. Mas essas questões de dificuldades dos docentes na utilização desses recursos, as dificuldades dos alunos acompanharem e até a exclusão de alunos pela dificuldade de acesso à internet devem ser consideradas pelos gestores. Também há disciplinas práticas em que é impossível a utilização dessa modalidade em EaD. Vamos ter disciplinas que terão que ser totalmente recuperadas presencialmente.

Vânia Rey Paz

Professora do departamento de Administração, campus da UFSM em Palmeira das Missões.

Como está o isolamento social?

Neste período de isolamento tento manter certa rotina e disciplina de trabalho, que no meu caso é nova, pois nunca havia trabalhado no modo on line. Com relação a este aspecto, tem sido bastante produtivo, pois tenho aprendido muitas coisas novas que posteriormente também poderei aproveitar no modo presencial.  Manter essa disciplina, e também a comunicação virtual com outras pessoas tem funcionado e me ajudado na adaptação nesse momento.

Contato com estudantes

Estou desenvolvendo minhas disciplinas no modo on line com meus alunos. Mas, observo que um número considerável não está participando. Penso que muitos não têm acesso à internet, ou computadores para tanto, ou ainda nem sabem como fazê-lo.

Alternativa fora da sala de aula

A alternativa tem sido o trabalho remoto, on line, e é exaustivo, pois demanda a configuração das aulas para essas plataformas virtuais disponíveis, assim como uma interação permanente com os alunos.

Futuro da universidade e do país

Penso que daqui para frente o trabalho docente, principalmente o exercido no modo presencial será mais valorizado, pois essa experiência do isolamento demonstra a importância deste trabalho na vida de tantos brasileiros que não têm acesso às tecnologias e equipamentos, nem ao conhecimento para tanto, estão ‘desplugados’, assim como para a vivência da socialização das pessoas, tão necessária para sua formação profissional e cidadã. Quanto ao país, penso que está sendo pedagógica a experiência do isolamento, pois há algum tempo várias medidas foram tomadas para impedir o investimento em políticas públicas na importante área social do governo, englobando a saúde e educação. E agora, nossa realidade demonstra o quanto dependemos vitalmente desses setores para encontrarmos alguma saída possível da encruzilhada em que nos encontramos.

Marta Tocchetto

Professora aposentada do departamento de Química da UFSM, doutora em Engenharia/Ciência dos Materiais.

Como está o isolamento social?

Tenho a vantagem de morar em uma casa, então tenho pátio, cachorro, coelho e muitos passarinhos que vêm comer nos comedouros que tenho distribuídos, além de muitas plantas. Então posso sentar no sol e admirar a natureza. Também tenho o privilégio de não parar a atividade física, pois minha nora é educadora física então, tenho personal. Claro que os aparelhos que as academias disponibilizam facilitam as variações de exercícios, mas no meu caso não tem sido um impedimento. Outro aspecto que não torna este período angustiante é que pelo fato de eu estar aposentada, ficar em casa e ter uma rotina organizada, ficar mais em casa tem sido parte normal do meu dia a dia. Além disso, tenho a consciência de que esta é a única forma que atualmente temos de enfrentamento à COVID 19. Meu senso coletivo me acalma. Seria egoísta da minha parte, tendo a facilidade de um espaço livre e exclusivo para apreciar a natureza; fazer compras por tele entrega; acesso a livros, filmes; escrever; execução de trabalhos manuais; canais de comunicação com a família e amigos, além de necessidades básicas como, alimentação saudável; água tratada e encanada; sistema de esgoto e coleta de resíduos, não ter a devida paciência, consciência e maturidade para entender que esta fase é necessária por mim e por todos. Sei e tenho certeza que isso vai passar, mesmo com as alterações da normalidade anterior. Considero que mesmo que tenham sido necessários diversos ajustes, pois hoje estou fazendo tudo, desde cozinhar à limpeza da casa e demais espaços e, à produção intelectual, distribui tudo no dia para poder cumprir com o que me proponho. E também chegar no fim do mesmo com a sensação de que o dia foi produtivo. Esta sistemática faz parte também da minha organização de aposentada, anterior ao isolamento. A sensação de produtividade, mesmo que ela difira da atividade universitária anterior, é essencial para que a gente se sinta viva, com desejo de se manter viva e viver plenamente.    

Atividades com estudantes

Minhas atividades acadêmicas têm se limitado à consultoria, produção de textos, revisões de artigos para revistas e congressos, palestras e leituras. Me organizei para não ficar com alunos ao me aposentar. Defini uma mudança de atuação para a qual, a transição que foi o desligamento de projetos e orientações ocorresse durante os últimos tempos na UFSM. Sendo assim, o isolamento não tem sido limitante para que eu possa exercer o que me proponho. Claro que o volume diminuiu por conta da suspensão de eventos e/ou aumento de prazo para as publicações de diversas revistas. Além disso, a aposentadoria foi construída para descobrir novas habilidades, além de fazer coisas que durante a atividade acadêmica não eram possíveis.  

Futuro do trabalho

Enxergo que o trabalho remoto vai ganhar um grande impulso com todas as iniciativas atuais para aproximar as pessoas e possibilitar o desenvolvimento de diversas atividades, de forma que não haja uma paralisia total. Me preocupa, inclusive, que estas tecnologias possam ser usadas para o desmonte da educação, por meio de tornar o professor uma figura dispensável, em especial pelo governo federal que tem buscado de várias formas, a inanição das universidades e do sistema educacional. Estas ferramentas que poderiam dar um novo dinamismo ao ensino, podem ser virar contra o mesmo tendo em vista, a disposição já verificada deste governo. Isso realmente me preocupa. Como o ministério de educação poderá fazer uso dos resultados positivos das ferramentas de digitais e de internet para justificar o seu plano de desmonte da educação, das universidades e do ensino público?

Por outro lado, acredito que diversas barreiras para trabalhar e desenvolver atividades científicas serão derrubadas, pois grupos de várias partes do mundo estão trabalhando em conjunto e integrados aproximados pelas tecnologias digitais, tornando mais cristalinas as evidências de que sem ciência e educação não há saúde, economia e igualdade social. 

Acredito também que as relações de trabalho serão alteradas, pois o desenvolvimento das mesmas, exclusivamente de forma presencial, está sendo desmistificado demonstrando que é possível produzir e trabalhar remotamente com resultados expressivos. Estas evidências inclusive, alterarão nossos conceitos de tempo, distância e limitação. Haverá um novo ajuste das relações de trabalho e o surgimento/desaparecimento de algumas funções desencadeadas pela experiência do isolamento.

Penso que trará a possibilidade de repensar os diversos fazeres, em termos de desperdício de materiais, geração de resíduos, sobrecarga do Planeta, preservação e conservação dos recursos naturais essenciais. Assim como, possibilitará repensar atividades individuais, coletivas e políticas que venham ao encontro dos principais problemas mundiais que desencadearam esta grande pandemia, que é só o primeiro grande reflexo do desequilíbrio causado por um sistema de produção e de consumo absolutamente predatório e destruidor.

(Obs: O tamanho das fotos não tem a ver com a vontade do editor da matéria, mas da resolução das mesmas. Umas em maior, outras em menor resolução, o que dificulta padronizá-las em tamanho)

Texto: Fritz R. Nunes
Fotos: UFSM/Arquivo Pessoal
Assessoria de imprensa da Sedufsm

 



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Comentários



Marli Hatje disse...

Dia 13/04/20 às 13:31

Fritz, parabéns pela reportagem. Muito boa. Bjs



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