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A polarização radicalizada que beneficia Bolsonaro

16/06/2021

Gilvan Veiga Dockhorn
Professor do departamento de Turismo da UFSM. Graduado, mestre e doutor em História.

A polarização radicalizada e irreconciliável que assumiu a cena política do país, manifestada na última eleição presidencial e no momento veiculada nos novos espaços públicos mediados pelas redes sociais e espraiada nos círculos mais íntimos, induz à ideia de que a sociedade brasileira vivencia um processo de politização sem precedentes. Para uma parte da população que acompanha e/ou participa dos embates midiáticos via rede sociais, a sensação é de que o país está, como nunca antes, cindido ao meio e de que “política” é o tema prioritário da vida de grande parte dos brasileiros e das brasileiras. Aparentemente, a política invadiu todos os espaços, do futebol ao combate à pandemia, da ciência à religião.

Em tese, esse avanço em áreas e ambientes antes “protegidos” dos debates políticos seria uma conquista democrática. A política, no seu sentido mais amplo, remetendo à Aristóteles (que definiu o homem por essência um “animal político”), seria a participação da vida em comunidade e da esfera pública dado que as necessidades materiais e imateriais só podem ser satisfeitas pela convivência e diálogo com outras pessoas e esta convivência gera divergências, conflitos e tensões que necessitam da política para serem encaminhados. Nesse sentido, a politização dos espaços seria um mecanismo de construção de uma sociedade com instituições consolidadas, mais justas e equilibradas, social e economicamente.

Porém, a polarização radicalizada remete à crise institucional (que para alguns emergiu a partir das Jornadas de 2013) e ao questionamento das próprias instituições políticas, ou seja, ela é disfuncional e nociva à própria ideia de política.

Esta sensação de divisão irreconciliável do país em dois polos se deve à percepção de que ocorre uma adesão a um discurso conservador extremado (e uma prática no exercício do governo) identificado ao presidente Bolsonaro e por essência abstratamente anticomunista (ressuscitando a ideia do perigo vermelho consagrada na Guerra Fria), mas concretamente e mais raivosamente antipetista e, por consequência ou causa (ainda se debate a origem do processo), o suposto avesso disso, ou seja, a defesa de uma opção vinculada à oposição de esquerda (definição cada vez mais ampliada e menos precisa, mas que atualmente está representada pela candidatura de Lula à presidência) e por definição antibolsonarista. São estes os campos que assumiram a primazia dos embates, invadem redes sociais e que, no momento, antecipam a disputa eleitoral para a presidência em 2022.

Contudo, estes campos, além de exercitar o “não diálogo” são por definição a antítese da política. A politização parece ceder lugar à adesão irredutível e que não aceita o diálogo entre parcelas minoritárias da sociedade brasileira na medida que tanto um espectro quanto o outro não representam o conjunto dos brasileiros.  Conforme levantamento da Inteligência Artificial ModalMais/AP Exata, publicado no Jornal “Correio Braziliense” de 10 de maio de 2021, entre 3 a 7 de maio, o percentual de pessoas que avaliavam a gestão de Bolsonaro como ruim ou péssima foi de 45,9%. As que achavam o governo bom ou ótimo, eram 29,0% e 25,1%, regular. 

(https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/05/4923318-bolsonaro-testa-apoio-mas-nas-redes-aumenta-a-rejeicao-ao-presidente.html)

Assim, a base de apoio de Bolsonaro permanece convicta e intacta; este um terço mistura a parcela com inclinações autoritárias e nenhum apego aos valores democráticos (o chamado núcleo duro/ideológico) com aqueles que aderiram ao discurso do presidente por considerar que este pode dar soluções imediatas a problemas concretos de sua existência (violência, desemprego, combate à corrupção, manutenção de valores morais tradicionais...). Outro terço do eleitorado se identifica com o campo ligado a Lula, pois não parece haver espaço para uma candidatura alternativa, dada às pretensões e a hegemonia de Lula no campo da esquerda, à caquética política de alianças que o Partido dos Trabalhadores ainda alimenta (fruto de sua pétrea recusa à autocrítica) e o antipetismo, que não é exclusividade do polo ligado a Bolsonaro (há quem não apoie o governo e nem concorde com a conduta de Bolsonaro e seja antipetista).

É importante lembrar que grande parte da esfera pública bolsonarista não mantém os mesmos valores e procedimentos do núcleo duro. Por isso, o rótulo de “fascistas” para todas e todos que votaram ou ainda manifestam alguma simpatia ao governo não auxilia em nada na construção de alternativas.

De outro modo, parte significativa do eleitorado, mais de um terço, não se identifica com nenhum dos polos. O descrédito e o rechaço ao sistema político se evidenciaram também no “não voto”; esta parcela desconsiderou as eleições de 2018 ou não acolheu nenhuma das 13 opções apresentadas como candidatos. Um em cada cinco eleitores aptos não usufruiu do direito de escolha entre os candidatos. Segundo o Superior Tribunal Eleitoral, no segundo turno das eleições em 28 de outubro daquele ano, foram 31.371.704 de abstenções (21,30%), 8.608.105 anularam seu voto (7,43%) e 2.486.593 (2,14%) votaram em branco.

Nestas condições, Bolsonaro se fortalece. Ele cresce ao ser coerente com seu discurso de campanha na medida em que governa para este e com este nicho, o que se revela eficaz, pois além de impedir a possibilidade de impeachment (mesmo com todas as evidências que permitiriam abrir um processo deste tipo), garante uma grande chance de conquista de uma vaga no segundo turno da eleição de 2022. Além disso, mesmo que possa parecer contraditório, a polarização radicalizada tira o poder de enfrentamento ao governo tanto que Bolsonaro não se vê diante de uma oposição propriamente dita. A oposição no Congresso parece não surtir efeito ou impactar no governo. A parte da sociedade que poderia estar mobilizada enfrenta, além da dispersão provocada pela pandemia, a fragmentação do campo democrático e a insuficiência de efetivas propostas e programas de governo alternativos.

A defesa da vida e da democracia (o que não é pouco diga-se) são o grande mote de uma possível união entre um campo que reúne um vasto leque de opções ideológicas, do governador de São Paulo João Dória a Ciro Gomes, de Guilherme Boulos a Rodrigo Maia, mas, para o conjunto da população, esses motes são insuficientes para angariar apoio, pois o grande embate é por necessidades imediatas e concretas como trabalho, comida e moradia. 

Se ambos os polos são o sistema político, este não representa a sociedade brasileira como um todo, e impõe um retrocesso com um “não diálogo”; a polarização radicalizada beneficia os portadores dos discursos “antipolítico, antipartidário e antissistema”. Portanto, antes uma politização, o Brasil parece imerso em uma grande onda de esvaziamento de sentido da política.

A diversidade da sociedade brasileira, com suas particularidades regionais, seus diferentes estágios de desenvolvimento e etc., criou formas distintas de perceber (ou não) o papel dos governos e das instituições.  Para a população dos centros urbanizados e industrializados ou em regiões rurais, nas regiões periféricas das grandes cidades, no Brasil profundo, nos municípios do interior e de regiões empobrecidas, para negros, mulheres, homossexuais, indígenas, as instituições políticas, as políticas públicas (quando chegam), as forças de segurança (a violência policial) e atos de abuso de autoridade (e privilégios em relação à ação do Estado para determinados segmentos) tem impactos distintos. Para estes, a busca vital para sanar suas necessidades imediatas baseiam suas escolhas, independentemente do impacto que postagens em redes sociais e mobilizações virtuais possam causar em suas respectivas bolhas polarizadas.

 




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