Que Rio Grande do Sul queremos depois das eleições?
Publicada em
26/08/2026
59 Visualizações
Nos últimos anos, o Rio Grande do Sul perdeu parte de seu protagonismo nas decisões relacionadas à sua inserção e ao desenvolvimento do país, em decorrência de políticas equivocadas adotadas ao longo do tempo. As eleições, contudo, representam uma importante oportunidade para discutir os rumos e as estratégias de desenvolvimento para o futuro.
O estado possui uma economia diversificada, forte tradição industrial e agropecuária, universidades e instituições de pesquisa de excelência, além de uma sociedade com capacidade de organização, resiliência e mobilização. Não obstante, enfrenta problemas estruturais que não podem ser resolvidos apenas com medidas de curto prazo. Equilíbrio fiscal, educação, competitividade industrial, infraestrutura, desenvolvimento regional, mudanças climáticas, inovação e redução das desigualdades precisam fazer parte de uma agenda integrada de desenvolvimento.
Nessa perspectiva, é condição sine qua non recuperar a capacidade de planejamento e investimento do estado. O equilíbrio das contas públicas é condição necessária para que o Executivo consiga executar políticas de longo prazo. A experiência da década de 2010, marcada por atrasos salariais e baixa capacidade de investimento, mostrou que desequilíbrios fiscais acabam recaindo sobre toda a sociedade. Responsabilidade fiscal, portanto, não deveria ser tratada como uma questão meramente contábil, mas como condição para que o Estado consiga cumprir suas funções e realizar investimentos estratégicos.
No entanto, o equilíbrio fiscal, por si só, não produz desenvolvimento. É preciso definir onde investir. A educação deve ocupar posição central nessa estratégia. O Rio Grande do Sul apresenta indicadores educacionais importantes, mas ainda há desafios relacionados à qualidade do ensino, à aprendizagem e à preparação dos jovens para um mercado de trabalho em transformação. Isso passa pela ampliação das escolas de tempo integral, pela valorização salarial dos profissionais da educação, pela adoção de metodologias ativas de ensino capazes de despertar o interesse dos jovens e pela incorporação de temas como sustentabilidade, cidadania e educação financeira nos currículos escolares.
Outro eixo estratégico deve ser a recuperação da sua capacidade produtiva e industrial. O Rio Grande do Sul não pode aceitar passivamente a perda de dinamismo de segmentos industriais importantes. Reindustrializar não significa simplesmente retornar ao velho modelo de substituição de importações, que deixou um passivo relacionado à baixa competitividade, mas construir uma indústria moderna e integrada às cadeias globais de valor, o que exige investimentos em inovação, capital humano e infraestrutura, bem como melhor logística e eficiência energética, além de um ambiente institucional que estimule os investimentos privados.
Nesse processo, a agricultura e a agroindústria também devem ocupar posição estratégica. O agronegócio é uma das molas propulsoras da economia gaúcha, e existe espaço para avançar na agregação de valor, na inovação tecnológica e na integração entre produtores, cooperativas, indústria e serviços. O desafio é fazer com que uma parcela maior da riqueza gerada no campo seja transformada em renda, emprego e desenvolvimento dentro do próprio estado.
Da mesma forma, não haverá um novo ciclo de desenvolvimento sem uma política consistente de infraestrutura. Rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos, energia e infraestrutura digital não devem ser vistos apenas como obras isoladas em busca de voto, mas como instrumentos de competitividade sistêmica. Por isso, uma estratégia de desenvolvimento precisa pensar a infraestrutura de forma integrada, conectando regiões produtoras, centros industriais, mercados consumidores e canais de exportação.
Entretanto, nenhum projeto de desenvolvimento será completo se não incorporar a dimensão climática. As enchentes de 2024 deixaram uma lição que não pode ser esquecida: o nosso Rio Grande precisa estar preparado para eventos climáticos extremos. Isso significa investir em sistemas de prevenção e alerta, planejamento urbano, infraestrutura resiliente, gestão das bacias hidrográficas, proteção ambiental e ocupação adequada do território. O desafio climático, contudo, também pode ser transformado em oportunidade. O estado possui condições para ampliar investimentos em energias renováveis, eficiência energética, tecnologias ambientais, agricultura sustentável e novas atividades associadas à economia de baixo carbono.
Enfim, o debate eleitoral não deveria se limitar a promessas pontuais ou à disputa política de curto prazo. “Decifra-me ou te devoro” era o desafio da Esfinge de Tebas, na mitologia grega. A pergunta feita aos homens era: “Que criatura tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?”. Todos os que tentaram responder erraram e foram devorados, à exceção de Édipo, que encontrou a resposta: o homem, pois engatinha enquanto bebê, anda sobre dois pés quando adulto e recorre a uma bengala na velhice. Hoje, o Rio Grande do Sul também está diante de um enigma, visto que precisa discutir um projeto de desenvolvimento capaz de atravessar diferentes governos e estabelecer as suas prioridades nas próximas décadas. A resposta a esses desafios só virá nos próximos capítulos. Oxalá não seja tarde demais e a sociedade gaúcha não tenha, até lá, sido devorada pela inépcia.
Sobre o(a) autor(a)
Professor do departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM