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30/06/2015   30/06/2015 19h27m   | A+ A- |   3827 visualizações

Eduardo Rolim fala sobre ditadura e a UFSM

Professor aposentado relata como foi expurgado da instituição e sobre perseguições que sofreu

Eduardo Rolim: fui afastado da UFSM de uma forma totalmente arbitrária
Eduardo Rolim: fui afastado da UFSM de uma forma totalmente arbitrária

Durante a ditadura civil militar que mandou no Brasil entre os anos de 1964 e 1984, ele foi um dos dois expurgados do quadro de professores da UFSM. Eduardo Martins de Oliveira Rolim era professor do curso de Medicina da UFSM e também vereador pelo antigo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), então liderado por João Goulart e Leonel Brizola.

E é justamente o fato de pertencer à sigla que já havia coordenado a Campanha da Legalidade, em 1961, e que propugnava reformas de base no país, que acabou rendendo a ele a exclusão da docência na UFSM, em 1964. Dois anos depois, em 10 de novembro de 1966, acabou também tendo seu mandado parlamentar cassado, com a consequente perda de direitos políticos.

Eduardo Rolim, como é mais conhecido, tanto politicamente como em seu consultório de cardiologia, era concursado desde o ano de 1959, ano em que se elegeu pela primeira vez como vereador de Santa Maria. Em 1963, reelegeu-se vereador e a trajetória política vinha em ascensão. Foi candidato a deputado federal em 1966 e a cassação o abateu em pleno voo, cinco dias antes do pleito, frustrando a carreira política de um jovem de 36 anos.

Rolim só veio a ser reintegrado aos quadros da UFSM em 1987, no período em que o país vivia o debate da Constituinte. Depois de reassumir a docência, Eduardo Rolim acabou indo para a direção do Hospital Universitário, e, no ano de 1994, se aposentou.

No momento em que a universidade começa a viver a experiência de uma Comissão da Verdade – primeira reunião oficial deve acontecer até o final da primeira quinzena de julho- a assessoria de imprensa da Sedufsm realiza uma entrevista com o médico e professor aposentado, Eduardo Rolim.

Em seu depoimento, que durou cerca de uma hora, e foi gravado em vídeo, Rolim fala sobre como era descrito pelo Inquérito Policial Militar (IPM) da época, que o qualificava, entre outras coisas, de “petebista extremado, cripto-comunista” e até de “inocente útil”. O professor relata ainda que, após ter sido banido da UFSM, foi proibido de entrar na instituição e, inclusive, não recebeu a autorização pelo reitor de então, professor José Mariano da Rocha Filho, de receber a toga para participar da homenagem que receberia dos alunos do curso de Medicina que se formaram no ano de 1964.

Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista realizada pelos jornalistas Fritz Nunes, Ivan Lautert e Rafael Balbueno, da assessoria de imprensa da Sedufsm.

Sedufsm- Professor, como se deu o expurgo na UFSM?

Rolim- O expurgo era um ato unilateral, mas que eu não sabia qual o nível de que partia essa exclusão. Mas devia ser de níveis inferiores dos escalões da República. Por que, por exemplo, eu era médico de carreira do IPASE (Instituto de Pensões e Assistência aos Servidores do Estado, órgão federal) e era credenciado também para atender o IAPB (bancários). Na época não era unificada a previdência, eram vários institutos. Então, dos bancários, eu recebi o comunicado de um interventor, que eu não estava mais credenciado a atender aos bancários. Do IPASE, eu continuei atendendo até 1966, quando eu perdi meus direitos políticos. Aí o IPASE me comunicou que eu estava fora. E da UFSM, até nem recebi papel nenhum. O Paulo Lauda, que era prefeito na época, foi cassado, no Ato Institucional nº 01, e ele foi afastado da UFSM. Já eu, que era vereador, mas não fui cassado naquele momento, fui junto na leva (dos expurgados).

Sedufsm- Mas como o sr. pode ter sido afastado sem receber um comunicado oficial?

Rolim- Não. Eu digo que fui afastado por uma decisão que eu não sei de onde foi. Talvez tenha sido até do reitor da universidade (José Mariano da Rocha Filho). Um troço totalmente arbitrário e sem fundamentação nenhuma.  Naquela época tinham quatro professores com mandato eletivo. Era o Paulo Lauda, prefeito, o Waldir Mozzaquatro, que inclusive era presidente da Câmara de Vereadores e depois recebeu a prefeitura quando o Lauda foi cassado, o Dr. Artur Marques Pfeiffer e eu. E somente eu, além do Lauda, fui expurgado.

Sedufsm- Talvez pela sua vinculação com o PTB?

Rolim- Só pela questão do partido. Na ocasião, o grande foco da repressão era contra o PTB. Os comunistas também, mas em muito menor escala. O PTB, sim, foi devastado.

Sedufsm- Mas como é que se caracterizou esse expurgo? Veio alguém e lhe disse?

Rolim- Me disseram que eu estava fora e não podia mais sequer entrar na universidade.

Sedufsm – Quem lhe comunicou isso?

Rolim- Não lembro. Provavelmente alguém da divisão de pessoal. Na época quem chefiava esse setor era o Jardini Tombesi. Não lembro de que maneira, só sei que fui afastado sem receber nada. Aí depois veio a regulamentação de que os expurgados passariam a receber os vencimentos de acordo com o tempo de serviço. Como tinha entrado em 1959 e saí em 1964, passei a receber uma merreca por mês, como aposentado. Até não tenho bem certeza se foi com o Ato Institucional nº 10, de 1970, que regulamentou todas essas coisas, e aí eu fui aposentado pelo IPASE e pela UFSM.

Sedufsm- Que tipo de impacto na sua vida o expurgo e a cassação tiveram? O sr. continuou atuando como médico?

Rolim- A minha família é de Santa Maria e está aqui desde 1875. Me formei em Medicina e meu grande objetivo era voltar para Santa Maria e ser professor da universidade. Em janeiro de 1960, aproveitei uma situação- um familiar dentro do gabinete do ministro da Educação, Tarso Dutra- e consegui uma bolsa da Capes. Fui o primeiro professor da UFSM que saiu para formação didática (USP, primeiro curso de formação em Cardiologia), que seria hoje uma espécie de mestrado, que nem havia então. Na época, fiquei em torno de 15 meses com bolsa da Capes e com os vencimentos de professor da UFSM. Voltei em 1961 e assumi minhas funções didáticas. Em 1962, o Paulo Lauda foi paraninfo da turma de Medicina. Em 1963 e 1964, fui homenageado de honra. Em 1964, como eu já estava expurgado, o Mariano (reitor José Mariano da Rocha Filho) não permitiu que eu recebesse a toga e eu compareci à solenidade, no antigo Cine Glória, à paisana.

Sedufsm- Qual a posição da reitoria da época em relação à ditadura militar?

Rolim- O Mariano (reitor e fundador da UFSM) conseguiu a universidade graças ao João Goulart, que era o vice de Juscelino Kubistcheck (JK), ou seja, PTB apoiando o PSD. Nas tratativas da criação da Universidade Federal de Goiás, que o JK criou...por ação do Jango, com  a colaboração do Tarso Dutra, eles conseguiram introduzir no decreto um item criando a UFSM também.

Sedufsm- O reitor Mariano usou a influência do Jango?

Rolim- O Mariano sempre foi ligado a todo o mundo político. Tinha muita intimidade com o Jango e especialmente com Tarso Dutra, que eram unha e carne os dois. A UFSM não deu o devido destaque ao Tarso Dutra por tudo que ele fez para a criação e desenvolvimento da universidade. Então, no início de 1964, a UFSM publicou pela primeira vez uma espécie de álbum que mostrava todo o desenvolvimento da universidade. O Mariano gostava disso para levar e mostrar no Brasil e até no exterior. E, na folha de rosto tinha uma foto com um agradecimento ao Jango. Com a chegada da “revolução”, o Mariano recolheu aquela publicação e arrancou, rasgou a folha que aparecia a foto do João Goulart. É uma atitude que mostra bem como era a situação. O Mariano em seguida (ao golpe), automaticamente, aderiu à revolução e passou a fazer tudo o que podia em favor dos ‘milicos’.

Sedufsm- Ele foi submisso então? Dois professores do quadro foram afastados e ele simplesmente concordou?

Rolim- E, inclusive, ele determinou que eu não podia entrar na universidade. Porque eu ministrava um curso de eletrocardiografia extracurricular e eu continuei dando esse curso, durante anos, mesmo afastado. Mas, eu tive que dar fora da universidade, e eu dava na Biblioteca Pública, no Salão Paroquial, em vários lugares, mas não podia entrar na universidade. Mas, isso eram mesquinharias aqui da UFSM.

Sedufsm- O sr. chegou ser chamado para prestar depoimento em algum momento?

Rolim- Naquela época foram instituídos vários inquéritos. E na UFSM foi feita uma comissão de inquérito com três professores. O diretor da Faculdade de Direito, que era o Irmão Gelásio; esse da Casa Eny (Luiz Gonzaga Isaia) e outro que não lembro mais o nome, que era professor da Veterinária, e já é falecido há muitos anos. E nessa comissão de inquérito a gente era inquirido, acusado.

Sedufsm- Que tipo de acusações?

Rolim - As acusações, eu trouxe aqui um papel para mostrar: tido como de ideias comunistas; partidário incondicional de Leonel Brizola; petebista extremado; inconformado com a atual situação política nacional; classificado como comunista, comunista atuante, cripto-comunista, simpatizante esquerdista, subversivo. E na universidade tinha mais um epíteto e que me feria mais profundamente: “inocente útil”. Então, a gente era inquirido em torno disso...

Sedufsm- Dentro da própria UFSM esse inquérito?

Rolim- Minha condição de petebista, já que era vereador, que tinha defendido a Legalidade (1961), partidário de Leonel Brizola, isso era público. Mas, para eles, ser do PTB era como ser comunista.

Sedufsm- O sr. lembra se havia alguma reação dentro da UFSM em relação a esses atitudes arbitrárias?  Havia mobilização estudantil ou de algum dos segmentos?

Rolim- Não. A universidade permaneceu fora do problema. Não houve movimento de funcionários e nem de estudantes. Todo mundo ficou “abichornado” porque a coisa era pegava pra capar. O cara se manifestava, ia preso, levava bordoada. A mim não me prenderam, mas prenderam o (Paulo) Lauda, o Adelmo Genro (vice-prefeito da época) que ficaram meses presos. A mim não me prenderam, mas tinha um sargento, da Segunda Seção do Exército, que constantemente estava atrás de mim, de automóvel e a pé.

Sedufsm- O sr. era seguido e vigiado...

Rolim- Sim. Inclusive aconteceu um fato curioso. Como eu era médico, um dia estava atendendo no ambulatório do Hospital de Caridade e entrou esse sargento ferido e eu atendi. Quando ele entrou, eu atendi a emergência, e depois eu disse “mas eu lhe conheço de alguma parte”. E ele disse “não, não, não lhe conheço”. Aí eu pensei e disse “agora lembrei de onde lhe conheço, é do espelho retrovisor do meu carro”. E ele disse assim: “Pois é, o sr. sabe, eu cumpro ordens. Eu estou fazendo o que me mandam”. E eu disse “não tem problema”.

Sedufsm- E ele lhe acompanhou até um certo tempo?

Rolim- Sim, até um certo tempo, depois arrefeceu. Mas durante um ano mais ou menos ele me seguiu. Eu fiquei muito visado também porque só fui cassado em 1966. E, naqueles dois anos (1964-66), eu, na Câmara, “descia a ripa” na ditadura militar. Todas as semanas, nas sessões na Câmara, eu falava durante 15, 20, 30 minutos, contra a ditadura e em tudo que eles faziam de mal. Eu lembro que eu mais critiquei foi quando o Costa e Silva (general) foi candidato a presidente e depois eleito pelo Congresso. Ele era um cara totalmente despreparado.

Sedufsm- O sr. lembra alguma coisa sobre a criação e funcionamento da Assessoria de Segurança e Informação (ASI ou Aesi) dentro da universidade, que era um braço da ditadura lá dentro?

Rolim- Eu não lembro exatamente quando foi criado, mas foi certamente foi criada logo em seguida ao golpe. Eles concordaram militares em várias organizações. A cooperativa da Viação Férrea teve um interventor, que acho que era um coronel. E foi quem acabou com a Cooperativa, pois os ferroviários imediatamente se retiraram e não fizeram mais compras na Cooperativa. Daí a Cooperativa degringolou e com ela foram o Colégio Hugo Taylor, com todos os cursos que mantinha.

Sedufsm- Mas e na UFSM, o sr. chegou a ser chamado a depor na Assessoria?

Rolim- Não. Eu estava fora da universidade e depois disso não me incomodaram mais. Lá dentro sim, né, havia muito “ti-tit-ti”. Eu lembro que teve o Amêndola (Coronel Alexandre Amêndola, chefe da Assessoria de Segurança e Informação, ASI). E depois dele teve o Coronel (Valdir) Real Andrade, que substituiu o Coronel Amêndola.

Sedufsm- Como o sr. avalia a criação da Comissão da Verdade na UFSM?

Rolim- Eu acho que situação tem aspectos positivos, que é de esclarecer coisas que ficaram escondidas. Mas, tem aspectos que a gente tem que considerar. A UFSM hoje é um monumento. É uma das universidades de melhor nível de ensino em vários de seus cursos. Tudo isso pode sofrer depreciação, pode sofre com divulgação de fatos que aconteceram 50 anos atrás. Então, acho que isso que precisa ser muito bem pensado em relação a custo e benefício.

Acompanhe trechos da entrevista também em vídeo.



Texto: Fritz R. Nunes

Fotos: Rafael Balbueno

Imagens em vídeo: Ivan Lautert e Rafael Balbueno

Edição de vídeo: Ivan Lautert

Assessoria de imprensa da Sedufsm

Fotos da Notícia

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