Dicas culturais para um final de ano alegre e reflexivo SVG: calendario Publicada em 19/12/25
SVG: atualizacao Atualizada em 19/12/25 11h59m
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Ler ‘O talentoso Ripley’, assistir ‘Dias perfeitos’ e ouvir ‘Songs from the big chair’

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Na última sexta-feira antes do recesso de final de ano trazemos três dicas para diferentes gostos. O professor Pedro Brum Santos sugere a leitura (mas também pode ser a versão filmográfica) do livro de Patricia Highsmith, ‘O talentoso Ripley’; a professora Simone Gallina elenca as virtudes do filme ‘Dias perfeitos’; e o jornalista Márcio Grings destrincha as qualidades de um álbum musical que completou 40 anos em 2025: ‘Songs from the big chair”, da banda/duo britânica, Tears for Fears. Confira abaixo.

"O talentoso Ripley

Há setenta anos, em 1955, a escritora norte-americana Patricia Highsmith lançava O Talentoso Ripley. Pelas mãos da literatura (trata-se de uma engenhosa novela) ganhava luz a primeira versão do sociopata Tom Ripley. De lá pra cá, o rolo somente cresceu. A começar por outros quatro títulos que a autora lhe dedicou. Para além deles, porém, Ripley empilhou potencial para o cinema e a TV. Sob a estampa de charme e frieza sua história acumula um rastro de reconhecidos talentos que lhe emprestaram vida - Alain Delon (1960), Dennis Hopper (1977), Matt Damon (1999), John Malkovich (2002), e, para não perder o passo, Andrew Scott (2024) em minissérie de oito episódios na Netflix (que superrecomendo).

Com tais credenciais, Ripley está de volta – e pela trilha que o apresentou ao mundo: a literatura. A Intrínseca, que contava em seu catálogo os dois primeiros títulos lançados por Highsmith - O Talentoso Ripley (1955) e Ripley Subterrâneo (1970) - agora traz às livrarias os três títulos que estavam esgotados há tempos. São eles:  O Jogo de Ripley (1974), O Garoto que Seguiu Ripley (1980) e Ripley Debaixo d’Água (1991). Morta há 30 anos, Highsmith escreveu 22 romances em seus 45 anos de carreira, mas foram os cinco dedicados a Ripley que pavimentaram seu lugar ao sol. Como, agora, temos a oportunidade de confirmar com nossos próprios olhos. Boa leitura e um ótimo 2026!".

Pedro Brum Santos

Doutor em Letras. Professor Titular da UFSM


40 anos de ‘Songs from the big chair’

"Foram longos 17 anos sem gravação. Roland Orzabal e Curt Smith passaram quase duas décadas sem lançar algo novo até o retorno com canções inéditas em 2021. Em The Tipping Point (2022), esse hiato foi interrompido, e eles voltaram à estrada com mais regularidade, como que na tentativa de recuperar o tempo perdido.. O verdadeiro ponto de virada, porém, ocorreu em 2017, quando Caroline Orzabal, esposa de Roland, morreu após um duríssimo processo de depressão e demência. A perda o empurrou ao fundo do poço; o álcool fez o resto. Uma temporada numa clínica de reabilitação o trouxe de volta. Recuperado e incentivado pela nova companheira, a fotógrafa Emily Rath, Roland decidiu revisitar o passado. Reencontrou Curt — depois de anos de silêncio e mágoas — e o resto já é história.

The Tipping Point, do Tears For Fears (TFF), entrou em muitas listas dos melhores álbuns daquele ano. Eles não apenas estavam de volta: tinham lançado um ótimo disco.

Desde The Hurting (1983), estreia fonográfica do TFF, muita coisa mudou — e não só na música. Vivemos tempos de streaming, som magrinho, fones baratos e atenção fragmentada. A experiência sensorial de uma audição plena virou peça de museu. Mas algo permanece intocado: o maior triunfo artístico da dupla. Songs from the Big Chair (1985) completa 40 anos como o disco mais bem-sucedido do grupo, o mais vendido da carreira, com cerca de 10 milhões de cópias comercializadas no planeta.

A capa traz uma foto em preto e branco de Tim O’Sullivan: dois rostos jovens e confiantes. Orzabal e Smith tinham apenas 23 anos quando essas canções foram gravadas. Produzido por Chris Hughes, então com 30 anos (coautor do grande sucesso do álbum e futuro produtor de Robert Plant, Paul McCartney e Peter Gabriel), a pergunta é: por que Songs from the Big Chair ainda permanece relevante quatro décadas depois? Um faixa a faixa ajuda a decifrar essa arquitetura interna.

“Shout” é uma convocação pública. Quem viveu os anos 1980 sabe: virou presença onipresente nas FMs e toca-discos. Com seis minutos e meio (a versão de rádio tinha sessenta segundos a menos), a música evolui como um estádio vazio antes do jogo — carregado de expectativa, prestes a explodir. O gol de placa vem logo adiante.

A transição para “The Working Hour” é abrupta no papel, mas orgânica na timeline do álbum. A percussão avança; o sax de Will Gregory — futuro Goldfrapp — entra como fumaça azulada num boteco noturno. A faixa encena um drama cinematográfico, com tensão e elegância melódica.

“Everybody Wants to Rule the World” é o ápice pop do disco. Quem não reconhece ao menos um pedaço do refrão? A guitarra circular pulsa como marcha do capitalismo tardio da letra traduzida nessa melodia luminosa. O solo — um dos mais marcantes dos anos 1980 — lembra um tempo em que ainda havia espaço para brilho instrumental de qualidade na música pop. Nada pode ser maior neste álbum. 

“Mothers Talk” começa com sintetizadores que soam como sirenes de um futuro que nunca se concretizou. Os backing vocals murmurando work it out evocam anúncios de TV atravessados pela paranoia da Guerra Fria.

“I Believe” reduz o pulso ao abrir o Lado B. Jazzy, intimista — traz o sax de Gregory como um fantasma entre a névoa. É um intervalo emocional entre duas muralhas de som, breve rendição à fragilidade. Uma canção madura, sofisticada.

“Broken” retoma a urgência: bateria firme, guitarra mordida, baixo inquieto e proeminente. É a faixa mais rock and roll do álbum e funciona como spoiler da seguinte, ao emular melodicamente a abertura de “Head Over Heels”. Parece instrumental — só em 1 minuto e 40 segundos ouvimos a voz de Orzabal. A impressão é de que a música vive à beira de romper a própria estrutura — e esse atrito é seu charme.

“Head Over Heels” abre com piano que ilumina o ambiente. Temos aqui a canção mais afetiva do disco: paixão, caos, tentativa de ordem. Roland canta como quem tenta pôr a vida nos trilhos sabendo que tudo balança. Ao final, num truque de gravação, uma audiência os ovaciona.

“Listen”, o encerramento, é campo aberto de teclados, respirações e ecos vocais. A faixa se expande como um sonho que recusa terminar. Há ecos de prog rock — é a mais longa do trabalho, quase sete minutos — dissipando-se sem pressa, epílogo de um álbum ainda ressonante.

Voltar a Songs from the Big Chair em 2025 é lembrar que o disco advém de uma safra em que as rádios ainda eram ótimas de se ouvir. Era uma década em que pop e arte caminhavam lado a lado. E hoje, ainda há luz no fim do túnel? Mercadologicamente, talvez não — mas certas memórias permanecem indestrutíveis. Para quem está saturado de uma música pensada mais como estratégia comercial do que expressão artística, revisitar este álbum oferece uma epifanía certeira: éramos felizes, e sabíamos.

E é por isso que Songs from the Big Chair permanece relevante quatro décadas depois. O disco captura um tempo em que a cultura pop tinha a ousadia de ser monumental. É pop com ossos, músculos e nervos. Um álbum afinado ao pulso daqueles dias, carregado da eletricidade crua dos anos 1980. Entre mensagens codificadas, sintetizadores e melodias afiadas, a guitarra ainda mantém posição (quase) central. Cada faixa pulsa como parte de um organismo vivo — nove peças de um quebra-cabeça que iluminam um retrato impossível de repetir. Songs from the Big Chair soa como algo que só poderia ter surgido naquele espaço de tempo, e continua reverberando até hoje.”

Para ouvir o álbum, as alternativas vão desde a plataforma Spotify até o canal do Youtube.

Márcio Grings

Jornalista e responsável pela ‘Grings Memorabilia e Tours’.


"Dias perfeitos

Dias perfeitos (2023, 124 minutos, indicado para maiores de 12 anos, disponível na Prime Vídeo), indicado ao Oscar 2024 na categoria Melhor Filme Internacional, é um filme que tem a assinatura do diretor alemão Wim Wenders,  que traz com sua autoria, singular questões que são complexas para a percepção do sentido e a beleza do que compõe a experiência de uma vida em um cotidiano que desvaloriza o simples e as suas miudezas em meio à modernidade tecnológica.

O filme (re)apresenta os movimentos diários do personagem principal, Hirayama, um zelador de banheiros públicos em Tóquio, desde o instante em que acorda até o momento de dormir. É uma rotina marcada pela leveza e beleza do que acontece na vida de alguém que, sem pressa ou tensões, inventa seu próprio modo de existência.

Ao destacar este filme, penso na relevância estética e filosófica da obra de Wim Wenders em outras películas, a exemplo de Asas do desejo (1987), e em como esta nova obra cinematográfica alude à itinerância da rotina de Hirayama, considerando o contexto de Dias Perfeitos, o que me fez pensar foi o encontro com um homem que trabalha com um semblante de contentamento, que nos momentos livres observa as miudezas da paisagem em diversos contextos, uma atitude de contemplação entre aquilo que se faz luz e sombra.

Seu modo de vida e suas intencionalidades — o gosto por escutar músicas em fitas cassete e ler livros, ambos comprados em sebos; o uso de uma câmera fotográfica analógica para tirar fotos, revelá-las e colecioná-las; o ato de tomar banho e cultivar mudas de plantas — aproximam-nos de uma narrativa de um corpo que carrega profundidades e ambiguidades na relação entre passado e futuro, entre o dentro e o fora, entre o público e o privado.

A simplicidade e beleza de Dias Perfeitos acontecem na captura da incidência da luz, na valorização do ordinário, daquilo que nos escapa à contemplação em função do turbilhão do mundo do trabalho, das relações familiares, penso que, por isso, o filme mobiliza, a partir de um viés narrativo, uma dimensão estética e filosófica que coloca em perspectiva o tempo e a contemplação na contemporaneidade."


Simone Freitas da Silva Gallina

Professora do departamento de Administração Escolar da UFSM.

 

Imagens: Divulgação
Arte da capa: Italo de Paula
Edição: Fritz R. Nunes (Sedufsm)

 

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