Desejos de Natal e outras listas SVG: calendario Publicada em 13/12/2023 SVG: views 2707 Visualizações

Novembro demorou que só. É mês de trinta dias, mas mais pareceram trezentos. Amarrados a um inverno que chegou em março e finca o pé sem querer sair, fomos arrebatados pelo dezembro, que mal chegou e cá já estamos, no meio do mês. E de hoje até 31, é um tal de confraternização do condomínio, das amizades de infância, da escola do filho, da turma da faculdade, colegas de trabalho, tem reunião até de quem não queria muito reunir. Os mais ousados, arriscam até o famigerado amigo-secreto.

O que não é segredo para ninguém é que paira um desejo pelos encontros, de tomar uma coisinha, beliscar umas comidinhas, fazer balanço das coisas e até das pessoas, com desejos de que tudo se realize e etc., ao som de All I want for christmas is you. Entre uma confraternização e outra, a gente vai fechando o ano: fechando as notas, vendo o que não fecha e o que só vai fechar mesmo no ano que vem. Lidando com a pressa e a ansiedade de que parece que quem vai se acabar é o mundo e não só ano. Tudo para ontem. Mas calma, gente, no dia primeiro, ou melhor, no dia dois, o relógio desperta de novo e segue o baile.

No meio desse fuzuê todo, meu filho me puxa pela mão e manda ver na sua listinha de desejos de natal: um jogo, visitar um zoológico e tomar banho de piscina. Do alto da sua experiência, são seus desejos de futuro bom. O bom é que em dezembro já dá para encaminhar os desejos das crianças direto para o Papai Noel, uma espécie de terceirização da decisão: se guardou os brinquedos, escovou os dentes e comeu bem, garantiu o presentinho (no diminutivo mesmo, porque Papai Noel continua mandando a conta). Para os adultos, nada tão simples. Mas ainda assim, sonhável.

E quando se trata de quereres, projetos, de estar no futuro, ainda que se esteja no presente, mas não só, quando se trata daquelas coisas que desejamos com dedos cruzados e olhos apertadinhos, ainda que eu não tenha um Papai Noel, eu também tenho a minha listinha, e sei bem como se sonha. Se é desejo de natal, resolução de final de ano, de encerramento de ciclo, já não sei. Mas sei que são essas coisas que vão no bolso junto com folha de louro, que inspiram a pular sete ondinhas, vestir uma cor x, ou comer y. Só o que entendo por fé é que há de respeitar-se. E entendo também que é aquilo que, todo santo dia, te faz levantar. E minha lista começa justamente por aí: que cada dia seja motivo, janela e que, ainda que não se abra com toda a sua potência, seja fresta, por onde chega um raiozinho de sol insistente que já não deixa seguir dormindo. Mas que alguns dias sejam de preguiça, em que o tempo é mais corpo e menos relógio. Tempo de fim de semana, feriado, férias ou folga.

Na minha lista de final de ano, tem muito o desejo de que o trabalho não avance sobre o todo e que seja parte, uma grande e linda parte, mas que se mantenha devidamente em seu lugar. Porque faz tempo que se sabe: docência é profissão, não sacerdócio. É trabalho, ainda que sedutor, é trabalho, e eu sei, me deixo facilmente levar. Por isso, desejo fortemente não esquecer de descansar, de parar, mesmo que seja item na lista de tarefas: reservar o espaço para o nada, para um café demorado, horas ou dias em que seja possível escolher música, desviar do algoritmo, e estar no comando do tempo, piloto automático desligado.

Ainda que o trabalho exija de mim moderação, desejo que a sala de aula continue sendo o meu chão, que os corredores da universidade sejam possibilidade, encontro e páginas em branco. Para a gente escrever hoje. Que eu sempre tenha novas e mirabolantes - mais no sentido de ousadas do que de fantasiosas - ideias: um livro, um projeto, um evento, num constante "e se?", que é menos de dúvida e muito mais de plano que faz o olho brilhar. Porque trabalho, ainda que no seu devido lugar, também é lugar de sonho. E eu sou de sonhar.

Que o ano que chega novinho em folha, seja de saúde, força e coragem. Seja mais de sentir e menos de correr. E que no meio desse fuzuê todo, toda vez que meu filho me puxar pela mão, eu tenha tempo, sensibilidade e sabedoria para escutá-lo. Receber seus desejos de futuro e os presentes de presente que ele me dá. Esses dias, em um dia de vento, ele me levou até a janela e me mostrou: as árvores estão dançando, mamãe. Que eu consiga sempre ver a coreografia, ouvir a sinfonia e me deixar levar pelo ritmo. Estou vendo, filho. 

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Juliana Petermann
Professora Associada do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM

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