A crise SVG: calendario Publicada em 05/06/2024 SVG: views 267 Visualizações

Os números são impressionantes, de acordo com qualquer parâmetro que se considere: mortos, desaparecidos, desalojados; casas, móveis, bens afetivos; cidades, estradas, pontes; gentes, bichos, plantas; energia, água potável, comida; medicamentos, atendimentos especializados, assistência à saúde. Números engrossados pelos quantitativos econômico-financeiros que colapsaram: comércio, indústria, serviços; lojas e empresas; lavouras e plantadores; empregadores e empregados.

Pertenço a uma classe que lida melhor com a crise. Não apenas por viver em área razoavelmente segura em relação aos alagamentos, mas também pelo fato de que qualquer crise, como drama humano, atinge mais diretamente os pobres, os desassistidos, os relegados, os poucos escolarizados, os periféricos. Por razões certamente bem diversas das minhas, mas também por poderem falar de um lugar seguro, os agentes da ultradireita fazem mais: surfam com a crise (com o perdão do trocadilho infame). Os irresponsáveis de plantão investem na desinformação, na mentira, nos jogos duplos de palavras e na falta de clareza para reforçarem a cantilena anticientífica e retrógrada sobre o tempo, os governos (embora alguns até integrem o comissariado), os serviços públicos, as universidades (enfim, os incriminados de sempre).

Sebastião Melo e Eduardo Leite, que jamais descuidaram do voto bolsonarista (o primeiro, abertamente, o segundo, com discrição e, às vezes, algum desconforto), se dão conta de que a vida do gestor não é feita somente do presente imediato, mas também e principalmente de planejar, presumir, antecipar, preparar. Algo semelhante poderia ser entendido pelo espectro ultradireitista assentado nas prefeituras e casas legislativas. Porém, este, aqui e acolá, embora as perdas acachapantes e visíveis nas várias dimensões da vida e da política, aparenta estar mais interessado em desdenhar do papel fundamental que as instituições públicas (e, de modo amplo, o Estado brasileiro) desempenha, por ofício, em uma hora dessas, sobretudo quanto às dinâmicas de reação rápida, aporte aos desassistidos, socorro de infraestrutura, diagnóstico e reconstrução.

A crise é consequência do desmazelo climático que nos assola. Mas, não se trata apenas disso. A crise é também consequência da cantilena de reduzir o aparelho estatal, desmontar órgãos reguladores, desprezar conhecimento técnico e científico. Em um estado com 11 milhões de habitantes e 497 municípios, é preciso lembrar que temos uma expressiva rede de universidades públicas e comunitárias que cobrem todo o nosso território, algumas delas muito bem ranqueadas em indicadores nacionais e internacionais. Muitas, aliás, presentes com respostas prontas à hecatombe, cerrando fileira ao lado da imensa malha do voluntariado, que acorreu, de forma mais ou menos espontânea e gratuita, em uma demonstração de ajuda humanitária poucas vezes vista entre nós.

Falar em nossa malha de institutos, escolas técnicas e tecnológicas, universidades, é falar de expertise em ciência e tecnologia sobre solos, sobre água, sobre habitações, cidades, meio-ambiente, planejamento público. Isso significa que, além de uma população pronta para selar fileiras e ajudar na linha de frente, temos pesquisa instalada para entender, projetar e gerir vários campos do conhecimento, bem como, apresentar alternativas às soluções de crises da magnitude desta que veio a reboque das águas. Que saibamos ter clareza sobre isso. E mecanismos capazes de aglutinar e otimizar essas forças contra a crise climática e os agentes do atraso.

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Pedro Brum Santos
Professor Titular do departamento de Letras Vernáculas da UFSM

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