Cinema e Audiovisual da UFSM: o que aprender sobre a aprendizagem do cinema
Publicada em
19/08/2026
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No final de julho deste ano, a reitora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), professora Martha Bohrer Adaime, anunciou que a instituição teve doze (12) propostas de novos cursos de graduação recomendadas pelo Ministério da Educação (MEC) no âmbito do programa ‘Universidades Transformadoras’.
Distribuídos entre os quatro campi da instituição (Santa Maria, Frederico Westphalen, Palmeira das Missões e Cachoeira do Sul), os cursos preveem a criação de 382 novas vagas de ingresso. O programa ‘Universidades Transformadoras’, além de promover a revisão curricular e estrutural das instituições, propõe a criação de cursos nas áreas de ciência de dados, inteligência artificial, transição energética, metodologias ativas na educação superior, educação inclusiva, direitos humanos, acessibilidade e áreas do cuidado.
A divulgação da recomendação do Ministério da Educação incluiu dentre os cursos sugeridos a serem criados o de Bacharelado em Cinema e Audiovisual em Santa Maria, que se somará à outras quatro instituições públicas no sul do Brasil que oferecem cursos na área, a saber, a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, de Alvorada, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal da Integração Latino-Americana, (UNILA de Foz do Iguaçu, Paraná).
A criação do Curso de Cinema e Audiovisual na UFSM é resultado de um histórico de esforços pela formação qualificada, pública e gratuita na área do cinema e audiovisual que vem desde os anos 90, onde se destacaram nomes como Sérgio de Assis Brasil, Rondon de Castro, Luiz Carlos Grassi, Maria Cristina Tonetto e Nara Cristina Santos.
Além disso, o setor tem longa trajetória na cidade. Há documentos de exibições que datam de 1897. Logo, a cultura de assistir as imagens em movimento se enraizou no próprio desenvolvimento da urbanização e aumento da população, onde o público lotava as sessões no cinema Recreio Ideal no Theatro Treze de Maio, que funcionou até 1911; no Cine Independência (1922-1995, atual Shopping Popular); no Cine-Teatro Coliseu Santamariense (1911-1945); no Cinema Ar-Livre (1923-1929); no Cinema Imperial (1935-1960); no Cinema Odeon (1937-1939) e no Cinema Glória/Glorinha (1956-1997).
O pesquisador Glênio Póvoas, ao catalogar o Arquivo da Cinegráfica Leopoldis-Som, no Arquivo de Mídias da RBS TV, encontrou “Cerimônias e Festa da Igreja em Santa Maria” filmado por Eduardo Hirtz em 1909. É o documentário preservado mais antigo do Rio Grande do Sul e um dos mais antigos do Brasil. Na questão catalogação e preservação de acervos de cinema, a UFSM também se destaca, pois desde 2022 mantém e organiza a Filmoteca da instituição, priorizando produções locais.
Em 1963, a cidade foi cenário do longa “Os Abas Largas” de Sanin Cherques, com produção do Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano foi realizado na UFSM “A Vida do Solo”, precursor do que se chamaria “filme educativo ambiental”, mesclando desenhos animados (de Joel Saldanha) com cenas do meio rural, coordenado por Anna Primavesi, e produzido por Orion Mello e José Feijó Caneda.
Nos anos 1970 houve uma expressiva produção da “geração do Super-8” com Pedro Freire Junior; Luiz Carlos Grassi, Nicola Chiarelli, Roberto Bisogno, Humberto Ferreira, José Feijó Caneda. O primeiro longa-metragem de ficção com produção local e vinculado à UFSM, foi lançado em 2008, “Manhã Transfigurada” com direção de Sérgio de Assis Brasil. “Câncer – Sem Medo da Palavra” de Luiz Alberto Cassol foi o primeiro documentário em longa-metragem da cidade (de 2009). Desde então foram mais de 10 longas finalizados e lançados na cidade e mais 150 curtas e médias metragens.
Em 2025, o documentário “Quando a Gente Menina Cresce”, dirigido por Neli Mombelli e produzido pela TV OVO, conquistou o prêmio de Melhor Longa-Metragem Gaúcho no 53º Festival de Cinema de Gramado (a produção também recebeu o Kikito de Júri Popular e Menção Honrosa às protagonistas da narrativa).
Há ainda na cidade os mecanismos de distribuição e compartilhamento de conteúdo de cinema e audiovisual com festivais, mostras e cineclubes. Aqui se realizou o primeiro Festival Gaúcho de Super-8 (1975) e se mantém ainda em atividades, o Santa Maria Vídeo e Cinema (SMVC, desde 2002); o Festival de Cinema Estudantil (CINEST, desde 2012); o FENACIN (Festival Nacional de Cinema Independente, desde 2021) e o Assimetria (Festival Universitário de Cinema e Audiovisual) promovido pela UFSM, em atividade desde 2018. Em 2026, o Núcleo de Audiovisual do EduTech (Centro Municipal de Inovação e Empreendedorismo Criativo) promoveu a 1ª Mostra Estudantil e a UFSM recentemente realizou a “Mostra Melhores Minutos” integrada ao Festival do Minuto.
Santa Maria é referência no Brasil pela atuação dos seus cineclubes. Do precursor Edmundo Cardoso com o Clube do Cinema de Santa Maria nos anos 50, ao Cineclube Lanterninha Aurélio criado em 1978 pelos estudantes da UFSM vinculados à Cooperativa dos Estudantes de Santa Maria (CESMA) e ainda em atividade. Atualmente, são oferecidas sessões no Cineclube da Boca da UFSM (desde 2016), no CineMental (desde 2016 ligado ao Espaço Nise da Silveira e Associação de Familiares, Amigos e Bipolares - AFAB), no Clube de Cinema da Casa de Memória Edmundo Cardoso (2022) e do Cineclube Ateliê da Estação (2026).
A UFSM já havia identificado o potencial e a necessidade de formação na área no início dos anos 2000 com o “Curso de Extensão em Produção de Cinema Digital” que teve edições até 2005, retomado em 2023 com a oferta do Curso de Extensão em Cinema e Audiovisual com a prioridade de atender segmentos historicamente excluídos dos processos de ensino-aprendizagem e em situação de vulnerabilidade social. Mas, de que maneira um curso de Cinema e Audiovisual pode ter relevância na vida e no cotidiano das pessoas da cidade, da região e até mesmo do país?
As mediações sociais como tributárias das mídias digitais. Estas, no século XXI, definem grande parte das relações, das interações, das formas de viver, dos mecanismos de produzir e de consumir, do que deve ser lembrado e exaltado e do que pode ser esquecido e depreciado.
A época em que vivemos pode ser reconhecida como os tempos da produção e distribuição generalizada de imagens, sobretudo, imagens em movimento. E o precursor de todas as mídias, da televisão ao aparelho de celular, é o cinema. O cinema que toma forma no século XIX e se populariza no século posterior, foi o elemento central na organização social da contemporaneidade, é quase como o surgimento de um novo ser, o homo videns como havia proposto Giovanni Sartori no início dos anos 2000 ao analisar o papel televisão (Homo Videns: televisão e pos-pensamento. Bauru: EDUSC, 2001) quando afirmou a primazia da imagem em relação ao discurso. O homo que via ao invés de falar, com a ressalva que hoje, a imagem é o discurso, e todos falam sobre tudo mesmo sem qualquer base de conhecimento, chegando ao ponto de o português Walter Hugo Mãe chamar nosso tempo de “O século dos imbecis”.
Nesse circuito de redes sociais, a formação qualificada na área de produção de imagens em movimento se faz necessária. Portanto, grande parte da resposta à questão da pertinência de um curso superior público de Cinema e Audiovisual está justamente nesse fato.
Em termos econômicos, o curso dinamizará a cadeia produtiva do cinema e audiovisual local, ampliando as possibilidades de movimentação de uma quantidade significativa de recursos por meio das produções realizadas. Segundo o Oxford Economics (instituição de pesquisa vinculada à Universidade de Oxford), o mercado audiovisual brasileiro movimentou R$ 70,2 bilhões e gerou mais de 600 mil empregos em 2024, ou seja, o fortalecimento do setor promove a geração de empregos e renda.
O curso será um elemento promotor de cultura e de distribuição da cultura, projetando as diferentes formas de identidade, de pertencimento, de histórias e de diversidade do patrimônio cultural, pois o sentido da universidade pública não é apenas formar mão de obra ou criar resultados econômicos imediatos, mas também produzir e compartilhar conhecimento, formar cidadãos críticos e partícipes da vida comum.
Dentre os objetivos do programa ‘Universidade Transformadoras’ está a readaptação de cursos com baixa ocupação e alta evasão, ou seja, cursos onde sobram vagas (e não são poucos Brasil afora). Pode causar estranhamento o fato de universidades públicas de curso superior terem vagas ociosas, mas em 2026, a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (através de auditoria do Tribunal de Contas da União), ao observar um período de 10 anos, 2104 a 2024, em 69 universidades federais, apontou o declínio acentuado na taxa de ocupação em cursos de graduação a partir de 2020, saindo do patamar histórico de 90% para estagnar em 75% nos anos mais recentes.
Os dados evidenciam o distanciamento do ensino superior da realidade da maioria dos sujeitos e também uma visão de mundo que ainda percebe a universidade, o ensino público de qualidade e a obtenção do diploma como privilégio e não como direito.
O curso de cinema e audiovisual possibilitará à UFSM ampliar seu alcance permitindo aos segmentos marginalizados ou invisibilizados acessarem e permanecerem no ensino formal de nível superior no cinema, área historicamente ocupada por homens, brancos e de alto poder aquisitivo.
Por outro lado, a oferta de novos cursos sinaliza que a formação acadêmica é relevante e faz frente aos discursos que insistem que o diploma não tem mais importância, discurso adequado àqueles e àquelas que desvalorizam a universidade pública e o investimento no ensino superior, estes mesmos que se servem da precarização do trabalho e que, por isso, promovem e lutam pela manutenção das desigualdades de acesso e permanência na universidade, glamorizando uma vaga ideia de “talento inato”, de empreendedorismo, de “vencer na vida sendo dono do seu próprio negócio e ser seu próprio patrão” muito divulgada entre coachs e influenciadores. Ao mesmo tempo, nas universidades, as públicas por excelência, os bancos acabam sendo ocupados pelos mais abastados (estes que nunca deixaram de valorizar a formação acadêmica).
A defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade passa também pela manutenção de programas como o ‘Universidade Para Todos’ (ProUni) e programas de cotas étnico-raciais. Somente com a garantia de acesso e permanência em cursos e áreas que notoriamente são elitizados, se mudará efetivamente o perfil da universidade pública no Brasil e, consequentemente, da sociedade brasileira.
Sobre o(a) autor(a)
Professor do departamento de Turismo da UFSM. Graduado, mestre e doutor em História.