As eleições presidenciais de 2026 – quem se importa com a vida das mulheres? SVG: calendario Publicada em 09/09/2026 SVG: views 53 Visualizações

As mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro. Chefiam mais da metade dos lares no país. São 43% da população ocupada. São mais escolarizadas do que os homens. E são mortas por eles pelo fato de serem mulheres. Em média, quatro mulheres morreram por dia, entre janeiro e julho deste ano. Um total de 848 mortes pelo fato de serem mulheres (1). É trágico. É perverso. É cruel. E daqui a pouco, se não houver prevenção e enfrentamento efetivos, será naturalizado. Quem se importa com a vida das mulheres? 

As campanhas eleitorais à presidência da República concentram seus esforços em três grandes temas: corrupção, economia e segurança pública, que inclui proteção às mulheres contra a violência de gênero. Mas são propostas ainda vagas.

Dos 13 candidatos, duas são mulheres. Mas a presença delas no pleito tem pouco peso. Dos seis candidatos com melhor desempenho nas pesquisas de intenção de voto, o feminicídio é tema tangencial nos programas de governo (2). Vejamos as propostas:

 Lula (PT): o programa faz duas referências ao feminicídio, uma sobre a necessidade de combate e a outra é a solução apresentada: dar sequência ao Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, lançado em fevereiro de 2026; resultado do número alarmante e crescente de mortes. No programa de governo, feminicídio está ligado ao combate às desigualdades.

 Flávio Bolsonaro (PL): o programa é mais enfático no sentido punitivista, com o lema: Tolerância Zero para o Feminicídio, dentro da temática segurança. A proposta é o endurecimento da lei, obrigando os assassinos a cumprirem integralmente suas penas. Dentro do tema-Brasil por Elas, o combate ao feminicídio vai na mesma direção do Pacto que o governo federal já apresentou no que diz respeito à proteção: casas de acolhimento, central de denúncias, etc. A palavra feminicídio foi citada quatro vezes no documento.

 Augusto Cury (Avante) propõe o Projeto Mulheres Vivas como uma política de Estado (não detalha), no qual a solução contra o feminicídio está no uso de tecnologias para diagnosticar o problema e dar mais rapidez à intervenção do poder público. De forma mais direta, aponta a educação como mecanismo de prevenção, a partir de uma cultura da paz. Também na mesma direção das medidas já tomadas pelo governo federal, propõe uma Pacto Nacional pelas Mulheres.  Feminicídio é citado sete vezes no programa.

 Ronaldo Caiado (PSD): o documento do candidato, com 13 citações da palavra feminicídio, aborda o tema em duas dimensões: segurança pública, com a criação de um Protocolo Nacional para a investigação de feminicídio (não detalha), com o endurecimento de respostas penais ao crime; e política para mulheres, com a criação do Pacto Nacional pelo Fim do Feminicídio (não detalha).

Romeu Zema (Novo): o tema feminicídio não é abordado através de uma proposta. O documento cita feminicídio apenas uma vez na área de desenvolvimento social, como um dos problemas a serem combatidos.

 Renan Santos (Missão): não há nada referente ao feminicídio no programa de governo do candidato.

Essa síntese, referente à prevenção e enfrentamento ao feminicídio nos programas de governo dos candidatos à presidência com melhor desempenho nas pesquisas, reflete quem se importa com a vida das mulheres. A esquerda, com Lula, pretende dar continuidade em suas ações, que são boas. Mas falta orçamento para enfrentar esse problema público, e não há apontamento de onde virá. A direita divide-se entre cruzar os braços, com Romeu Zema e Renan Santos; resolver na bala, com Caiado e Flávio Bolsonaro (é o olho por olho, dente por dente, nas entrelinhas de seus programas); e vender livro de autoajuda para estimular uma cultura da paz, com Augusto Cury.                

O pouco espaço dessa temática nos planos de governo dos candidatos, com propostas incrementais, precárias e oportunistas, revela que o tema ainda não é visto como prioridade. Mulheres mortas, pelo fato de serem mulheres, ainda não está sendo tratado como um problema complexo, grave e urgente de resolução.   

O que se espera dessas candidaturas, sob a perspectiva de gênero? Me foi perguntado. Precisamos pensar em mulheres vivas, primeiramente. Espera-se que os candidatos compreendam o feminicídio como um problema público, que coloca em risco mais da metade da população brasileira, sob a responsabilidade de quem estará no governo para gerar respostas efetivas – políticas públicas que protejam, que mantenham as mulheres vivas. Espera-se que os candidatos apresentem que tipos de recursos serão disponibilizados:   humanos, de custeio e de capital. A prevenção e o enfrentamento ao feminicídio precisam estar vinculados aos temas de educação, saúde, direitos humanos, segurança, mas à economia também, afinal, esse fenômeno é multidimensional, o que acaba por demandar intervenções intersetoriais.

A realidade social, política e econômica do país tem mostrado que a vida das mulheres importa, na maioria das vezes, a elas mesmas. Por isso, espero que nós, mulheres-eleitoras, que somos 52% do eleitorado brasileiro, reflitamos sobre quem nos representará no Planalto a partir de 2027, para votarmos em quem realmente se importa com as nossas vidas.          

 

1- Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) disponibilizados em MJSP — Ministério da Justiça e Segurança Pública

2- Os programas de governo dos candidatos Lula, Ronaldo Caiado, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Romeu Zema e Renan Santos podem ser encontrados na página do TSE – disponível em https://www.tse.jus.br

 

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Rosana Soares Campos
Professora do departamento de Ciências Sociais da UFSM. Doutora em Ciência Política