Historiador fala da contribuição de Ferrari ao trabalhismo
Publicada em
17/09/13
Atualizada em
17/09/13 16h13m
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Legado político de Fernando Ferrari em debate no Cultura na Sedufsm
A visão de um capitalismo baseado em princípios de cooperação e solidariedade, propugnado por Alberto Pasqualini, o principal mentor do trabalhismo no Brasil, orientava a atuação parlamentar de Fernando Ferrari. E foi com esse viés ideológico que ele levantou bandeiras como a da reforma agrária, explica o professor Ricardo Oliveira, do departamento de História da UFSM, que trabalhou aspectos do pensamento de Ferrari na tese de doutorado defendida no início deste ano. Ricardo Oliveira participa como debatedor do Cultura na Sedufsm da próxima segunda, 23 de setembro, às 18h30, que acontece no plenário na Câmara de Vereadores.
O tema da 59ª edição do Cultura é “Fernando Ferrari e o legado político para a atualidade” e terá como principal expositor o professor Fernando Ferrari Filho, da Faculdade de Economia da URGS. Junto com ele participam, além do professor Ricardo Oliveira, a professora Maura Bombardelli, da rede estadual de ensino, também mestranda da UFRGS. A coordenação da mesa será do professor da UFSM e diretor da Sedufsm, Humberto Gabbi Zanatta.
Ricardo Oliveira, em sua tese, focou o pensamento político de Fernando Ferrari no que diz respeito à reforma agrária e, mais especificamente, a relação da reforma agrária com o projeto trabalhista de Fernando Ferrari para o Brasil nos anos 1940/1960. Acompanhe a seguir os trechos da entrevista concedida à assessoria de imprensa da Sedufsm.
Pergunta- Na sua avaliação, qual a importância da atuação de Fernando Ferrari para a política gaúcha e brasileira?
Resposta- A importância da atuação de Fernando Ferrari para a política gaúcha e brasileira, desenvolvida entre meados dos anos de 1940 e o começo dos anos de 1960, pode ser pensada sob o ponto de vista da necessidade do vínculo de princípios doutrinários para o exercício de toda atividade política. A partir do pensamento trabalhista elaborado por Alberto Pasqualini, com a defesa de um capitalismo baseado em princípios de cooperação e solidariedade social, é que Fernando Ferrari procurou orientar sua atuação política, em especial na esfera parlamentar, tanto na Assembleia Legislativa do RS no final dos anos 1940, quanto na Câmara dos Deputados ao longo dos anos 1950, sendo um dos pontos de destaque na sua trajetória política a luta pela reforma agrária como parte de um projeto trabalhista para o Brasil.
P - Qual a importância de os historiadores resgatarem a contribuição política de Ferrari?
R- Na minha opinião, a importância do estudo da contribuição política de Fernando Ferrari por parte dos historiadores, pode ser compreendido levando em consideração o papel de Fernando Ferrari na história do pensamento político brasileiro do século XX. A atuação de Fernando Ferrari (1940/1060) ocorreu em um período bastante rico e profícuo no debate sobre projetos de Nação para o Brasil, no sentido de um desenvolvimento econômico nacional que superasse as mazelas sociais e econômicas que existiam no país. Tínhamos o pensamento desenvolvimentista de cunho cepalino (Cepal), representado pela figura de Celso Furtado; o pensamento socialista do PCB com a revolução democrático-burguesa; o projeto agrário das Ligas Camponesas. Fernando Ferrari foi um dos representantes, ao lado de Alberto Pasqualini, na formulação doutrinária do pensamento trabalhista, enquanto projeto político para o país.
P - Um dos aspectos trabalhados na trajetória política de Ferrari é o debate sobre as questões agrárias, especialmente sobre a reforma agrária. Qual a relevância dessa discussão nos dias atuais?
R- A reforma agrária foi uma das principais bandeiras de luta de Fernando Ferrari, a tal ponto de, na campanha a Vice-Presidência que participou em 1960, se intitular como "Vice-Presidente do campo". O tema da reforma agrária foi um dos caminhos apontados por Fernando Ferrari para um desenvolvimento social e econômico mais equânime e justo. Contudo, devemos compreender o tema da reforma agrária no pensamento político de Fernando Ferrari associado ao tema do trabalhismo, ou seja, compreender o tema da redistribuição da propriedade fundiária como parte do processo de construção de uma sociedade trabalhista, com cooperação e solidariedade social, sem usura e dominação na relação capital x trabalho.
Levando em consideração a relação entre reforma agrária e trabalhismo para Fernando Ferrari, nota-se que o tema da reforma agrária possui ainda uma atualidade. Em 1963 foi sancionado pelo presidente João Goulart o Estatuto do Trabalhador Rural, projeto de autoria de Fernando Ferrari que estendia aos trabalhadores do campo os direitos trabalhistas que já existiam para os trabalhadores urbanos. Contudo, com os acontecimentos políticos de 1964, o tema da redistribuição da propriedade fundiária foi deixado de lado, ainda que em 1964 tenha sido sancionado o Estatuto da Terra, lei que previa a desapropriação de terras para fins de reforma agrária. Porém, na prática, a partir dos governos militares foi incentivado o desenvolvimento capitalista das grandes propriedades fundiárias, culminando no moderno agronegócio, com a separação da questão econômica da questão social no que se refere à solução dos problemas do campo.
Fernando Ferrari foi exemplar no sentido de não procurar fazer distinção entre questão econômica e questão social na discussão sobre reforma agrária, e isto é uma contribuição importante para o debate agrário brasileiro da atualidade. Pensar a redistribuição da propriedade fundiária como parte de um projeto político para o país significa não privilegiar um aspecto (econômico) em detrimento do outro (social). O desenvolvimento das condições de vida e subsistência do conjunto da população deve estar em primeiro plano, conjugando aspectos econômicos, políticos e sociais, e não apenas o peso de um setor econômico (primário-exportador) para o crescimento do PIB brasileiro, que sob a retórica da produtividade perpetua desigualdades econômicas e sociais já existentes na época de Fernando Ferrari.
Texto: Fritz R. Nunes
Imagem: reprodução da obra “Fernando Ferrari, ensaios sobre o político das mãos limpas”.
Assessoria de Imprensa da Sedufsm
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