Historiador diz que saída para a crise passa por projeto anticapitalista
Publicada em
23/10/15
Atualizada em
17/12/15 19h10m
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Osvaldo Coggiola falou sobre crise do Brasil em palestra na terça, dia 20
A gravidade da crise econômica do Brasil não se deve a um “erro” de condução na política do governo, mas é fruto de um problema estrutural do sistema capitalista. De uma forma dialética, a crise externa, iniciada de forma mais profunda em 2008, está afundando o Brasil, mas ao mesmo tempo, a crise brasileira pode ajudar a afundar o planeta, a começar pelas economias dos países emergentes, conhecidos como Brics (Brasil, Rússia, India, China e África do Sul).
E a saída para fugir do precipício para o qual estamos indo não passa pelas fórmulas existentes, seja do PT ou do PSDB, de promover um ajuste nas contas, cortando gastos e elevando juros, que enriquecem os bancos, mas sim pela construção de uma frente independente dos trabalhadores, com um projeto anticapitalista. A análise é do economista e professor de História da USP, Osvaldo Coggiola, que fez palestra na última terça 20, no auditório da Sedufsm, tendo como tema “A crise do Brasil no contexto internacional”.
Quando fala que o país vive dias sombrios e que está à beira do precipício, o professor da USP não destaca isso apenas como figura de linguagem. Ele usa como referência declarações daquele que é considerado por ele um dos porta-vozes da elite do país, o economista Delfim Netto. Coggiola apresenta alguns números que demonstram a gravidade do quadro. Conforme números de 2014, que ainda não computavam a recente desvalorização da moeda, a dívida privada externa, que é de bancos e empresas privadas, ultrapassou R$ 200 bilhões, tendo sido duplicada entre 2009 e 2014, acumulando o maior valor da história. Apenas a Petrobras, após o recente aumento do dólar frente ao real, alcança uma dívida de R$ 74 bilhões.
Diante desse quadro de endividamento, em que a dívida pública alcançou, até 30 de setembro o correspondente a 47% do orçamento federal, ou R$ 773 bilhões, o governo federal, que faz um ajuste fiscal economizando em cima das áreas sociais e diminuindo investimentos em todas as áreas, ao mesmo tempo concede benefícios a empresas,a través de desonerações fiscais, que superam a barreira dos R$ 400 bilhões.
Esse caldo de desestruturação na economia, a partir dos juros altos e corte de subsídios, arrocho nos salários, que redundam numa recessão que, por sua vez, em um ciclo vicioso, acaba por gerar também uma queda nas receitas do próprio governo e, assim, a crise se retroalimenta. Em função disso, o historiador argumenta que a crise econômica traz embutida em si, sucessivas crises políticas.
Para o professor, a crise enfrentada pelo Brasil, tanto na ótica do governo quanto da oposição de direita, deve ser enfrentada com medidas similares: desvalorização da moeda, corte de investimentos, redução de direitos trabalhistas, redução do valor do salário e privatizações, inclusive de empresas estatais. O ajuste fiscal que está andamento é apenas um “aperitivo” de um ajuste maior, que objetiva abrir totalmente o mercado brasileiro ao capital internacional.

Quais as alternativas?
Osvaldo Coggiola diz que há poucas alternativas políticas para combater a crise fora do que está estabelecido. Segundo ele, a oposição ao governo do PT, que passa pelo PSDB, também defende o ajuste fiscal. Já em relação à oposição de esquerda (Psol, PSTU, PCB), ele a considera como uma frente de partidos, ao menos por enquanto, “inconsequente, que não mobilizada nada”, pois não possui um projeto classista para a sociedade.
A dificuldade em encontrar uma alternativa viável na oposição de esquerda é citada por ele com alguns exemplos. Na ótica do professor, o Psol é um partido com pouca definição quanto ao viés classista, pois não há unanimidade em relação a que centrais se deve atuar, com cada grupo escolhendo a sua (um balaio de gatos, dito por ele), mas que, por outro lado, tem alguma densidade eleitoral.
Já o PSTU é o contrário do Psol, na avaliação de Coggiola. Possui relações com a classe trabalhadora, especialmente através da CSP-Conlutas e de seus sindicatos de base, mas de outra parte, do ponto de vista eleitoral, tem tido resultados inexpressivos. Na análise do historiador, a própria CSP-Conlutas, deveria assumir posturas mais claras, pois “na hora do vamos ver, se atrela à CUT”.
É em função desse quadro conjuntural que o historiador argumenta que, para a viabilidade da esquerda, ela precisa ir além de “quebrar vidraças” ou da mobilização em redes sociais. Ela precisaria um projeto independente, autônomo, dos trabalhadores, rompendo com o receituário capitalista. Coggiola não vê isso como algo utópico. Ele lembra que, em 1917, um país bastante atrasado economicamente e de uma sociedade conservadora, a Rússia, conseguiu vivenciar uma experiência que durou décadas, através da qual os trabalhadores foram os protagonistas.
Acompanhe além das fotos, abaixo, o vídeo da palestra do professor Osvaldo Coggiola, no auditório da Sedufsm.
Texto e fotos: Fritz R. Nunes
Assessoria de imprensa da Sedufsm
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