Professora analisa desafios do ensino remoto na perspectiva do REDE SVG: calendario Publicada em 27/08/20
SVG: atualizacao Atualizada em 27/08/20 19h35m
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Adriana Veiga enfatiza que é fundamental avaliar os objetivos relacionados à aprendizagem

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Reitor Paulo Burmann (e) e o vice, Luciano Schuch, conduziram reunião do CEPE em 10 de agosto

No último dia 10 de agosto, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) da UFSM aprovou a regulamentação do REDE (Regime de Exercícios Domiciliares Especiais), que vinha sendo utilizado como alternativa à ausência de aulas presenciais. Diante da impossibilidade de retorno do calendário acadêmico em curto e médio prazo, o regime passou a ser uma opção regulamentada, e os conteúdos dados até agora, validados. Entretanto, em que pese a normatização, muitas dúvidas ainda pairam sobre o fato de tornar essa modalidade oficial, tendo em vista os efeitos sobre os quais não se têm total clareza. De um lado, porque os próprios docentes, em sua maioria, não possuem a formação adequada para o ensino remoto. E, por outro, em face de que estudantes, além de não estarem preparados para a totalidade de aulas virtuais, padecem em muitos casos, de uma situação precária para acessar os meios tecnológicos e poder assistir as aulas.

A assessoria de imprensa da Sedufsm fez uma entrevista com a professora Adriana Moreira da Rocha Veiga, do Centro de Educação da UFSM. Lotada no departamento de Fundamentos da Educação, Adriana atua, na pós-graduação, da linha de pesquisa: ‘Gestão Pedagógica e Contextos Educativos’. Em sua trajetória acadêmica tem desenvolvido trabalhos em desenho e implantação de projetos institucionais, construção de redes de formação presenciais e virtuais; ambiência, aprendizagem na e da docência digital; saberes da docência digital, mediação pedagógica virtual, entre outros temas.

Uma das primeiras questões feitas à professora se refere à decisão do CEPE, se pode ser considerada como a mais acertada, e se atende as expectativas tanto docente como discente. Para Adriana, a situação é complexa e um consenso difícil de ser alcançado no atual contexto. No caso dos professores, segundo ela, o que está claro é que já estarão (e ficarão) ainda mais sobrecarregados. Em relação às possibilidades de atendimento das necessidades dos alunos, Adriana avalia que “dependerá da nossa capacidade de tornar o processo acessível e de ir contornando os aspectos emocionais envolvidos, dado às consequências da própria pandemia na vida individual, familiar e social. Nesse momento não se tem claro o que virá à frente ainda”.

Obstáculos para alunos e professores

Outra importante questão se refere aos obstáculos levantados, por docentes, e também por estudante, para que o Regime de Exercícios Domiciliares Especiais possa ser colocado em prática. Ela cita que um dos dificultadores para alunos e alunas é “o fato de existirem disciplinas com excessivas aulas on line, quando não é recomendável mais que 40 a 50 minutos, durando períodos inteiros ou, ao contrário, excessivos conteúdos e atividades para desenvolver sem o suporte do professor e da turma”. Estas duas situações, diz ela, “têm que ser pensadas pelo docente ao planejar a sua disciplina, pensando que o seu aluno, a sua aluna, estarão sozinhos e precisam de uma orientação o mais completa possível para chegar ao resultado planejado”.

Em relação às pesquisas entre os segmentos docente e discente, que apontaram obstáculos, por exemplo, para o acesso aos meios digitais, Adriana pondera que essas situações precisam ser localizadas, mapeadas pelos setores responsáveis das instituições, para que seja encontrada uma solução. E, quando essas dificuldades tiverem difícil superação, a docente propõe que é preciso que haja maior flexibilidade na rigidez até então existente, que se relaciona com a “normalidade” presencial.

Ensino remoto x aprendizagem

Foi levantada uma outra questão à professora Adriana da Rocha Veiga, que se refere a um dos aspectos fulcrais: a falta de acesso às ferramentas tecnológicas para as aulas on line por parte de um contingente importante de alunos e alunas. O Ministério da Educação abriu uma linha de crédito para que universidades federais se habilitem a receber esse recurso, e assim dar assistência a estudantes que situam numa linha de carência econômica, que, inicialmente, é de até meio salário mínimo per capita, havendo possibilidade de que possa ser estendido a uma faixa de rende que alcance até 1,5 salário mínimo per capita.

Para a docente, essas medidas são importantes porque “contribuem para o acesso de estudantes ao ensino remoto, mas de fato e de direito a igualdade e democracia dependem de muito mais que isso”. Adriana observa que “trata-se de diminuir as dificuldades para que esses estudantes possam alcançar as mesmas condições e permanecerem no processo com a possibilidade de aprendizagem significativa”. Todavia, critica ela, “temos discutido o ensino remoto sem avaliar se este ensino está significando aprendizagem”. E a professora questiona: “seria hora mesmo de manter o foco nos currículos previstos, ou seria hora de propor novos currículos, discutindo temas importantes para o desenvolvimento do cidadão e profissional, os quais estamos passando de raspão?”.

Acompanhe a seguir a íntegra do depoimento da professora Adriana Moreira da Rocha Veiga.

Pergunta- Professora Adriana: o CEPE da UFSM, em sessão ocorrida no dia 10 de agosto, aprovou a normatização do Regime de Exercícios Domiciliares Especiais (REDE). Dessa forma, os conteúdos ministrados no primeiro semestre deste ano se tornam oficiais. Já quem não aderiu ao REDE, poderá fazê-lo no segundo semestre deste ano. Ficou a possibilidade de recuperar o conteúdo de quem não teve, no primeiro semestre deste ano, para um calendário complementar no ano que vem. Para a sra., a decisão tomada pelo CEPE atende às expectativas de docentes e estudantes?

Resposta- Esta questão é bastante complexa. O consenso total é difícil, principalmente porque a situação mundial que estamos vivendo nos afeta profundamente e nossa disposição é muito mais disruptiva do que seria normalmente. Eu vejo, como docente, que o nosso trabalho duplicou. E, de agora até dezembro, para quem atua na pós-graduação, acrescenta-se o período de avaliação de quadriênio pela CAPES, quando temos de dar conta do Relatório na Plataforma Sucupira; também o período de seleção de novas turmas de mestrado e doutorado. Então, para muitos de nós que já aderimos ao REDE na primeira chamada, a sobrecarga está sendo grande. Aqueles que estarão aderindo neste momento e ficaram na observação, talvez necessitem de um suporte pedagógico e tecnológico para que possam desenvolver um bom trabalho no REDE. A correspondência à expectativa estudantil dependerá da nossa capacidade de tornar o processo acessível e de ir contornando os aspectos emocionais envolvidos, dado às consequências da própria pandemia na vida individual, familiar e social. Nesse momento não se tem claro o que virá à frente ainda. Temos que trabalhar com planejamentos pontuais e flexíveis.

Pergunta- Uma pesquisa feita pela Prograd junto aos docentes da UFSM apontou alguns obstáculos para o trabalho remoto. Entre eles, dificuldade para a transposição de conteúdos e internet ruim. A sra. acredita que, com a normatização do REDE, esses problemas poderão ser superados?

Resposta- São duas questões importantes que envolvem, por um lado, aspectos técnicos e tecnológicos [Internet e Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA Moodle ou Google Classroom)] e, por outro, aspectos essencialmente pedagógicos e pedagógico-tecnológicos, ou seja, a REDE tem dois nós importantes aqui e que não podemos desconsiderar para a análise da qualidade esperada do processo. Envolve vários segmentos da Universidade para oferecer estas condições. Vamos nos deter no REDE como “Exercícios Domiciliares Especiais”, restringindo a visão pedagógica a uma adaptação curricular de atividades síncronas (on line) e assíncronas (off line), exigindo replanejamento de disciplinas, aulas on line e acesso aos conteúdos e atividades digitais. Um exemplo de dificuldade para os estudantes é o fato de disciplinas com excessivas aulas on line (quando não é recomendável mais que 40 a 50 minutos), durando períodos inteiros ou, ao contrário, excessivos conteúdos e atividades para desenvolver sem o suporte do professor e da turma. Estas duas situações tem que ser pensadas pelo docente ao planejar a sua disciplina, pensando que o seu aluno, a sua aluna, estarão sozinhos e precisam de uma orientação o mais completa possível para chegar ao resultado planejado. O desafio é para ambos, docentes e discentes.

Pergunta- Na pesquisa feita com os estudantes, os problemas apontados parecem ser bem maiores. Os mais citados: dificuldades psicológicas causadas pelo isolamento social (44%), dificuldades no contexto familiar, econômico ou de trabalho (34%), por não concordar com a adoção do REDE (34%) e, em quarto e quinto lugar, respectivamente, baixa qualidade de internet (29%) e equipamento de acesso inadequado ou com problema (29%). De que forma a sra imagina que, a partir de oficializado o REDE, esses obstáculos poderão ser superados?

Resposta- De certa forma a questão anterior já vinha nessa linha. Vamos ver objetivamente:

  • dificuldades psicológicas causadas pelo isolamento social (44%) – todos nós de um modo ou outro estamos incluídos nesse item; precisamos de uma rede de apoio psicológico e psicopedagógico permanente, a qual deverá ser on line também;
  • dificuldades no contexto familiar, econômico ou de trabalho (34%) – quando

uma situação se torna psicologicamente intolerável, é necessário uma ação imediata para “aliviar” a pressão – podemos contribuir se nos mostrarmos abertos à negociação de prazos ou simplesmente fazendo uma escuta atenta e sensível ao nosso aluno, colega docente ou colega técnico – uma REDE HUMANA sempre disponível; é um equívoco consideramos que é possível amenizar a dor deste momento em que vivemos determinando uma pseudonormalidade – o que estamos vivendo é atípico e vai mudar o rumo da humanidade, desejamos que mude mais para o bem do que para o mal;

  • não concordar com a adoção do REDE (34%) – no momento em que o Conselho decidiu, a discordância permanece, mas não há como se negar a continuidade do calendário, por mais pesado que pareça, o “cumpra-se” determina o que vem a seguir; e, salientamos, mesmo que lá em fevereiro permaneça a situação de isolamento social em outras ondas de pandemia, como vem ocorrendo em países que já tinham vencido a incidência de contágios;
  • baixa qualidade de internet (29%) e – então, essa é uma questão que exclui quem não pode manter um bom provedor, embora a Reitoria tenha disponibilizado ajuda aos estudantes com dificuldades, isto permanece, inclusive para àqueles que retornaram para regiões afastadas de zona urbana; é preciso mapear essas situações para podermos flexibilizar prazos e procedimentos;
  • equipamento de acesso inadequado ou com problema (29%) – esta questão existe, de fato e é de difícil solução em uma época de dificuldades financeiras; mesmo entre os docentes isto ocorre; novamente, é preciso mapear essas situações para buscar soluções.

Pergunta- O governo anunciou uma linha de crédito para que as universidades federais possibilitem a conectividade aos alunos com renda per capita familiar de até meio salário mínimo. Mas, conforme a PRAE (pró-reitoria de Assuntos Estudantis), as IFES poderão fazer um contrato direto com a RNP (Rede Nacional de Pesquisa) para prover a conectividade para os alunos de outras faixas de renda: maior que meio salário mínimo até 1,5 salário mínimo. No seu entendimento, são medidas suficientes para possibilitarem um acesso igualitário e democrático de estudantes ao ensino remoto?

Resposta- Creio que são medidas que contribuem para o acesso de estudantes ao ensino remoto, mas de fato e de direito a igualdade e democracia dependem de muito mais que isso e, novamente, trata-se de diminuir as dificuldades para que esses estudantes possam alcançar as mesmas condições e permanecerem no processo com a possibilidade de aprendizagem significativa. Na realidade temos discutido o ensino remoto sem avaliar se este ensino está significando aprendizagem. Seria hora mesmo de manter o foco nos currículos previstos, ou seria hora de propor novos currículos, discutindo temas importantes para o desenvolvimento do cidadão e profissional, os quais estamos passando de raspão? O mundo desaba e nós “aqui na praça dando milho aos pombos”; a situação política e econômica do nosso país é de caos total e nós continuamos aqui... Estamos sem Ministro da Saúde e sem Ministro da Educação em um governo totalmente “desgovernado” e parece ser proposital... O governo não quer nomear esses ministros para poder tomar decisões sem interferência técnica ou não existem candidatos a esses cargos porque não existe governabilidade plausível?

 

Texto/entrevista: Fritz R. Nunes

Imagens: Print/Sedufsm e Arquivo pessoal

Assessoria de imprensa da Sedufsm

 

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