'Teatro Por Que Não' lança espetáculo baseado em obra censurada de Caio Fernando Abreu
Publicada em
29/10/21
Atualizada em
01/11/21 14h19m
1191 Visualizações
Grupo santa-mariense recebeu uma das maiores premiações brasileiras destinadas a montagens teatrais
Chegamos à sexta-feira e, com ela, a mais uma dica cultural. Embora a pandemia ainda exija o pacto coletivo de respeito às condições sanitárias de segurança, algumas apresentações artísticas têm, aos poucos e com uma série de cuidados, retornado à presencialidade. É nesse sentido nossa indicação de hoje
Estreia no dia 13 de novembro, no Teatro Treze de Maio, o espetáculo “Pode Ser que Seja Só o Leiteiro lá Fora”, do Teatro Por Que Não. Premiado, ainda em 2019, pelo edital FAC Teatro Hoje: Serafim Bemol, o grupo santa-mariense foi o mais distante da capital gaúcha a receber o prêmio no valor de R$ 100 mil para a produção de uma peça inédita. Como se trata de um prêmio estadual, o edital trazia a obrigatoriedade de que as companhias teatrais escolhessem textos de autores e autoras gaúchos. O Por Que Não, então, passou a procurar obras literárias que tornassem possível a construção de um espetáculo com muita sonoridade e uma cenografia complexa.

Ao se defrontar com o texto de Caio Fernando Abreu, o grupo não teve dúvidas. Além de já nutrirem afeto e respeito pela obra do escritor santiaguense, escolheram-na com vistas a resgatar um escrito que foi censurado à época da ditadura. É o que comenta Felipe Martinez, diretor do espetáculo.
“O texto foi escrito em 1973 e, em 74/75, foi censurado por 10 anos pela ditadura. O Caio sofreu muito com essa censura, porque ela dificultava a vida dos artistas. E esse era um dos objetivos da censura: fazer com que eles não pudessem sobreviver da arte. Então um dos nossos objetivos é lançar luz sobre um texto que foi proibido naquela época, e, por isso mesmo, foi muito pouco montado. A ditadura conseguiu esconder obras, principalmente do teatro. Neste momento, em que devaneios autoritários são respaldados por grande parte da população e a censura artística é apoiada quando convém, precisamos mostrar como isso foi ruim para o país. Esse texto também passou a fazer muito mais sentido para nós depois da pandemia, porque os assuntos que ele aborda ali parecem dialogar ainda mais com as pessoas hoje”, comenta Martinez.
Pelo menos 30 profissionais – entre elenco, direção, figurinistas, costureiros(as), aderecistas, marceneiros(as) e cenógrafos(as) – compõem a equipe do espetáculo. Para a estreia no dia 13 de novembro, os ingressos, embora gratuitos, serão bastante restritos. Isso porque o grupo já definiu anteriormente cotas a serem preenchidas por grupos específicos e importantes de acompanharem a primeira apresentação pública.
Um exemplo é a reserva de lugares para pessoas assistidas pela Casa 13 de Maio de Santa Maria, responsável por acolher portadores e portadoras do vírus HIV. Caio era soropositivo e tal realidade perpassa sua escrita e sua vida. Cotas também foram reservadas a artistas da cidade e a pessoas com deficiência auditiva, visto que o espetáculo conta com tradução para a linguagem de libras.
Assim, ainda não há ingressos disponíveis para o público em geral. Na semana do evento, o Por Que Não destinará um dia para disponibilização de ingressos, em sua sede (R. Duque de Caxias, 380). Tendo em vista também as normas sanitárias demandadas pela pandemia, o número de lugares será restrito. Acompanhe o site e as redes sociais (Facebook e Instagram) do Teatro para ficar de olho nas informações.
Mas, caso você não consiga garantir um lugar na estreia do espetáculo, fique tranquilo(a): Martinez antecipa que deverão ocorrer mais quatro apresentações até o final deste ano. Datas, locais e horários serão divulgados nas próximas semanas.
O retorno aos palcos
Essa será a primeira vez, desde o início da pandemia, que o Por Que Não apresentará uma peça inédita e presencial. Após mais de um ano desenvolvendo atividades remotas, o sentimento de estar de volta aos palcos não é fácil de ser sintetizado. Enquanto a suspensão da presencialidade fez o grupo se reinventar e aprender novas linguagens, o período também foi pedagógico para atestar a centralidade da presença, do afeto e da energia compartilhada entre artistas e público.
“Poder voltar agora é algo bom, mas não é uma conquista nossa. É uma conquista da sociedade, que já poderia ter acontecido se a situação tivesse sido controlada de outra forma. A gente se virou, fizemos várias coisas online, aprendemos muito e nos desenvolvemos enquanto grupo e enquanto linguagem artística. Mas no teatro, é difícil explicar, sentimos algo bom vindo da presença e da energia das pessoas. Ficamos sem isso durante muito tempo, e nosso trabalho depende disso porque é feito para ser uma troca ao vivo. Então a felicidade não é plena porque a situação não permite, mas ao mesmo tempo é uma felicidade ressignificar e revalorizar nosso trabalho, entender a importância dele na vida das pessoas”, diz Martinez.
Ele ainda pondera o período extremamente difícil que a pandemia representou para a classe artística brasileira, levando muitos(as) artistas a terem de buscar outras formas de garantir a vida. “Os incentivos já vinham minguando. É um colapso geral. Foi e está sendo ainda um período muito complicado”, comenta, ressalvando que, mesmo antes da pandemia, “os incentivos já vinham minguando”, devido a uma “política que busca desconstruir qualquer possibilidade de fomento às artes”.

Dez anos de Por Que Não
Ganhar o edital no valor de R$ 100 mil já seria um marco por si só muito considerável. Ocorre que a vitória ficou ainda mais emocionante pois marcou os 10 anos do teatro Por Que Não, comemorados em 2020. Além de ser o maior prêmio já recebido pela companhia santa-mariense, o valor também representa um dos maiores prêmios dados a montagens de espetáculos teatrais no âmbito do estado e também na esfera nacional.
Para cumprir as determinações do edital, o grupo deverá se apresentar ano que vem no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. À medida que o avanço vacinal e a queda nas curvas de contágio por Covid-19 forem permitindo, o grupo pretende levar o espetáculo para mais cidades.
Aulas de teatro
O Por Que Não só abre novas turmas coletivas para o curso de teatro em março de 2022. Contudo, é possível realizar aulas particulares. Informações podem ser obtidas nas redes sociais do grupo – acima mencionadas.
Texto: Bruna Homrich
Imagens: Divulgação
Assessoria de Imprensa da Sedufsm
Galeria de fotos na notícia