Santa Maria acompanha, em dois locais, o júri da boate Kiss SVG: calendario Publicada em 03/12/21
SVG: atualizacao Atualizada em 03/12/21 18h10m
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Coletivo formado por profissionais e voluntários oferece apoio psicossocial e terapêutico a familiares e sobreviventes

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Desde a última quarta-feira, 1º de dezembro, quando teve início o júri da boate Kiss, em Porto Alegre, profissionais e voluntários têm se feito presentes, durante três turnos, nos dois lugares que transmitem, ao vivo, o júri em Santa Maria. Um dos pontos é a tenda da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), localizada na Praça Saldanha Marinho; e o outro é o Clube Comercial. Em ambos os locais foram afixados telões e cadeiras para que familiares de vítimas, sobreviventes e população em geral possa acompanhar o julgamento da maior tragédia já experenciada pelo estado do Rio Grande do Sul. Há quase nove anos, desde a madrugada do dia 27 de janeiro de 2013, a cidade é palco de mobilizações por memória e por justiça para as 242 vítimas fatais e os mais de 600 sobreviventes do incêndio.

Na tenda, integrantes do Coletivo de Apoio a Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Kiss revezam-se das 9h até por volta das 13h, das 15h30 às 18h e das 18h às 20h. Natália Noal, acadêmica de Psicologia da UFN e voluntária do coletivo, explica que diversas pessoas que passam pelo centro sentam-se ou mantêm-se de pé e acompanham, por períodos de tempo variados, partes do júri. Quando nossa reportagem chegou ao local, quase todas as cadeiras estavam ocupadas. A estudante relata que frases de indignação são comumente ditas por quem se aproxima do telão, e que as manifestações de apoio e busca por justiça têm sido frequentes. O banner colocado na tenda atesta o que é dito pela voluntária: em pouco tempo, quase todos os espaços em branco foram preenchidos com mensagens de afeto e luta escritas pela população santa-mariense que transita pelo local. Alguns familiares também têm buscado, em determinados momentos do dia, assistir ao júri na tenda.

“É uma experiência única [ser voluntária de apoio psicossocial]. Espero que seja feita a justiça, porque a dor dos familiares é muito grande”, diz Natália.

Memória coletiva

O outro local de Santa Maria a passar o júri da Kiss é o Clube Comercial, localizado na rua Venâncio Aires. Lá, no segundo andar, um telão também transmite o evento em tempo real. Mas não é só isso. Na sala posicionada em frente a este ambiente, está exposta uma grande colcha de retalhos, costurada desde 2013 por estudantes do curso de Terapia Ocupacional da UFSM. No mesmo ambiente, há canetas, tintas, papéis e macas. Isso porque ali são ofertadas, pelo Coletivo de Apoio às Vítimas e Sobreviventes, uma série de Práticas Integrativas e Complementares, a exemplo de massagem, acupuntura, auriculoterapia e reiki. Todas essas atividades têm por objetivo amenizar, ainda que momentaneamente, os gatilhos de ansiedade e sofrimento trazidos pela rememoração da tragédia.

Monalisa Dias é antropóloga, docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e do departamento de Saúde Coletiva da UFSM. Tendo trabalhado com a boate Kiss em seu projeto de pós-doutorado, hoje ela integra o coletivo de apoio psicossocial, permanecendo, desde a quarta, em turnos revezados, no Clube Comercial. Para ela, o envolvimento da UFSM, seja a partir de seus servidores e estudantes, seja no âmbito da extensão, da pesquisa ou dos atendimentos prestados no Hospital Universitário, é fundamental.

“Essa tragédia faz parte da história de toda a cidade de Santa Maria. E a universidade tem um papel muito importante na cidade e tem um papel importante também com esses familiares, com os sobreviventes. Perdemos muitos estudantes da universidade - são muitas pessoas afetadas direta ou indiretamente. A universidade tem contribuído ao longo desses anos com as questões e desdobramentos relacionados ao incêndio. Nesse momento não poderia ser diferente. Tem vários professores, muitos estudantes como voluntários. É bem importante esse envolvimento, dada a relevância da UFSM na cidade”, avalia Monalisa.

Na última terça, 30, um ônibus com 50 familiares e sobreviventes do incêndio deslocou-se até Porto Alegre para que eles acompanhassem o júri de perto. A docente da UFSM conta que lá, na capital, também há um serviço de acolhimento e apoio psicossocial a essas pessoas. Serviço que dialoga diretamente com o coletivo que vem prestando suporte em Santa Maria.

“E achamos muito importante e necessário que esse acolhimento, esse apoio psicossocial, também acontecesse em SM. Pensamos: vai ser um julgamento longo, muito esperado, muitas expectativas. Muita gente não quer assistir sozinho, quer conversar um pouco sobre isso, quer estar junto nesse momento. Então a ideia desses espaços é essa: a gente poder conversar e estar junto. Familiares e alguns sobreviventes têm nos procurado”, relata.

Monalisa também destaca que a população de forma geral, ainda que não diretamente envolvida no incêndio, tem sentido a necessidade de acompanhar, de se informar e de dialogar sobre o evento. “Isso é bem importante para o reconhecimento do que foi essa tragédia na cidade e também para a construção dessa memória, que é coletiva”, comenta.

O espaço montado no Clube Comercial reserva um pouco mais de intimismo e resguardo. A ideia é que todas as pessoas que tenham perdido familiares, amigos ou que estivessem na boate naquela madrugada sintam-se convidados e acolhidos.

“Quem foi afetado diretamente, quem perdeu uma pessoa querida, quem esteve lá no dia. Todas essas pessoas estão convidadas a estarem nesse espaço, se precisarem e quiserem conversar ou se quiserem a oferta dessas terapias, para da melhor forma possível enfrentarmos esse momento”, salienta Monalisa.

O espaço no Clube Comercial funciona das 8h às 21h. Já o julgamento na capital tem previsão de durar cerca de 15 dias.

 

 

Texto e fotos: Bruna Homrich

Assessoria de Imprensa da Sedufsm

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