O legado de um apaixonado por literatura e rádio
Publicada em
25/05/26
Atualizada em
25/05/26 12h37m
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Professor, ex-diretor do CAL e colaborador da Sedufsm, Pedro Brum Santos faleceu no dia 23 de maio
A foto em destaque que abre essa matéria retrata bem o que sempre foi Pedro Brum Santos. Docente do departamento de Letras Vernáculas da UFSM, cotidianamente envolvido com movimentos culturais da cidade e do seu sindicato. O registro trazido mostra Pedro se manifestando durante o lançamento da edição da revista ‘D Palavra’, da Sedufsm, em 20 de março de 2014. O professor foi do conselho editorial da publicação do sindicato.
Pedro Brum Santos nos deixou no sábado, 23 de maio, mas o legado é difícil de mensurar, tal a sua grandiosidade. No que se refere à Sedufsm, desde que convocado, o professor contribuía, seja em debates, como do projeto Cultura na Sedufsm, seja através de artigos para o ‘Reflexões Docentes’ ou no espaço de dica cultural.
Vitor Biasoli, professor de História aposentado e também escritor, destaca que a universidade perde um professor, orientador e pesquisador que ajudou muitos de nós a ler e pensar melhor a literatura brasileira. Biasoli fala com a autoridade de quem foi parceiro de Pedro na organização da obra completa do escritor Luiz Guilherme do Prado Veppo na UFSM.
Gil Negreiros, atual diretor do Centro de Artes e Letras (CAL) afirma que Pedro Brum Santos deixa um legado que traz como marca a “dedicação generosa à universidade, o compromisso com a formação humana e acadêmica de inúmeras gerações e pela sensibilidade com que compreendia as letras, a arte, a educação e a vida coletiva no CAL. Sua presença ética, acolhedora e intelectualmente inquieta permanecerá viva na memória institucional do Centro de Artes e Letras e no afeto de colegas, estudantes, técnicos e amigos”.
Eliana Sturza, professora do departamento de Letras Estrangeiras e Modernas da UFSM, assinala que a morte de Pedro Brum Santos é “uma grande perda para as Letras, para a Cultura e a Comunicação, na UFSM e na cidade de Santa Maria”. E sublinha: “Perdemos um colega que sempre zelou pela gentileza no trato com seus amigos e colegas, com uma escuta generosa e de conversas ponderadas e acolhedoras. Deixa um legado para as Letras da UFSM e para a literatura regional, por sua atuação na gestão e, sobretudo, na produção acadêmica, atuando de modo significativo na formação de alunos de graduação e pós-graduação.”

Referência coletiva
Para Mário Lúcio Bonotto Rodrigues (Máucio), durante muitos anos colega das Artes Visuais no Centro de Artes e Letras, Pedro Brum Santos sempre foi uma “referência coletiva como escritor e professor-pesquisador no âmbito de literatura”. Na ótica de Máucio, Pedro era muito gentil e com seu “largo conhecimento”, sempre atendia a convites para colaborar nas aulas de assuntos relacionados a sua área.
“Confesso que levei um certo tempo para perceber que o professor Pedro, era o mesmo narrador de futebol de grande qualidade que estávamos acostumados a acompanhar no rádio. Depois entendi que os traços de ponderação e lucidez, estavam presentes nos dois campos de sua atuação”, diz Máucio. Para o professor e cartunista, Pedro é “um exemplo marcante de homem das letras que teve um relacionamento generoso com os amigos e colegas.”
O pesquisador
Orlando Fonseca, colega de departamento e também parceiro de obras literárias feitas a muitas mãos com Pedro Brum Santos, cita que “além de manter uma amizade de muitos anos com Pedro, compartilhamos vários projetos acadêmicos e literários, desde meados da década de 1980. Fomos colegas de Mestrado na UFSM e de departamento de Letras Vernáculas. Dividimos lideranças nas coordenações e chefias, e trabalhamos em projetos de pesquisa”.
E o mais importante desses grupos, conforme Fonseca, era o Grupo de Estudos de Literatura e História, através do qual resgataram obras como a do primeiro escritor santa-mariense, João Cezimbra Jacques, autor de um conto que deu origem à narrativa de Imembuy; além disso, o livro de memórias de João Daudt Filho e publicações do poeta Felipe D’Oliveira.
“Compartilhamos a publicação de várias obras literárias, junto com o coletivo de autores ‘Turma do Café’, desde o início dos anos 2000; por exemplo: Tudo a Haver (crônicas), Dez Mandamentos e Arquimedes (romance), Nona assassina (contos), todas em uma experiência de produção coletiva dos textos”, frisa Orlando Fonseca, que ainda complementa: “Dividimos o trabalho de orientação, avaliação em diversas bancas de mestrado e doutorado”. Para ele, Pedro Brum Santos deixa um legado “muito importante na formação de docentes e pesquisadores na área de Letras em nossa UFSM”.
O ser político

Nos eventos sobre arte e literatura dos quais participava, Pedro Brum Santos jamais se omitia em ressaltar que a expressão artística não está separada da ideologia e do fazer político. Talvez levando em conta esse “ser político” que habita em todo o ser humano que o professor aceitou ser candidato a vice-reitor da UFSM, em 2017, na chapa do professor Dalvan Reinert, que havia sido vice-reitor na gestão Felipe Müller (2009-2013). Pedro Brum Santos estava quase ao final de sua segunda gestão na direção do CAL (2010-2018).
E dessa parceria fica o registro do próprio Dalvan Reinert:
“É difícil de encontrar palavras para a despedida de uma pessoa como o professor Pedro Brum Santos. Humilde, íntegro, verdadeiro, conciliador, além de ser referência intelectual e universitária.”
O homem de rádio
Uma das facetas de Pedro Brum Santos nem sempre tão conhecidas pelas gerações atuais é daquele profissional forjado no trabalho em rádio, principalmente como narrador esportivo.
O jornalista Gilson Piber, da equipe da Unifm (que é responsável pelo programa ‘Editoria 107.9’) comenta sobre as qualidades de Pedro Brum nessa modalidade, já que o professor era um colaborador todas as terças-feiras no ‘Quadro de Opinião’ dentro do programa comandado por Piber.
“Com pleno conhecimento e a precisão da fala radiofônica, abordava os mais variados assuntos com uma naturalidade incrível. A educação e a literatura eram temas prediletos. Porém, na sua que foi a última participação, no dia 19 de maio, abordou a Copa do Mundo e a solenidade de convocação da Seleção Brasileira no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. E, como sempre, instigou a reflexão”.
Conforme Piber, Pedro Brum Santos deixou um recado valioso naquele dia: “O desafio, não é de hoje, está claro, é garantir que o brilho dos cifrões não ofusque a magia que acontece dentro das quatro linhas”.

Pedro veio do rádio raiz, foi narrador de futebol e atuou em emissoras de Tupanciretã, Santo Ângelo, Faxinal do Soturno, Cachoeira do Sul, Osório e Restinga Seca. Em Santa Maria, trabalhou nas rádios Guarathan e Imembuí. Foi colaborador, por vários anos, nas rádios Universidade 800 AM e UniFM 107.9. “O rádio ajudou a moldar o homem, o leitor, o escritor e o professor da área de Letras”, define Piber.
O professor de História do Colégio Politécnico da UFSM, Leonardo Botega, assim como o próprio Gilson Piber, resgataram uma importante memória de Pedro Brum Santos no rádio. É uma narração dele em um jogo em que o Inter de Santa Maria enfrentou o Vasco da Gama, em 1982, e venceu por três a zero.
A visão de Pedro sobre a importância da educação para o país está bem registrada na seção ‘Reflexões Docentes’ do site da Sedufsm. Em 18 de junho de 2025, no artigo “Analfabetismo funcional: precisamos combater”, o professor apregoava:
“Precisamos de uma educação básica fortalecida, de melhor valorização e formação de professores, de currículo escolar com mais foco em interpretação de textos e pensamento crítico, de incentivos fiscais e apoio financeiro para quem deseja continuar estudando, de programas de alfabetização focados em população de baixa renda e regiões rurais.
As soluções são caras, difíceis e demoradas. De resto, exigem esforços conjuntos e contínuos. Mas tais esforços, de algum modo, precisam começar, fruto de vontade política, assertividade e sincronia. Com a certeza de que a educação de qualidade não apenas transforma vidas individuais, mas fortalece o coletivo e repercute na estrutura do país.”
E para além do professor, radialista, intelectual e escritor, o ser humano que sempre teve uma visão altiva, digna.
Em um contato via whatsapp, no último dia 8 de maio, perguntado sobre como estava, Pedro respondeu:
“Olá Fritz, na luta! Principal problema, dores lombares. Ontem fiz quimioterapia. Fase difícil. Adiante, com coragem e determinação!!”.
Texto: Fritz R. Nunes com fontes diversas
Fotos: Arquivo/Sedufsm
Assessoria de imprensa da Sedufsm
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