Julio Colvero: uma história na docência e na resistência à ditadura SVG: calendario Publicada em 19/06/26
SVG: atualizacao Atualizada em 19/06/26 12h54m
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Professor da UFSM e ex-diretor da Sedufsm faleceu nesta quinta, 18 de junho

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Professor Julião, durante entrevista, em abril de 2014

“Julião foi preso político e sofreu torturas em um dos períodos mais sombrios da história brasileira. Pagou um alto preço por sua fidelidade aos seus princípios, por sua coragem em defender a liberdade e por sua inabalável solidariedade aos companheiros de luta. Mesmo diante da perseguição e da violência, jamais renunciou aos valores que orientaram sua vida: a dignidade humana, a democracia e a construção de uma sociedade mais justa.”

A descrição acima refere-se ao professor aposentado do departamento de Administração da UFSM, ex-diretor da Sedufsm por duas gestões (de 2002 a 2006), Julio Cezar Colvero, que faleceu nesta quinta, 18 de junho, aos 91 anos, em Santa Maria. A lembrança e reverência é de Carlos Alberto da Fonseca Pires, ex-presidente da Sedufsm na gestão “Integração” (2004-2006), da qual Colvero fez parte como tesoureiro-geral.

Antes de ingressar na docência, Julião (como era mais conhecido na UFSM) na verdade era o Sargento Cezar. Ele fez a Escola de Sargento das Armas (ESA) em Três Corações (MG), em 1952, e servia 2º GCan (Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 milímetros, hoje 2º GAAAE), no bairro de Quitaúna, município de Osasco (SP), na época do golpe militar de 1964. A unidade militar é a mesma em que serviu o então Capitão Carlos Lamarca, que aderiu à luta armada contra a ditadura no final dos anos 1960.

A história de perseguição que sofreu pelo regime militar ditatorial foi relatada em entrevista publicada no site da Sedufsm em 17 de abril de 2014, período em que haviam se completados 50 anos do Golpe de 1964.

Julião contou que no desenrolar do ano de 1964, antes do final do ano, a partir da edição do Ato Institucional do governo Castelo Branco, os militares que haviam sido presos por suposta sublevação e que tinham menos de 10 anos na corporação foram expulsos. Já os que tinham mais de 10 anos, como é o caso do Sargento Cezar, foram reformados (mandados para a reserva).

No caso dele, foi aposentado com o correspondente a 14/30 avos da remuneração que recebia quando na ativa, o que se traduzia em um salário insuficiente para sustentar mulher e filhos.

Retorno a Santa Maria

Excluído do serviço ativo do Exército com um vencimento irrisório, Júlio Colvero procurou emprego em São Paulo, mas teve dificuldade. Acabou vendendo um imóvel que havia adquirido e retornou a Santa Maria com a poupança da venda. No ano de 1969, resolveu fazer vestibular para o curso de Administração, na UFSM. Concorrendo a uma vaga em 30 a serem disputadas, foi aprovado em 13º lugar.

A passagem pelo curso da UFSM não foi das mais fáceis. Um colega de aula, ao saber que Julio Colvero, na condição de sargento, havia sido preso pela acusação de “subversivo”, fez uma denúncia ao órgão de investigação ligado ao regime militar que havia dentro da universidade (ASI- Assessoria de Segurança e Informação). Naquele momento ele relata que teve apoios fundamentais para que o caso não fosse adiante e assim pudesse se manter estudando.

Professor Julião destacou em seu depoimento à Sedufsm que os colegas de curso que atuavam no Diretório Acadêmico- Antonio Carlos Freitas Vale de Lemos e Renato Dias - bem como os professores Danilo Landó e Marco Aurélio Xavier, se posicionaram ao lado dele. Do Diretório Acadêmico, Julião recebeu um documento em que era considerado assessor da entidade, o que teve um significado especial em sua ficha acadêmica. Em 1972 conseguiu concluir a faculdade.

Já formado, foi convidado a dar aula em uma Faculdade de Administração em Três de Maio, passou por um estágio remunerado na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o que acabou pesando favoravelmente em seu currículo profissional e, em 1973, participou de um concurso para professor Auxiliar na UFSM, tendo ficado em segundo lugar. Acabou nomeado como docente da instituição em março de 1974, tendo permanecido em atividade até 2002. Ao longo desse tempo fez um curso de especialização e de mestrado.

‘Experiência de vida’

Antonio Carlos Freitas Vale de Lemos, professor aposentado do departamento de Administração da UFSM, destaca que passou a conviver com Julio Colvero desde 1969, quando este retornou de “sua injusta prisão”.

Para Lemos, Julião fora um companheiro com “experiência de vida que nos proporcionou um relacionamento com grandeza, pois ainda sofria com a repressão política.” Cita ainda que “quando fui presidente do Diretório Acadêmico, convidei o querido Julião para fazer parte da diretoria, pois acreditava que assim poderíamos minimizar ações de repressão contra uma pessoa que nos brindava com liberdade e justiça”. E assim, diz ele, “fomos juntos no departamento de ciências administrativas até as nossas aposentadorias”.

‘Mão no ombro e sensatez’

Rondon de Castro, presidente da Sedufsm por duas gestões, entre os anos de 2010 e 2014, comenta que Julião vai deixar saudades.

“Meu contato era de aluno e um grande professor. Em momentos de turbulência, greves e assembleias polarizadas, era uma mão no ombro pedindo calma e sensatez. Participou da história do Brasil: perseguido e protagonista. Partiu deixando marcas positivas em nossas vidas”, sublinha Rondon.

Liberdade, direitos e justiça social

Para Carlos Pires, ao fazer uma homenagem ao professor Julião, “homenageamos também todos aqueles que dedicaram suas vidas à luta por liberdade, direitos e justiça social. Seu exemplo continua vivo em cada professor, em cada estudante, em cada trabalhador e em cada cidadão que acredita na força da organização coletiva e na construção de um futuro melhor.” E complementa: “Que sua memória permaneça como inspiração permanente para as entidades, para a categoria profissional que tanto ajudou a fortalecer e para todos aqueles que tiveram a honra de compartilhar sua caminhada.”

Texto: Fritz R. Nunes
Fotos: Arquivo/Sedufsm
Assessoria de imprensa da Sedufsm

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