Para Marquita Quevedo, o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ não nasceu em festa, nasceu em revolta
Publicada em
03/07/26
Atualizada em
03/07/26 17h28m
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Em entrevista ao Ponto de Pauta, ativista trans relaciona memória, representatividade, cultura e políticas públicas para refletir sobre os desafios e as conquistas da população LGBTQIAPN+
Junho é reconhecido internacionalmente como o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ por rememorar a Rebelião de Stonewall, ocorrida em 1969, em Nova York, quando frequentadores do bar Stonewall Inn reagiram à violência policial, marco que impulsionou a organização contemporânea do movimento pelos direitos da população LGBTQIAPN+. Mais de cinco décadas depois, a data permanece associada não apenas à celebração das identidades e da diversidade, mas também à memória das lutas que tornaram possíveis direitos e espaços conquistados ao longo desse percurso.
Para a travesti e militante Marquita Quevedo, esse significado permanece atual. "Junho não é só celebração", afirma. "Não nasceu em festa. Nasceu em revolta." A frase sintetiza o sentido político do mês: recordar quem enfrentou a violência e a exclusão, reivindicou direitos e abriu caminhos para que novas gerações ocupassem espaços historicamente negados.
Foi a partir dessa perspectiva que Marquita participou da edição de junho do Ponto de Pauta, programa da Sedufsm. Ao longo da conversa, Marquita articula memória, representatividade política, cultura, políticas públicas e redes de acolhimento para refletir sobre os avanços conquistados pela população LGBTQIAPN+ e os desafios que permanecem, especialmente em Santa Maria.
Orgulho como memória e continuidade da luta
Ao refletir sobre o significado do Mês do Orgulho, Marquita relaciona a data à própria trajetória e aos avanços conquistados pela população LGBTQIAPN+.
"Para mim, representa o orgulho da pessoa que eu me transformei [...] a gente conseguiu chegar em espaços que a gente nunca imaginou chegar."
Para a ativista, esse orgulho também se constrói a partir da memória de quem veio antes e das referências que, em diferentes momentos históricos, ampliaram as possibilidades de existência e representação da população LGBTQIAPN+. Se, na juventude, encontrava inspiração em Roberta Closet, hoje cita também a deputada federal Erika Hilton como símbolo da presença de pessoas trans em espaços de decisão política.
"Hoje a minha referência é a Erika Hilton. Olha que legal a gente ter uma mulher travesti, preta, periférica, que trabalhou na rua, debatendo um tema tão importante [fim da escala 6x1]. Isso mostra onde a gente conseguiu chegar."
Política é sobrevivência
Ao longo da entrevista, Marquita insiste que discutir política é discutir as condições concretas de vida.
"A política é a que nos diz o que a gente vai ter no prato. A política diz qual é essa água que eu estou tomando."
Marquita reforça que ampliar a representação da população LGBTQIAPN+, especialmente de pessoas trans, é condição para que direitos avancem e políticas públicas contemplem as necessidades da comunidade.
"Quando a gente fala em política pública, falamos de emprego, habitação, trabalho, saúde, lazer, educação. Todos esses espaços passam por ali [política]."
Ao defender uma maior presença da população LGBTQIAPN+ nos espaços institucionais, Marquita observa que, durante muito tempo, a comunidade foi levada a acreditar que a política não lhe dizia respeito e acostumou-se a ver outras pessoas falando em seu nome. Romper com essa lógica, afirma, é condição para disputar direitos e influenciar decisões que atravessam o cotidiano da população.
"Esse é o espaço que vai nos manter vivos."
A cultura transforma vidas
Embora frequentemente associadas apenas à festa, as Paradas do Orgulho representam, na avaliação de Marquita, manifestações políticas construídas ao longo de todo o ano. Para a militante, reduzir as paradas à dimensão festiva desconsidera o trabalho desenvolvido pelos coletivos e esvazia o significado de uma mobilização construída para afirmar existências historicamente invisibilizadas.
"A parada não é só aquela atividade naquele dia. É um ato político, é um ato de luta e é um ato também da gente celebrar nossas vidas."
Marquita lembra que seminários, exposições, encontros e atividades formativas antecedem e sucedem as paradas, mantendo viva a mobilização durante todo o ano. Ao comentar a existência de duas paradas em Santa Maria, ela avalia que ambas ampliam a visibilidade de uma população que ainda enfrenta processos de invisibilização.
"A cultura transforma as pessoas e transforma a vida. A cultura é saúde."
Outro aspecto destacado durante a entrevista é a atuação dos diversos coletivos locais, reunidos periodicamente no Fórum da Diversidade para discutir pautas relacionadas à saúde, cultura, direitos e políticas públicas.
A memória da Maré
Entre as lembranças compartilhadas durante a entrevista, Marquita resgata a história da Maré Vermelha, torcida organizada formada majoritariamente por pessoas LGBTQIAPN+ ligada ao Internacional de Santa Maria nas décadas de 1980 e início dos anos 1990. Mais do que uma torcida, ela descreve o grupo como um espaço de acolhimento para pessoas frequentemente expulsas de casa ou excluídas da convivência social em razão do preconceito.
"A Maré Vermelha surgiu na minha vida como um local de acolhimento."
Ao recuperar essa memória, Marquita também evidencia como, durante as décadas de 1980 e início dos anos 1990, os espaços de sociabilidade da população LGBTQIAPN+ eram extremamente restritos. A convivência se concentrava, sobretudo, na Maré Vermelha e no Carnaval, em um contexto marcado tanto pelo preconceito quanto pelos efeitos da epidemia de HIV/Aids, que aprofundou estigmas e violências contra a comunidade.
"A gente andava na rua, era apontada, era xingada. [...] Em bares, enquanto outras pessoas recebiam copo de vidro, para nós davam copo plástico."
Para Marquita, preservar essa história também significa reconhecer o papel da Maré Vermelha na transformação da cidade e do esporte.
"Tenho orgulho de fazer parte dessa torcida e saber que ela é uma das mais importantes no Brasil e na América Latina."
Violência contra a população LGBTQIAPN+ ainda marca a realidade brasileira
O Brasil registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ em 2025, segundo levantamento anual do Grupo Gay da Bahia. Os casos são motivados por LGBTfobia e, conforme o próprio relatório, ainda sofrem com a subnotificação.
Ao comentar esses números, Marquita afirma que eles expressam uma realidade atravessada pela violência e pela ausência de políticas públicas capazes de assegurar proteção e cidadania à população LGBTQIAPN+.
"É um país que não olha para os seus."
Ao falar sobre essa realidade, Marquita também recorda os assassinatos de pessoas trans ocorridos em Santa Maria nos últimos anos e afirma que a insegurança acompanha o cotidiano de quem pertence à comunidade.
"Eu não sei se vou voltar viva para casa, porque ali na esquina eu posso ser assassinada simplesmente pelo fato de eu existir e querer ser Marquita."
Na sua avaliação, enfrentar esse cenário exige políticas públicas permanentes, campanhas de prevenção, combate aos discursos de ódio e responsabilização dos agressores.
Visibilidade depende de oportunidades
Questionada sobre por que a visibilidade da população LGBTQIAPN+ ainda não é plena, Marquita aponta a ausência de oportunidades e de políticas públicas estruturadas.
"Enquanto a gente não tiver uma política pública, de fato, que nos assegure esse direito da empregabilidade e de estar nesses espaços, a gente não vai avançar."
A militante relaciona essa falta de oportunidades também à elevada evasão escolar entre pessoas trans e à ausência de ambientes educacionais verdadeiramente acolhedores desde a infância, fatores que repercutem diretamente nas possibilidades de inserção social e profissional.
Direitos conquistados, desafios permanentes
Apesar dos desafios, Marquita reconhece avanços na construção de redes de acolhimento em Santa Maria. Alguns exemplos citados são iniciativas como a Casa Verônica, na UFSM, os ambulatórios especializados e a atuação dos coletivos locais.
Ao falar especificamente da universidade, Marquita avalia que ainda há aspectos a serem aprimorados, como o respeito ao nome social, a infraestrutura e o fortalecimento de políticas institucionais de acolhimento.
"[...] Acho que essas coisas têm que ser dialogadas, construídas ainda dentro desse espaço que devia ser mais acolhedor para essa população que chega ali, principalmente de outra cidade. Acho que temos que ter esse diálogo, conversar. É um espaço importante."
Entre os avanços recentes, Marquita destaca o reconhecimento da identidade das pessoas trans, o direito ao nome social e as conquistas relacionadas ao direito de constituir família.
"A questão do próprio nome, da nossa identidade. Ter o nosso nome reconhecido enquanto Marquita [...] é muito gratificante."
Ao olhar para o futuro, ela reforça que a ampliação desses direitos depende da participação política e da organização coletiva.
"A gente tem que se apropriar desse espaço político, porque é ele que direciona e fala sobre a nossa vida."
Ao longo da entrevista, Marquita relaciona memória, representatividade, cultura e políticas públicas para mostrar que o Mês do Orgulho também é um momento de refletir sobre os desafios que permanecem para a população LGBTQIAPN+, desde o enfrentamento à violência até a ampliação do acesso a direitos e aos espaços de decisão.
A entrevista completa com Marquita Quevedo está disponível nos canais da Sedufsm no YouTube e no Spotify.
Texto: Nathália Costa
Ponto de Pauta: Jefferson Pinheiro (produção, gravação e edição) e Nathália Costa (apresentação)
Imagem: Italo de Paula
Assessoria de Imprensa Sedufsm
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