Um diário feminista e antifascista
Publicada em
17/07/26
Atualizada em
17/07/26 12h03m
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Professor Orlando Fonseca indica a leitura de “Caderno proibido”, da escritora italiana Alba de Céspedes
Nesta sexta, 17 de julho, a dica cultural é uma sugestão do escritor e professor aposentado da UFSM, Orlando Fonseca. Ele recomenda a leitura de “Caderno proibido”, livro da italiana Alba de Céspedes. Escrita em 1952, a obra é descrita como pioneira ao retratar a luta por independência das mulheres, além de marcar uma visão antifascista. Confira abaixo.
“Caderno proibido
A escritora italiana, Alba de Céspedes, ficou reconhecida por sua identificação com as pautas antifascistas, tendo fundado a revista “Mercurio”, ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Já era uma autora de sucesso, tendo iniciado sua carreira em 1935. No período pós-guerra, dedicou-se a escrever sobre cinema, teatro, rádio e televisão. É apontada como pioneira por retratar com profundidade a experiência feminina, e a luta por independência das mulheres, ao longo do processo de transformações sociais.
Não é de admirar que suas obras tenham sido publicadas no Brasil só recentemente. Da autora, que morreu em 1997, encontramos duas publicações editadas por aqui: Na voz dela, de 1949 e este Caderno proibido, escrito originalmente em 1952, mas lançado pela Companhia das Letras em 2022.
Fiquei surpreso com a leitura de Caderno proibido, pois retrata uma dona de casa, levando uma vida entediante de mulher da classe média, dividindo-se entre os papéis de mãe, esposa e funcionária de um escritório. Só que Valeria – este é o nome da protagonista – resolve escrever um diário, no qual pretende relatar tudo o que não pode falar diante do marido, com ideias conservadoras a respeito do mundo, ou dos filhos – um casal de jovens, ele reproduzindo o machismo herdado do pai, e a filha, uma jovem com ideias libertárias, que se coloca contra as ideias retrógradas.
Tudo isso ficamos sabendo através do diário, o tal caderno proibido, pois ela teme que os outros membros da família tomem contato. Além das mudanças que vão ocorrendo no caráter de Valéria e as peripécias familiares, aparece um fugaz relacionamento proibido com o chefe.
Mas o mais perturbador: as reflexões, inquietações e as dúvidas desta mulher, de meados do século passado, caberiam perfeitamente em um relato feito por uma dona de casa da classe média brasileira, que podemos conhecer agora, no cotidiano desta terceira década (que vai se encaminhando ao seu final), em pleno século XXI.”
Orlando Fonseca
Escritor e professor aposentado do departamento de Letras Vernáculas da UFSM.
Imagem: Arte de Italo de Paula
Edição: Fritz R. Nunes (Sedufsm)
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