UFSM participa de grupo que assessora órgãos públicos na prevenção a efeitos de eventos extremos no RS
Publicada em
24/07/26
Atualizada em
24/07/26 13h07m
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Comitê científico defende criação de agência pública para monitorar clima e águas no estado
Nas últimas semanas, o debate sobre o fenômeno climático El Niño tem se intensificado no Rio Grande do Sul, que viveu uma experiência trágica no final do outono de 2024, com chuvas e inundações consideradas inéditas em seus efeitos nocivos. O que aprendemos de lá para cá? Se olharmos do ponto de vista de uma aproximação entre autoridades e governos de quem faz ciência, houve avanços, conforme constata o professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Meteorologia da UFSM, Vagner Anabor, que integra o Grupo de Modelagem Atmosférica.
O docente e pesquisador faz parte de uma iniciativa inédita, que é a constituição de um Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática, composto por especialistas de diferentes áreas e instituições do RS, cujo papel é assessorar os órgãos públicos estaduais na prevenção aos efeitos de eventos extremos no clima. Anabor faz questão de ressaltar que o trabalho realizado gera informações que resultam das “melhores técnicas”, mas ele é consultivo, sendo as decisões tomadas pelo Poder Público.
Após os eventos de 2024, com um “duro trabalho de interlocução” com as autoridades estaduais, alguns progressos foram alcançados. Segundo o professor da UFSM, foi “plantada uma semente”. Além do Comitê Científico, Vagner Anabor (foto abaixo) destaca que o governo gaúcho investiu em novos radares meteorológicos, também contratou profissionais temporários da área de meteorologia.
Todavia, ao avaliar o que ainda pode ser melhorado, Anabor comenta que seria necessária a criação, seja pelo governo estadual ou pelas associações de municípios (em cooperação com universidades), de um serviço público de monitoramento do clima. E, nessa linha de raciocínio, explica ele, o ‘núcleo de clima’ do comitê científico sugeriu a criação da Agência Gaúcha de Clima e Águas (ARCA), que seria composta por meteorologistas, hidrologistas, entre outros/as profissionais concursados/as, que receberiam treinamento e seriam responsáveis pelo trabalho de monitorar a situação climática.
A estruturação de uma agência pública estatal, comenta o professor, seria importante porque não correria o risco de sofrer um processo de descontinuidade, o que costuma acontecer quando se depende de serviços privados/terceirizados. Ao se ter uma estrutura do Estado, isso permitiria ter profissionais permanentes, e que acumulariam experiência ao longo do tempo.

*Professor Vagner Anabor em evento no CAFF, em Porto Alegre, em 6 de maio
O retorno do El Niño
Apesar de ter ganhado maior visibilidade nos últimos anos, o El Niño não é um fenômeno recente, conforme pesquisadores/as. A partir da década de 1980, estudiosos/as da climatologia, área responsável pelo estudo dos fenômenos climáticos, passaram a investigar com mais profundidade os impactos do evento e as regiões do mundo onde ele ocorre com maior frequência, entre elas, o Rio Grande do Sul.
De forma breve, o meteorologista e professor da UFSM, Vagner Anabor, explicou durante evento ocorrido no dia 6 de maio, no Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), em Porto Alegre, que o El Niño é “um fenômeno marcado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico na região equatorial”.
Segundo o pesquisador, esse aquecimento provoca alterações na circulação atmosférica, modificando a distribuição de calor e umidade em diferentes regiões do planeta. Normalmente, ocorre a cada dois a sete anos e dura de nove a 12 meses.
No Brasil, os efeitos podem ser percebidos de formas distintas entre as regiões do país. Conforme Anabor, a região Sul tende a ficar mais suscetível a episódios de chuva intensa e temporais. Enquanto isso, áreas do Norte e Nordeste costumam registrar períodos mais secos durante a atuação do fenômeno. O professor também destaca que esses impactos podem variar de intensidade. Isso depende da força com que o El Niño se manifesta em cada período.
As enchentes de 2024 ocorreram em um período em que o El Niño já apresentava sinais de enfraquecimento. Por isso, segundo os especialistas, a tragédia não pode ser atribuída exclusivamente ao fenômeno climático, mas sim à combinação de diferentes fatores atmosféricos que contribuíram para a intensificação das chuvas no Rio Grande do Sul.
Em pesquisa desenvolvida em conjunto com pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Meteorologia da UFSM, Anabor explica que um dos fatores esteve ligado a eventos ocorridos do outro lado do oceano. “A ocorrência de grandes tempestades na costa da África produziu perturbações que se propagaram até a América do Sul e modificaram as condições de tempo na região”, afirma.
De acordo com o pesquisador, essas perturbações atmosféricas acabaram bloqueando o fluxo de ar, favorecendo a permanência das tempestades sobre o Estado por um período mais prolongado, o que aumentou o volume de chuva e agravou os impactos da catástrofe climática.
Vagner Anabor faz questão de ressaltar que é preciso distinguir o fenômeno de “tempo severo” e o fenômeno de “clima”. No caso de tempestades, chuva de granizo, por exemplo, se enquadram em tempo severo e ocorrem não apenas em períodos do El Niño. Acontecem durante o La Niña ou até mesmo durante os períodos chamados de neutros. Os eventos extremos de 2024, por exemplo, aconteceram na descendente do El Niño, já entrando na fase neutra.
Previsões

*Previsão indica um El Niño moderado, forte e muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027
Através de documento formulado pelos membros do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul entre abril e maio deste ano, já era apontada a possibilidade de um novo episódio de El Niño em 2026.
As previsões naquele momento, feitas pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), apontavam para uma alta probabilidade de formação de um novo episódio de El Niño entre julho e agosto de 2026. De acordo com os modelos climáticos analisados naquele período, a chance de ocorrência do fenômeno estava em torno de 80% e, em alguns cenários, podendo alcançar 90% ao longo do segundo semestre, com possibilidade de o evento se prolongar até o fim de 2026.
Em contato esta semana com a professora do curso de Meteorologia da UFSM, Simone Ferraz, que integra o Grupo de Clima, responsável por estudar as questões do El Niño, ela relata que tanto os boletins da NOAA como da Universidade de Columbia (EUA), que faz uma compilação de vários modelos de outros centros de pesquisa, mostram chances em torno de 80% de termos um El Niño “muito forte” na primavera. E por que na primavera? Porque, em geral, explica a docente, o fenômeno se desenvolve de abril a junho e atinge seu pico na estação primaveril.
Importante destacar que eventos extremos não são sinônimos de desastres naturais, mas fenômenos meteorológicos que podem desencadear situações de desastre, dependendo da intensidade e dos impactos causados sobre a população e o território.
Nesse contexto, a ocorrência do El Niño não significa, necessariamente, a previsão de uma catástrofe específica, mas indica uma maior probabilidade de episódios de chuva extrema no Sul do Brasil. A avaliação consta em Nota Técnica elaborada pelo Comitê Científico do RS.
Entre os impactos mais comuns associados ao fenômeno estão inundações, enxurradas, movimentos de massa, alagamentos urbanos, danos à infraestrutura e perdas agrícolas. Alguns institutos de meteorologia falam em um “super El Niño”, com uma potência ainda não registrada desde o período em que se começou a medir esse tipo de fenômeno.
A professora Simone Ferraz, no entanto, avalia que neste momento ainda não se pode afirmar que o fenômeno será algo “nunca visto antes”. Segundo ela, muitas vezes o que acontece é que se tem um El Niño muito intenso no Oceano Pacífico, mas esse impacto não atinge de forma proporcional algumas regiões do planeta, porque depende muito da região que está aquecendo no Pacífico.
A docente explica que às vezes aquece mais para a esquerda do Pacífico, às vezes um pouquinho mais para a direita desse oceano, e isso faz com que o impacto seja relativizado dependendo da região. Mas, de qualquer maneira, acrescenta ela, é de se esperar chuvas intensas no Rio Grande do Sul.
Simone destaca que as informações existentes mostram que as chuvas de El Niño não são temporais intensos, mas são aquelas chuvas que duram muitos dias. “E é isso que acaba gerando cheias (nos rios), porque vai aos poucos deixando o solo muito umedecido. Então, qualquer chuva em cima desse solo muito umedecido vai acabar gerando cheias, gerando deslizamentos”, explica ela.
Prevenção
A Nota Técnica elaborada pelo Comitê Científico de Resiliência Climática destaca a importância da preparação prévia dos órgãos públicos, da Defesa Civil e dos setores produtivos diante da possibilidade de consolidação do fenômeno climático El Niño.
Entre as medidas apontadas estão a revisão de planos de contingência e o fortalecimento da infraestrutura voltada à manutenção de serviços essenciais para a população, especialmente em cenários de eventos hidrometeorológicos extremos.
Além das ações operacionais, o relatório ressalta a necessidade de ampliar a comunicação com a população de forma clara e acessível. A proposta é que a sociedade tenha maior conhecimento sobre os planos de contingência, os riscos associados aos eventos extremos e os procedimentos recomendados em situações de emergência, contribuindo para a redução de danos e para o fortalecimento da capacidade de resposta coletiva.
Sobre a sugestão de criação de uma Agência Gaúcha de Clima e Águas, de caráter público e estatal, fizemos contato com a Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia (SICT) do governo estadual, mas não obtivemos retorno sobre o encaminhamento dessa questão. Se recebermos uma reposta, atualizaremos a matéria jornalística.
Para a professora Simone Ferraz, a preocupação dos órgãos estaduais, da defesa civil, entre outros, precisa ser um “projeto contínuo”, não apenas no período em que se tem a previsão do El Niño, pois os eventos de clima extremo têm acontecido em momentos distintos. Dessa forma, ela argumenta que a defesa civil precisa ser bem aparelhada, e que os governos precisam ter mais equipamentos de medição, como por exemplo, mais radares, mais estações meteorológicas, mais profissionais como meteorologistas, hidrólogos, e que estejam trabalhando continuamente para que se consiga prever com mais facilidade esses eventos.
*2024: enchente histórica no RS e...
Cultura meteorológica
No documento elaborado pelo Comitê Científico de Resiliência Climática, é citada a importância de ampliar a comunicação com a população. Portanto, é de se perguntar como as autoridades têm se saído em relação a essa temática, especialmente nas últimas semanas, com as previsões de efeitos intensos a partir do início do fenômeno El Niño.
Aline Dalmolin, jornalista, professora dos cursos de graduação e pós-graduação de Comunicação Social da UFSM, também responsável pelo projeto “Comunicação de Proximidade: memória, resiliência e adaptação social a riscos climáticos e catástrofes naturais na Quarta Colônia”, avalia que se tem um saldo positivo desse episódio recente. A pesquisadora acredita que vem sendo estabelecida uma “cultura meteorológica” e isso está tendo um impacto no comportamento das pessoas e na forma como as comunidades estão reagindo.
No entendimento de Aline, ainda que haja algum tipo de sensacionalismo, especialmente por parte de quem vive dos “likes” em rede social, e não da imprensa convencional, que tem seus protocolos e procura ouvir especialistas confiáveis, o crescente interesse por informações sobre esse “El Niño forte” tem ajudado as autoridades nesse processo de alertar e esclarecer.
Para a docente, os alertas feitos por institutos de meteorologia, como o Inmet, por órgãos públicos, como a defesa civil, são fundamentais. “Nem sempre o alerta vai se desdobrar em um fato catastrófico e muito da nossa ansiedade e antecipar o evento (extremo) também toma como parâmetro o episódio de 2024, o que não tem como ser diferente, mas vários especialistas dizem que a conjunção de fatores que ocorreu lá naquele momento é realmente muito difícil de se repetir”.
Aline acredita ainda que, dentro daquilo que os institutos governamentais e institutos oficiais previram, está de certa forma coerente, embora com impacto menor. E isso tudo, segundo ela, afirma a necessidade de que as populações estejam cada vez mais sintonizadas e preocupadas com essas previsões, e que também possam tomar parte das decisões do dia a dia, que podem ter um impacto de vida ou morte na vida dessas pessoas.

...seca nos rios da Amazônia
Texto: Fritz R. Nunes com informações do Portal da UFSM
Imagens: Banco de Imagens
Foto: Arquivo pessoal
Assessoria de imprensa da Sedufsm
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Documentos
- Nota Técnica do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática