O que aprendemos com as enchentes de 2024?
Publicada em
31/07/26
Atualizada em
31/07/26 11h34m
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UFSM desenvolve projetos importantes, mas docentes avaliam que preparação da sociedade a eventos extremos ainda é insuficiente
Há dois anos, as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul impulsionaram pesquisas em diferentes áreas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Enquanto o Estado lidava com as consequências da catástrofe, pesquisadores/as, extensionistas e estudantes voltavam seus esforços para compreender os impactos das chuvas extremas e produzir conhecimento capaz de orientar ações de recuperação, adaptação e prevenção.
A Agência de Notícias da UFSM produziu uma série de reportagens sobre os efeitos do El Niño, sendo que uma delas destaca alguns projetos importantes desenvolvidos na universidade. Dentre esses projetos, o estudo de áreas de risco, a restauração ambiental, a comunicação em situações de crise e o planejamento territorial, que publicaremos logo mais abaixo.
Além de destacar esses relevantes trabalhos, seria importante também responder de forma direta: o que aprendemos com as enchentes e demais efeitos do clima extremo de 2024? A assessoria de imprensa da Sedufsm ouviu três docentes a partir dessa interrogação: a vice-presidenta da Sedufsm e do departamento de Engenharia Rural, Liane Weber; o professor de História do Colégio Politécnico, Leonardo Botega; e a docente do departamento de Geociências, Andréa Nummer.
Do ponto de vista delas e dele, a síntese é de que houve sim, avanços, mas ainda há um caminho longo a percorrer, especialmente quando pensamos não apenas em tratar dos efeitos, mas fazer ajustes para que estejamos preparados e preparadas para quando esses fenômenos, cada vez mais presentes, acontecerem. Acompanhe os depoimentos ao final da reportagem.
Recuperação de áreas atingidas por enchentes
Com mais de 15 anos de atuação, especialmente no Corredor Ecológico da Quarta Colônia, uma das regiões mais afetadas pelas enchentes de 2024, o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recuperação de Áreas Degradadas (Neprade), da UFSM, direcionou seus esforços para compreender os impactos do desastre e produzir informações capazes de orientar a recuperação ambiental da região.
Atualmente, o núcleo desenvolve três projetos voltados ao monitoramento das áreas atingidas, à restauração ecológica e à avaliação da eficiência das estratégias testadas para o retorno dos serviços ecossistêmicos. Os estudos são realizados em parceria com instituições como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura, a empresa Taesa S.A., a Fapergs e a Fundação Araucária.
As pesquisas revelaram que as enchentes provocaram transformações profundas na paisagem da Quarta Colônia. “Nosso primeiro impacto foi observar a amplitude dos efeitos. A paisagem foi totalmente remodelada, o que nos mostrou que esse pode ser considerado um evento que atingiu proporção de evento de formação geológica”, afirma a coordenadora do Neprade, Ana Paula Moreira Rovedder. Os levantamentos identificaram remoção de solos, deposição de grandes volumes de sedimentos e alterações significativas em rios e encostas.
Os pesquisadores também identificaram impactos menos visíveis. Análises dos sedimentos deixados pela enxurrada apontaram perdas importantes de nutrientes do solo. “Constatamos uma quantidade muito alta de alguns macronutrientes em depósito de sedimentos arenosos, como o potássio. Esses nutrientes vêm das lavouras atingidas”, explica Ana Paula. Além disso, o monitoramento registrou o avanço de espécies invasoras em áreas degradadas, fator que pode dificultar a regeneração da vegetação nativa.
Apesar dos danos, os estudos apontam sinais de recuperação ambiental. Desde fevereiro de 2025, equipes acompanham áreas de matas ciliares e encostas em municípios da região e já observam o retorno gradual da vegetação arbórea. “Inicialmente nós tínhamos observado muito mais espécies rústicas, herbáceas, espécies que nós chamamos de ruderais. Agora já registramos regeneração de espécies arbóreas”, relata a pesquisadora.
Além de documentar os impactos do desastre, o trabalho busca contribuir para reduzir os efeitos de futuros eventos extremos. Os dados produzidos permitem identificar áreas com maior potencial de regeneração natural, definir técnicas de restauração mais adequadas para cada ambiente, reduzindo custos de recuperação, e fortalecer a resiliência climática da região. “Nós temos que criar resiliência climática através da adequação ambiental das propriedades rurais, o que significa atuarmos nas áreas produtivas e nas áreas de preservação permanente, entendendo que cada uma tem a sua função na paisagem”, destaca Ana Paula.
Atualmente, os projetos seguem em fase de monitoramento e análise dos dados coletados. Nos próximos anos, o Neprade pretende ampliar as ações de extensão junto às comunidades locais, implantar novas áreas de restauração produtiva com sistemas agroflorestais, recuperar matas ciliares degradadas e concluir o plano de recuperação para a Quarta Colônia.

A expectativa é que os resultados sirvam de referência para outras regiões do Rio Grande do Sul afetadas por eventos climáticos extremos. “O legado que esses trabalhos deixam é um legado de alerta, mas também de esperança, que nós temos como melhorar, nós não precisamos ficar de braços cruzados”, conclui a pesquisadora.
Projeto Reflora e a biodiversidade
Criado após os eventos climáticos extremos de 2024, o projeto Reflora busca recuperar áreas degradadas por meio do resgate genético de espécies arbóreas nativas. A iniciativa é uma união liderada pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul em parceria com a empresa de celulose CMPC e com o apoio institucional da Embrapii. O desenvolvimento científico e a aplicação prática da tecnologia de restauração ambiental ficam a cargo de grandes instituições de ensino, unindo a Universidade Federal de Viçosa (UFV) às universidades gaúchas UFSM, UFRGS, PUCRS e Unisc.
Segundo o coordenador do projeto Reflora na UFSM, Jorge Farias, a proposta surgiu da necessidade de preservar a biodiversidade ameaçada pelas enchentes, deslizamentos e processos erosivos. Diferentemente de outras ações de restauração, o Reflora prioriza a conservação do patrimônio genético das espécies nativas. “O projeto foca na técnica de resgatar os materiais genéticos e em trabalhar com a manutenção e restabelecimento da biodiversidade arbórea”, explica.
Durante as primeiras etapas do trabalho, os pesquisadores identificaram áreas com perda de vegetação e passaram a selecionar espécies em risco, além de indivíduos considerados resilientes. “A gente identifica as áreas, o risco de perder esse material genético e também identifica árvores que foram extremamente resilientes”, afirma Farias. A partir desses exemplares, são coletados galhos para a produção de mudas por multiplicação vegetativa, técnica desenvolvida pela UFV após o desastre de Brumadinho. O método permite preservar características genéticas importantes para a adaptação das espécies às condições ambientais da região.
Além de contribuir para a recomposição da vegetação nativa, o projeto pode ajudar a reduzir os impactos de futuros eventos extremos. Ao restaurar matas ciliares e recuperar espécies adaptadas ao território gaúcho, a iniciativa favorece os ecossistemas e processos naturais que aumentam a resiliência ambiental. Segundo Farias, a técnica também acelera o retorno da fauna nativa. “Ela vai atrair polinizadores e a biodiversidade. Então atrai os animais que se alimentam das flores, e aí depois vêm os frutos”, explica.
Atualmente, o Reflora está na fase de estruturação da infraestrutura e identificação dos materiais genéticos que serão resgatados. A equipe também realiza visitas de campo e prepara laboratórios e casas de vegetação para a produção das mudas.
Com duração prevista de três anos, o projeto pretende produzir pelo menos seis mil mudas de espécies nativas. A expectativa é que as primeiras sejam apresentadas ainda neste ano e que os materiais genéticos estejam disponíveis para plantio a partir do inverno de 2027. Para Farias, o principal legado da iniciativa será a valorização da biodiversidade regional.
Plano Municipal de Redução de Riscos
Embora tenha sido concluído após as enchentes de 2024, o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Santa Maria começou a ser desenvolvido em 2023 como um novo plano e com diferente metodologia e abordagem. Coordenado pela professora Andrea Valli Nummer, do departamento de Geociências da UFSM e pesquisadora do Laboratório de Geologia Ambiental (Lageolam), o trabalho teve como objetivo identificar áreas sujeitas a riscos geológicos e hidrológicos e propor medidas para reduzir os impactos desses eventos. O projeto contou com o apoio do Comitê Gestor de Redução de Risco de Desastres (CGRRD).
O estudo mapeou 16 vilas distribuídas em nove bairros de Santa Maria. Segundo Andrea, a seleção priorizou comunidades mais vulneráveis. “Começamos o mapeamento em 2024, escolhendo as áreas em Santa Maria que seriam as prioridades. Nessa seleção, precisava que houvesse comunidades envolvidas no risco para avaliar a vulnerabilidade”, explica.
Um dos diferenciais do projeto foi a participação dos moradores no processo de mapeamento. Por meio da cartografia colaborativa, a população ajudou a identificar áreas atingidas por inundações e deslizamentos. “Eles ajudaram a mostrar até onde ia a água, o que escorregou, o que eles pensavam que podia ser uma solução”, relata a pesquisadora.
Entre os principais resultados, o PMRR apontou que os maiores problemas de Santa Maria estão relacionados às inundações e aos processos erosivos nas margens dos arroios. Ao todo, foram identificadas 396 edificações em áreas de alto risco e 245 em áreas de risco muito alto. O Morro do Cechella foi classificado como a área de maior risco geológico do município.
Além de diagnosticar os problemas, o plano apresentou propostas de intervenções. “Junto com o mapeamento foram indicadas propostas de obras com um custo aproximado para mitigar o risco”, afirma Andrea.

O PMRR foi entregue ao Executivo Municipal em outubro de 2025 e as informações produzidas pelo estudo já vêm sendo utilizadas pelo poder público. Um dos desdobramentos do trabalho foi a utilização dos dados do plano na construção de uma proposta para captação de recursos por meio do PAC Drenagem, que destinou R$ 39 milhões para obras de redução de riscos no entorno do Arroio Cadena. Após as enchentes, a equipe também realizou um estudo complementar na Vila Santa Tereza, solicitado pela Prefeitura devido a novos processos de escorregamento registrados na região.
Com a conclusão do plano em Santa Maria, as e os pesquisadores iniciaram uma nova etapa de trabalho. Andrea coordena atualmente a elaboração do primeiro Plano Municipal de Redução de Riscos de Cachoeira do Sul, desenvolvido em parceria com o Governo Federal e com entrega prevista para 2027.
Comunicação de proximidade transforma memória em prevenção
O projeto “Comunicação de proximidade: memória, resiliência e adaptação social a riscos climáticos e catástrofes naturais na Quarta Colônia” surgiu durante as enchentes. A partir da participação de professores/as e estudantes da Universidade em ações de apoio às comunidades afetadas, eles/as passaram a discutir como a comunicação poderia contribuir para reduzir os impactos de futuros desastres. “Pensamos como a gente poderia atuar de uma forma mais direcionada, mais efetiva do que apenas distribuindo coisas, tendo uma ação mais focada naquilo que a comunicação poderia oferecer”, explica a coordenadora, professora Aline Roes Dalmolin.
Contemplado por um edital do Proext-PG, o projeto da Comunicação Social reuniu pesquisadores/as de cinco programas de pós-graduação da UFSM para investigar como moradores/as, rádios comunitárias, escolas, igrejas, associações e órgãos públicos se informam em situações de risco. Entre os principais resultados, o grupo identificou que o rádio segue sendo uma das principais fontes de informação dos habitantes da área. “A maioria da população de qualquer faixa etária segue ouvindo rádio todos os dias”, afirma Aline. Os levantamentos também apontaram o crescimento do uso de meios digitais e reforçaram a necessidade de integrar diferentes canais em estratégias de alerta e comunicação de risco.
A iniciativa contribui para a preparação das comunidades diante de novos eventos extremos ao fortalecer a circulação de informações, ampliar a educação sobre mudanças climáticas e preservar a memória coletiva dos desastres. Um dos principais produtos do projeto é a série documental Marcas da Chuva, lançada em 2026, que reúne relatos de moradores/as da Quarta Colônia sobre as enchentes. Para a coordenadora, registrar essas experiências é uma forma de evitar que elas se percam ao longo do tempo. “Uma das coisas mais importantes que nós temos que cuidar nesse momento é trabalhar para que esses registros sejam feitos agora, assim eles não caem no esquecimento”, destaca.

Atualmente, o projeto está na fase final. Além da publicação dos últimos episódios da série documental, a equipe elabora cartilhas educativas e documentos com orientações para escolas, associações comunitárias e gestores públicos sobre comunicação em situações de risco.
Entre os próximos passos está a finalização de um plano de comunicação para o município de Silveira Martins, desenvolvido em parceria com a prefeitura e que poderá servir de referência para outras cidades da região. Embora o ciclo atual se encerre neste ano, a expectativa é de continuidade por meio de novas pesquisas e parcerias.
Acesse o perfil oficial do projeto para assistir à série Marcas da Chuva: @comunicacaodeproximidade
Hub.doc: paradigma na recuperação de arquivos afetados por enchentes
O Hub Transdisciplinar de Pesquisa e Inovação em Arquivos (Hub.doc) nasceu a partir de uma tragédia que colocou em risco parte da história da UFSM. Em 30 de abril de 2024, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul inundaram o subsolo da Reitoria, onde estavam armazenadas cerca de 12 mil caixas de documentos permanentes da instituição. O acervo reunia registros administrativos, acadêmicos e funcionais produzidos ao longo de mais de seis décadas e considerados fundamentais para a preservação da memória universitária.
A resposta começou ainda durante a emergência. Coordenada pela arquivista Débora Flores, diretora do Departamento de Arquivo Geral (DAG), a Operação Recupera Acervo mobilizou servidores/as, estudantes, voluntários/as, militares e especialistas de diferentes áreas para retirar, estabilizar e recuperar os documentos atingidos pela água. “Era uma sensação total de impotência. A nossa missão é proteger a informação e a memória da instituição”, lembra Débora.
Ao longo dos meses seguintes, aproximadamente 300 pessoas participaram da operação, que precisou enfrentar desafios logísticos inéditos, como a falta de energia, dificuldades de transporte e escassez de insumos em meio ao cenário de calamidade vivido pelo Estado. Entre as soluções adotadas, o congelamento dos documentos tornou-se a principal estratégia para interromper a deterioração causada pela umidade e pela proliferação de fungos. No começo, a operação utilizou freezers disponíveis na Universidade. Hoje, o projeto conta com quatro contêineres refrigerados instalados no campus sede da UFSM. O volume de material armazenado transformou a iniciativa em uma das maiores experiências de congelamento de documentos já registradas.
Ao mesmo tempo, a equipe passou a registrar detalhadamente cada etapa do processo. Relatórios, experimentos, fotografias e registros audiovisuais produziram uma base inédita de dados sobre recuperação documental em situações de emergência. O conhecimento acumulado passou a subsidiar orientações do Arquivo Nacional e despertou o interesse de instituições brasileiras e estrangeiras que enfrentaram problemas semelhantes.
Com a conclusão da etapa emergencial, a estrutura criada para recuperar os documentos da UFSM começou a atender outras instituições. A partir de solicitações do Arquivo Nacional e de órgãos públicos afetados pelas enchentes em Porto Alegre, a Universidade ampliou sua atuação e passou a receber acervos de diferentes entidades para tratamento e recuperação.
Hoje, o Hub.doc se consolidou como a primeira estrutura brasileira dedicada ao resgate emergencial e à preservação de grandes volumes documentais. Coordenada pela UFSM, com participação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul e orientação técnica do Arquivo Nacional, a iniciativa reúne pesquisadores de diferentes áreas, projetos financiados por órgãos públicos e parcerias nacionais e internacionais.
Além de recuperar documentos atingidos por desastres, o grupo produz conhecimento sobre preservação digital, gestão documental e resposta a emergências, transformando a experiência das enchentes em pesquisa, inovação e cooperação para auxiliar instituições que enfrentam situações semelhantes.
Dois anos após as enchentes, o trabalho de recuperação documental segue em andamento. Mais de 36 mil caixas de documentos ainda passam pelos processos de tratamento e preservação realizados pelo Hub.doc. Em maio de 2026, a iniciativa alcançou um marco importante com o esvaziamento completo de um dos quatro contêineres utilizados para armazenar os documentos congelados, resultado que representa a recuperação de aproximadamente 25% do acervo sob sua responsabilidade.

Laboratórios monitoram contaminação ambiental
As enchentes também levantaram preocupações sobre possíveis impactos ambientais causados pela dispersão de resíduos, produtos químicos e outras substâncias transportadas pela água. Para investigar esses efeitos, pesquisadores/as do departamento de Química da UFSM aprovaram o projeto “Estabelecer um programa de monitoramento de contaminantes em água e solo nos ambientes afetados pelas enchentes que ocorreram no estado do Rio Grande do Sul”, financiado e desenvolvido em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
A iniciativa conta com a participação do Laboratório de Análises de Resíduos de Pesticidas (LARP) e do Laboratório de Análises Químicas Industriais e Ambientais (LAQIA). O projeto é coordenado pelo professor Osmar Damian Prestes e conta com a participação de oito pesquisadores/as e diversos alunos/as vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Química da UFSM. De acordo com o coordenador, surgiu uma necessidade de monitorar possíveis contaminações ambientais após a enchente. “Agora com a questão da enchente, o Ibama precisava de laboratórios aqui do Estado para realizar essas análises e fizeram contato conosco”, explica Osmar.
Desde 2024, amostras de água e solo coletadas em diferentes regiões atingidas são analisadas na UFSM. Os pesquisadores investigam a presença de contaminantes químicos, como herbicidas, inseticidas, fungicidas e outros compostos utilizados na agricultura, além de elementos inorgânicos potencialmente associados à contaminação ambiental.
Os resultados ainda não foram divulgados, pois seguem em fase de análise e interpretação pelo Ibama. Apesar disso, o projeto já contribui para a compreensão dos impactos ambientais do desastre ao produzir informações que poderão subsidiar futuras ações de monitoramento e gestão de riscos. “Uma das principais contribuições vai ser a geração de informação qualificada, a partir dos dados analíticos das regiões onde essas amostras estão sendo coletadas”, afirma Prestes.
O conhecimento gerado pela pesquisa poderá auxiliar órgãos ambientais a identificar áreas mais vulneráveis e planejar ações para reduzir os impactos de futuros eventos extremos. Os dados também servirão para monitorar a qualidade ambiental das regiões afetadas ao longo do tempo.
Atualmente, o projeto está na fase final de execução e os resultados devem ser divulgados no próximo semestre. Como próximo passo, os laboratórios e o Ibama discutem a renovação da parceria para novas pesquisas na área de toxicologia ambiental, ampliando o monitoramento dos impactos ambientais no RS e em outras regiões do país.

Estamos preparados?
Voltando ao questionamento inicial. Já estamos preparados e preparadas para os fenômenos de clima extremo e suas causas e efeitos?
“Ainda não estamos preparados. Temos um caminho longo a percorrer”, expressa a professora Andrea Valli Nummer, do departamento de Geociências da UFSM e coordenadora do projeto sobre Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR).
Segundo ela, o que tem visto, no que tange às áreas de risco, é que novas áreas já começaram a ser ocupadas (em Santa Maria) e novas casas surgem em áreas ameaçadas de inundação. “Pessoas novas chegando, sem identidade com o território, sem a percepção do risco. Algumas realocadas e outras novas que chegaram. Então, isso é uma coisa que precisamos trabalhar melhor nas comunidades”, diz a pesquisadora.
No que se refere ao papel do poder público, Andrea avalia que a preparação, após o desastre de 2024, melhorou. “Santa Maria é um exemplo, a defesa civil está bem mais preparada. Mas isso são poucas cidades que conseguem fazer. A gente tem que ter uma preparação anterior. Tem que ter um estudo e tem que preparar melhor o período que antecede a esses eventos”, comenta ela.
Ao pensar na ocorrência de desastres, a professora entende que o tema precisa ser tratado de forma multidisciplinar. “A gente precisaria de muito mais engajamento da saúde, da educação, do meio ambiente, de outras áreas, que são os comitês gestores de riscos. Essa atuação tem que ser mais forte na preparação, antes dos desastres. Por isso, digo que é um caminho muito longo. Essas áreas de risco se expandem em uma velocidade muito grande, a cidade é muito dinâmica. E o poder público e a forma como as coisas são feitas, de maneira burocrática, demoram, não são na mesma velocidade”.
No entendimento de Andrea Nummer, é preciso que se tenha um “projeto de governo”, um “projeto de Estado”, e não um projeto desse ou daquele partido, nem desse ou daquele prefeito. Mas, segundo ela, nesse aspecto “ainda estamos bastante defasados”.
Leonardo Botega é professor de História do Colégio Politécnico da UFSM, Junto com a professora Kelly Werner, também do Politécnico, ele coordena o projeto História Oral dos Atingidos pela Catástrofe Socioclimática. Segundo ele, o que se pode perceber, em Santa Maria, é que as áreas atingidas pelas enchentes foram as mesmas mapeadas desde 2005 e que sofreram pouca intervenção visando à prevenção de desastres.
Ele ressalta que, com exceção da UFSM, que tem feito algumas obras preventivas como a intervenção no riacho da entrada do campus, outras instituições e regiões vivem o mesmo drama a cada nova chuva. “Quando entrevistamos a equipe diretiva da Escola Municipal (EMEF) Sérgio Lopes, no bairro Renascença, havia chovido de forma intensa nos dias anteriores e os riscos de alagamentos na escola e na região eram os mesmos. Os traumas também”.
Na avaliação de Botega, a percepção é de que o esquecimento das regiões mais atingidas continua e que essas localidades só são lembradas em período eleitoral e quando tragédias acontecem. “Isso é o que as memórias estão apontando. As pessoas conhecem os problemas que vivenciam no cotidiano, mas a não solução dos problemas faz com que se sintam condenadas a vivenciar a próxima chuva”, sublinha ele.
Alerta batendo na porta
Liane Weber, vice-presidenta da Sedufsm, ressalta que um dos papéis que o sindicato precisa cumprir é de ter a responsabilidade de insistir no debate de “alerta permanente” com relação aos eventos climáticos extremos que têm assolado e continuarão assolando o planeta. “É inadmissível continuar aceitando que o negacionismo climático nos impeça de tomar atitudes que mitiguem essas consequências, que serão cada vez mais frequentes”, frisa ela.
Na visão da docente, há a urgência de mudança no modo de viver e do compromisso coletivo de cada pessoa de se entender como parte do planeta. “É um exercício pedagógico de mudança de atitude do individual para o coletivo. É estranho falar isso já que somos seres que só conseguimos evoluir em sociedade. Nós nos constituímos como seres humanos assim, mas parece que, esquecemos com o passar do tempo. Essa não é uma fala tranquila, mas sim um alerta batendo na porta da nossa casa”, diz Liane.
Fonte: UFSM com edição de Fritz R. Nunes
Fotos: Arquivos pessoais
Assessoria de imprensa da Sedufsm
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