Muitos Davis e um só Golias: semana de solidariedade a Cuba recebe embaixador na Sedufsm
Publicada em
12/08/26
Atualizada em
12/08/26 18h54m
102 Visualizações
Victor Palomo destaca resistência da ilha diante do bloqueio de seis décadas, além de reforçar a importância da “união na diversidade” entre toda a América Latina e Caribe
A resistência do povo cubano diante de décadas de bloqueio e a defesa da soberania latino-americana, além da urgente necessidade de construir caminhos próprios de desenvolvimento, foram a tônica da fala do embaixador de Cuba no Brasil, Victor Manuel Cairo Palomo, durante a mesa de debate realizada na noite desta terça-feira (11), no Auditório Suze Scalcon, na sede da Sedufsm. Ao abordar a atual situação da ilha e os desafios impostos pelo agravamento da pressão dos Estados Unidos, Palomo também destacou a permanência dos compromissos sociais da Revolução Cubana e a atualidade do pensamento de Fidel Castro, cujo centenário de nascimento marca as atividades de solidariedade promovidas nesta semana.
A América Latina e o Brasil, nas palavras de Palomo, têm o direito de encontrar seu próprio modo de desenvolvimento. É importante negar o modelo neoliberal, que é vendido a todos como a solução e como modelo ideal de vida. “O sistema acaba por nos fragmentar, mas é nos momentos mais difíceis que a solidariedade e o humanismo podem prosperar”, argumenta o embaixador cubano. “O ser humano não é mau por natureza e nem sempre é o mais forte quem ganha. Cuba nos prova isso. É a luta de Davi contra Golias”, declara.
Cuba: a verdade e as razões diante do bloqueio
Com o tema “100 anos de Fidel: a contribuição da Revolução Cubana para a América Latina”, a atividade reuniu, além do embaixador, André Martins, 2º vice-presidente da Regional RS do ANDES-SN; o professor cubano Lázaro Camilo Recompenza Joseph, docente do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM; e Emanuelle Somavilla, estudante de Direito da UFSM e integrante do coletivo estudantil É Preciso Dar um Jeito. Representando a Sedufsm, o diretor Cleder Fontana fez a saudação de abertura e também lembrou o Dia do Estudante, celebrado neste mesmo 11 de agosto. A mesa foi construída pela Regional RS do ANDES-SN, em articulação com a Associação Cultural José Martí e em parceria com a Sedufsm e a Seção Sindical do Sindicato Nacional na UFRGS, como parte da semana de solidariedade a Cuba e da programação que marca os 100 anos de Fidel. Na quarta-feira (12), a programação teve continuidade em Porto Alegre, com o debate “Como apoiar Cuba em tempos de genocídio imperialista”, na sede da Regional RS do ANDES-SN.
Ao abordar o momento atual de Cuba, Victor Palomo destacou que o principal desafio continua sendo o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos, cujo impacto, segundo o embaixador, escancara uma prática genocida contra a população cubana. Os apagões, cada vez mais frequentes, são uma das expressões mais visíveis desse cenário, visto que a ilha está impossibilitada de comercializar petróleo e se abastecer energeticamente.
O debate ocorreu em um contexto de forte deterioração econômica. Segundo os dados apresentados por reportagem produzida pelo Brasil de Fato, Cuba acumulou uma queda próxima de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2020 e 2025, enquanto a projeção para 2026 aponta para uma nova contração, estimada em 6,5%. A crise se soma a uma nova escalada de hostilidades por parte dos Estados Unidos, que inclui medidas para dificultar o acesso cubano ao petróleo e ameaça atingir também países e empresas que mantêm relações comerciais com a ilha.
Para Palomo, entretanto, reconhecer os problemas de Cuba não significa desconsiderar suas causas. “Não faltamos com a verdade, mas temos que sempre explicar as razões”, afirmou, ao defender a importância da memória histórica e da análise crítica sobre os efeitos do bloqueio. Para o embaixador, é preciso encarar as dificuldades da ilha sem apagar o contexto de décadas de cerco e pressão internacional.
Nesse cenário, o diplomata também reforçou que o compromisso social da Revolução não será abandonado. Mesmo diante dos problemas que atravessam o país, afirmou que as transformações em curso precisam ser compreendidas como parte de um processo de adaptação às circunstâncias contemporâneas, sem romper com os princípios considerados fundamentais pela sociedade cubana.
Do imperialismo, nem um tantito
Entre os temas centrais da mesa esteve o agravamento do bloqueio a Cuba e sua relação com os interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Leonardo Preto Echevarria, da Associação Cultural José Martí, lançou uma provocação sobre o sentido concreto da solidariedade: “Qual é, de fato, a solidariedade que se pode oferecer, na prática? O comprometimento revolucionário é o desafio”.
Leonardo também lembrou que o Brasil se aproxima de uma nova “guerra”, em referência às eleições de outubro, e defendeu que esse cenário precisa ser debatido. A Associação Cultural José Martí, em conjunto com sindicatos e organizações parceiras, organiza brigadas para Cuba, levando alimentos e medicamentos, além de promover doações para a instalação de placas solares que possam ser convertidas em energia para a ilha, hoje submetida aos efeitos do bloqueio, que também dificulta a comercialização de petróleo com outros países.
Para André Martins, da Regional RS do ANDES-SN, a solidariedade a Cuba precisa estar articulada à defesa da soberania dos povos e ao enfrentamento da extrema direita. “Não estamos falando somente de seis décadas de bloqueio, mas de um bloqueio que vem se agravando em um genocídio do povo cubano”, afirmou. Para André, cabe ao povo cubano decidir os caminhos de sua própria soberania, direito que não está sendo respeitado.
A intervenção da estudante Emanuelle Somavilla aproximou o debate da realidade brasileira. A estudante de Direito relacionou o intervencionismo estadunidense ao avanço de posições conservadoras no país e lembrou dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora, como a informalidade, os baixos salários, a morosidade na discussão sobre o fim da escala 6x1 e o endividamento provocado pelas bets. Ao retomar uma expressão utilizada pelo embaixador — “estamos vivendo uma eterna luta de classes” —, Emanuelle destacou que a solidariedade a Cuba também está relacionada à defesa de direitos e da soberania no Brasil.
Professor cubano e docente da UFSM, Lázaro Camilo também apontou o bloqueio como o principal obstáculo ao desenvolvimento da ilha. Segundo o docente, Cuba encontra restrições para ampliar suas possibilidades econômicas em razão das medidas impostas pelos Estados Unidos. Ainda assim, reforçou a capacidade de resistência e resiliência do povo cubano: “Quando fecham uma porta, nós abrimos outra”.
Lázaro também criticou a política conduzida pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e avaliou que a pressão contra Cuba integra uma estratégia mais ampla de intervenção sobre países que não se submetem aos interesses imperialistas. Nesse sentido, aproximou a experiência cubana de outros processos internacionais que enfrentam tentativas de imposição de um único modelo político e econômico: o neoliberalismo.
O professor salientou ainda que o Partido Comunista é a alma da Revolução Cubana e que o governo dos Estados Unidos sempre buscou alterar o sistema político da ilha, fragmentando-o e intervindo em suas decisões. Assim como o embaixador, Lázaro afirmou que os Estados Unidos já fracassaram diante da China e de outros modelos que não se submetem à sua lógica de intervencionismo. “E se o vai pra Cuba virasse vai pra China? Quando a China vai bem, é capitalista; quando vai mal, é comunista”, provocou, expondo a política de conveniência utilizada para defender regimes neoliberais pelo mundo.
Palomo reforçou que, em sua avaliação, os Estados Unidos já perderam a guerra econômica para a China, que estaria bastante avançada em mais de 40 setores. Essa derrota, segundo o embaixador, faz com que Donald Trump e suas medidas busquem descontar nas terras raras brasileiras, com intervencionismo no Panamá e também na soberania cubana.
Essa disputa, portanto, não é apenas econômica. Ao falar sobre o avanço do fascismo na América Latina e em outras partes do mundo, o embaixador afirmou que, no continente, uma de suas expressões é o “entreguismo”. O fenômeno, segundo Palomo, alcança a cultura, o modelo e a estrutura das big techs, a tecnologia, a ciência e a produção de conhecimento. Por isso, defendeu que universidades e estudantes assumam um papel ativo no enfrentamento do entreguismo, do imperialismo e do colonialismo contemporâneos.
“Se o socialismo de Cuba não deu certo, por que a insistência no bloqueio?”, questionou o embaixador. “A direita diz que o socialismo é repartir pobreza. Mas Cuba é mais Cuba hoje do que era antes da Revolução, quando era apenas o quintal dos Estados Unidos”, argumentou.
Ao final de sua fala, também o professor Lázaro relembrou uma frase de outra figura histórica fundamental para a Revolução Cubana e para o socialismo latino-americano, Che Guevara: “Do imperialismo, nem um tantito. Nada”.
176 medidas e a Revolução hoje
Em meio à crise econômica e ao endurecimento dos bloqueios contra Cuba, a Assembleia Nacional do Poder Popular (ANPP) aprovou, em 18 de junho deste ano, um amplo pacote de reformas administrativas, econômicas e sociais. O conjunto de 176 medidas inclui a Lei de Organização da Administração Central do Estado e mudanças na estrutura dos órgãos administrativos, além de iniciativas voltadas à descentralização das empresas estatais, à redução da estrutura ministerial e à administração dos municípios.
As mudanças foram apresentadas no debate como uma resposta às circunstâncias enfrentadas pelo país. Para Lázaro Camilo, as novas medidas representam “uma adaptação do processo revolucionário ao atual contexto imperialista”. Victor Palomo, por sua vez, definiu as decisões como “atos soberanos para que Cuba se defenda de um entorno agressivo”.
Ao abordar o pacote, o embaixador ressaltou que transformar políticas e formas de organização não significa abandonar princípios. Para Victor Palomo, o pensamento precisa mudar e dialogar com o tempo presente, mas a memória da Revolução deve permanecer como referência para impedir que valores fundamentais sejam esquecidos.
Foi justamente nesse ponto que a lembrança de Fidel Castro ganhou centralidade. Segundo Palomo, três pilares ajudam a compreender o pensamento do líder cubano: verdade, humanismo e latinoamericanidade. A verdade, explicou, exige reconhecer os problemas e apresentar suas causas; o humanismo coloca as pessoas no centro das decisões políticas; e a latinoamericanidade reafirma a compreensão de que os países do continente compartilham histórias, desafios e interesses mesmo diante das pressões externas.
Ao tratar do humanismo, o embaixador retomou a conhecida fala de Fidel de que Cuba leva médicos onde os Estados Unidos levam bombas. A comparação sintetiza, segundo Palomo, uma concepção de mundo na qual a solidariedade, a saúde e o conhecimento devem estar a serviço da vida, não da guerra. A experiência da medicina cubana e sua presença em diferentes países, inclusive no Brasil, foi apresentada como uma das expressões concretas desse princípio. Aqui no Brasil, o programa Mais Médicos é um exemplo de como a política para a saúde cubana conseguiu adentrar lugares antes totalmente negligenciados pela saúde brasileira. Pessoas, comunidades, aldeias, lugares distantes dos centros ou fatigados por mazelas puderam contar com a presença de médicos, especialistas e trabalhadores da saúde parceiros da cooperação Cuba e Brasil.
¿Quién dijo que todo está perdido?
A defesa da memória histórica atravessou a fala do embaixador até o final do debate. Para Palomo, preservar a memória não significa ignorar dificuldades ou deixar de reconhecer contradições, mas compreender de onde elas vêm e quais interesses estão em disputa. “O imperialismo nos isola e nos distancia da nossa história”, afirmou. Assim, quando o povo não tem memória, ele tampouco consegue se organizar para enfrentar batalhas que estão presentes há muito tempo.
A mesma perspectiva aparece quando o embaixador tratou da relação entre soberania e desenvolvimento. “Agressão a Cuba é agressão a todos os países da América Latina”, declarou. Assim, defender Cuba é também defender o Brasil. Para Palomo, os povos latino-americanos têm o direito de encontrar seus próprios caminhos e de rejeitar modelos neoliberais apresentados como única alternativa possível. “Estão nos dividindo para enfraquecer a luta contra o imperialismo”, acrescentou, defendendo a construção de uma “unidade na diversidade” entre os países da região.
Ao falar sobre o futuro, o embaixador também destacou o papel da educação, da ciência e das universidades. Defendeu que o conhecimento não pode ser reservado a quem pode pagar por ele e ressaltou a experiência cubana de cooperação acadêmica e formação gratuita. Na manhã desta quarta-feira (12), como parte da agenda da visita a Santa Maria, Palomo esteve na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e reuniu-se com o vice-reitor, Tiago Bandeira Marchesan, em conversa sobre possibilidades de cooperação entre Cuba e Brasil a partir da universidade. A defesa de uma universidade comprometida com seu povo encontrou eco nas falas da própria mesa. Para Victor, ciência, cultura e educação também são territórios de disputa e, por isso, precisam estar vinculados à soberania e à transformação social.
Durante toda a atividade, a atmosfera de solidariedade ganhou uma dimensão ainda mais ampla. A lembrança da canção “Yo vengo a ofrecer mi corazón”, de Fito Páez, interpretada em conjunto com o músico cubano Pablo Milanés, perpassou o encontro como símbolo de resistência e esperança. Palomo citou o verso:
¿Quién dijo que todo está perdido? Yo vengo a ofrecer mi corazón
A canção, interpretada por um artista argentino e outro cubano, nos acalma sobre as possibilidades de não perder a esperança e a solidariedade, além do humanismo, marcas de toda revolução e mudança. Ao não considerarmos o desalento como prática e o afeto como resposta, lembramos também que Che Guevara indicava que todo revolucionário era, antes de tudo, guiado por um profundo sentimento de amor pela humanidade.
Y uniré las puntas de un mismo lazo
Y me iré tranquilo, me iré despacio
Y te daré todo y me darás algo
Algo que me alivie un poco más
Neste cenário marcado por bloqueios e ataques, o debate reafirmou uma ideia compartilhada pelos participantes, a de que a solidariedade internacionalista não é apenas um gesto de apoio a Cuba, mas também uma defesa do direito de todos os povos latino-americanos de construir seu próprio futuro.
Y hablo de países y de esperanzas
Hablo por la vida, hablo por la nada
Hablo de cambiar esta, nuestra casa
De cambiarla, por cambiar nomás.
E, somente assim, será possível que os Davis da história possam seguir seu caminho sem precisar mais se preocupar com um único e egoísta Golias.
Texto: Nathália Costa
Fotos: Nathália Costa
Assessoria de Imprensa Sedufsm
Galeria de fotos na notícia