Eliane Marques provoca reflexão sobre humanidade, racismo e branquitude durante a Feira do Livro
Publicada em
20/08/26
Atualizada em
20/08/26 12h12m
69 Visualizações
Bate-papo com a autora de ‘Louças de Família’ foi promovido pela Sedufsm na última terça, 18
Para ser humano, há de ser branco. Ou, nas palavras de Eliane Marques: o lugar da branquitude é considerado o lugar da humanidade. A poeta e escritora gaúcha, que esteve em Santa Maria na noite da última terça-feira, 18 de agosto, trouxe uma necessária provocação sobre o binarismo racista que simula revolta quando atos de discriminação acontecem, como se fossem ações isoladas de desumanização, mas não percebe que a própria concepção de humanidade está, desde sua origem, contaminada, carregando ideias violentas e segregacionistas.
Nesse sentido, alguém que age com violência contra outra pessoa não se despiu momentaneamente de sua humanidade para proferir ou praticar as agressões, mas está justamente atuando em conformidade com o que a ideia eurocêntrica e branca de humanidade pressupõe. Ao mesmo tempo, minorias sociais agredidas não estão sendo desumanizadas porque não perderam uma condição que antes era sua. Para Eliane, elas nunca a tiveram.
“Pensamos a humanidade como algo dado, da qual todos fazem parte. Violências contra algumas pessoas são nomeadas de desumanidade, já que a garantia da não violência está atrelada à condição de humanidade. Assumo, hoje, uma posição afro-pessimista, pois penso que esse conceito de ‘humano’’ só serve à opressão”, disse a escritora, explicando que o ‘humano’ só existe se contraposto ao ‘não humano’. Então, a alguém, necessariamente, já é reservado o lugar de desumanidade. “Temos que ver para além desse conceito”, sugeriu.
Eliane levou muitas pessoas ao Theatro Treze de Maio, em um potente debate promovido pela Sedufsm em parceria com a 53ª Feira do Livro de Santa Maria. Logo no início do bate-papo, a escritora e a professora Belkis Bandeira, dirigente da seção sindical responsável pela mediação da atividade, dividiram a leitura do poema “Um ano entre os humanos”, do poeta mineiro Ricardo Aleixo. A obra foi o ponto de partida para Eliane problematizar a ideia de que é necessário incluir os sujeitos oprimidos na categoria que hoje entendemos por humanidade. A proposta, defendeu, é o estabelecimento de um novo conceito de humanidade.
Natural de Santana do Livramento, Eliane teve uma breve passagem por Santa Maria, onde residiu por dois anos antes de assumir um cargo público na capital gaúcha. À época, no final dos anos 90, a literatura era algo com que ela não poderia trabalhar, visto que não garantiria seu sustento. Foi só mais tarde, com seu primeiro livro de poemas, o ‘Relicário’ (2009), e seu romance de estreia, o ‘Louças de Família’, publicado em 2023 pela Editora Autêntica Contemporânea, que Eliane foi alçada e se consolidou como uma premiada autora do atual cenário literário brasileiro. Com ‘Louças de Família’, por exemplo, conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor Romance de Estreia e o Troféu Alcides Maya.
Embora o elemento racial seja fundante em toda sua obra, Eliane relatou que um dos maiores desafios enfrentados tanto por ela quanto por outras autoras negras brasileiras é serem consideradas escritoras e não pessoas que escrevem relatos e desabafos sobre as discriminações raciais sofridas. E, para isso, tem de haver uma abertura também do mercado editorial brasileiro. Três anos se passaram até que ela conseguisse uma grande editora para publicar o ‘Louças’.
Atualmente, Eliane trabalha em seu novo romance, o ‘Guanxuma’, no qual aprofunda um pouco mais as discussões sobre o conceito de humanidade. Contudo, um livro que parecia praticamente finalizado precisou dar um passo atrás depois que a autora experimentou uma vivência em Gana, na África Ocidental, em fevereiro deste ano, que mudou sua percepção de si mesma e da forma como se posiciona no mundo. Na ocasião, ela lá estava para gravar cenas de um documentário do qual é roteirista e, nas interações, acabou recebendo o nome de AMA. Ela explicou que um dos primeiros saques da branquitude, desde o período escravagista, foi o apagamento dos nomes e sobrenomes de origem africana. Então, ao receber esse novo nome, em Gana, viu sua vida transformada em todos os sentidos, e ainda está elaborando a forma como isso refletirá em sua obra. “O nome AMA me deu um pertencimento. Foi um marco e divisor de águas na minha vida”, comentou.
Dica à classe política

(da esq.): Belkis Bandeira, diretora da Sedufsm, e Eliane Marques
Quando questionada sobre que livros consideraria fundamentais de serem lidos por candidatos e candidatas a cargos políticos neste ano eleitoral, Eliane Marques não teve dúvidas: Úrsula, de Maria Firmina dos Reis; Ponciá Vivêncio, de Conceição Evaristo; e Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves.
Participações
Após a fala inicial de Eliane Marques, o microfone foi aberto ao público que prestigiava o evento. Duas intervenções marcaram a abertura da rodada de perguntas: a primeira, de Angela Souza, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da UFSM, a respeito da importância da literatura e da poesia como ferramentas de autoafirmação racial; e a segunda, de uma representante do grupo de leitura ‘Ler Mulheres’, do Instituto Federal Farroupilha- IFFar, campus São Vicente do Sul, que questionou o motivo de Eliane escrever, em ‘Louças de Família’, todos os nomes próprios em letra minúscula, com exceção das personagens femininas centrais. A autora confirmou que a intenção era, realmente, fazer uma inversão gráfica e simbólica para provocar a reflexão sobre a situação de invisibilidade vivenciada pelas mulheres negras, hoje o segmento mais explorado da sociedade. “É como se os nomes delas sempre fossem escritos no minúsculo, e no meu livro eu quis fazer essa inversão”, explicou. O ‘Leia Mulheres’ trouxe uma turma de estudantes para prestigiarem o evento com Eliane, já que o ‘Louças de Família’ foi uma das leituras do grupo.
Após o debate, Eliane concedeu autógrafos e fez fotos com o público. Na próxima terça-feira, 25 de agosto, publicaremos, em nosso canal de Youtube e redes sociais, uma edição do programa ‘Ponto de Pauta’ com a escritora, no qual ela aprofunda mais sobre o papel da literatura para o resgate da ancestralidade negra.

Sedufsm na Feira
O encontro com Eliane Marques marcou a segunda participação da Sedufsm na programação da Feira do Livro de Santa Maria. Em 2025, a seção sindical docente promoveu, também no Theatro Treze de Maio, bate-papo com o sociólogo Jessé Souza.
Texto: Bruna Homrich
Fotos: Italo de Paula
Assessoria de Imprensa da Sedufsm
Galeria de fotos na notícia