Docentes discutem projetos políticos em disputa nas eleições de outubro
Publicada em
24/09/26
Atualizada em
24/09/26 14h40m
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Plenária em defesa da Soberania e da Democracia ocorreu na noite da terça, 22, na Sedufsm
As pesquisas de intenção de voto têm se mostrado estáveis quanto aos cenários mais prováveis para as eleições presidenciais de outubro: um empate técnico entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o que os levaria necessariamente para o segundo turno. A iminência do pleito – que também elege governadores/as, deputados/as federais, estaduais e senadores/as – vem acirrando o debate de ideias entre as pessoas mais conectadas com a política, mas em diversos setores da sociedade – incluindo a universidade – há quase que um total silêncio.
Na Plenária em Defesa da Soberania e da Democracia, ocorrida na noite da última terça-feira, 22 de setembro, no auditório Suze Scalcon da Sedufsm, as e os professores presentes foram uníssonos na avaliação de que é preciso quebrar esse silêncio e ampliar o debate sobre os projetos que estão em disputa nas eleições, afinal de contas, são diametralmente opostos.
"Estamos sendo apresentados a diferentes projetos nesse processo eleitoral, e precisamos escolher entre o projeto que preconiza um Estado forte, indutor de políticas públicas, comprometido com o reajuste do salário mínimo e com as universidades; e o projeto que apresenta um Estado enxuto, gerencial e privatista", disse o presidente da Sedufsm, Everton Picolotto.
Ele fez uma breve análise, no início da atividade, sobre as principais diferenças entre as propostas de Lula e Flávio, especialmente no que tange às universidades. Enquanto o petista se compromete com a expansão das universidades e institutos federais, prevendo recomposição orçamentária, incremento da assistência estudantil, valorização das ações afirmativas e a abertura de 120 mil novas vagas de ensino superior, o candidato do PL traz propostas que representam mudanças estruturais, a exemplo da transferência da responsabilidade pelas universidades do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCIT), o que pode promover uma reclassificação do ensino superior, desonerando o Estado de aplicar nessa esfera os níveis mínimos constitucionais reservados à Educação. Sobre ações afirmativas, ampliação e fortalecimento das universidades ou recomposição salarial para docentes, não há sequer uma palavra. O foco está na aproximação entre a pesquisa feita nas instituições públicas e as demandas do setor privado, com ênfase em resultados, eficiência e austeridade social. Por isso, sua plataforma de governo defende o direcionamento de financiamentos públicos para pesquisas que rendam resultados econômicos e metrificáveis, o que pode aumentar ainda mais as desigualdades de financiamento entre as áreas de conhecimento.
Caminhos para o diálogo
André Luis da Silva, docente do departamento de Engenharia Mecânica da UFSM, ponderou que as eleições brasileiras comumente eram discutidas tendo por base os impactos internos que teriam, mas que dessa vez, no pleito de 2026, nota-se um enraizamento profundo das disputas nacionais no cenário geopolítico mundial.
“Fico preocupado vendo as pessoas não perceberem o tamanho do perigo. Nossa tendência, a depender do resultado, é sermos esmagados, não importando se somos professores de direita ou de esquerda, se somos professores com ênfase teórica ou captadores de recursos. Todos seremos prejudicados”, assegura.
Já Luciana Carvalho, docente do departamento de Ciências da Comunicação e líder do Grupo de Pesquisa 'Desinfomídia - Estudos Sobre Desinformação no Ecossistema Midiático', chamou à reflexão sobre as dificuldades que os sindicatos, partidos e movimentos sociais têm demonstrado para conversar e aproximar trabalhadores e trabalhadoras inseridos nas novas modalidades de precarização do trabalho, como a uberização e plataformização. É preciso, para ela, furar a bolha e fazer o debate político de ideias com quem está indeciso e hesitante quanto aos projetos apresentados pelas candidaturas.
E a ampliação do debate perpassa por escolher temas que sejam presentes no cotidiano das pessoas, seja por afetarem seus dias atuais quanto suas perspectivas futuras. Um exemplo dado por Gihad Mohamad, docente do departamento de Estruturas e Construção Civil, é a desindexação do reajuste das aposentadorias do aumento real do salário mínimo, indicada pela equipe econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, o que tende a acarretar empobrecimento brutal das e dos aposentados, a exemplo do que ocorreu no Chile ou do que ocorre atualmente na Argentina.
"Cabe a nós que trabalhamos dentro da universidade pensarmos em como discutir esses temas", diz o professor Marcos Piccin, do departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural. Ele ressalta o quão difícil vem sendo discutir assuntos importantes, pois algumas pessoas não parecem abertas a ouvir qualquer argumento que contradiga seu arcabouço de crenças.
Soluções coletivas
Ainda que a necessidade de conversar sobre política real seja imperativa, Belkis Bandeira, diretora da Sedufsm e docente do departamento de Fundamentos da Educação, problematiza o individualismo observado dentro da universidade, onde a lógica neoliberal já vem fazendo morada há algum tempo. Frente à intensificação do trabalho docente e à desvalorização salarial, professores e professoras estão imersos em seus projetos individuais, correndo atrás de bolsas e abrindo mão dos espaços de convívio e participação coletiva. Isso, além de obstaculizar o debate, gera uma angustiante sensação de impotência, diz Belkis.
Mas Everton Picolotto lembra pesquisa Vox Populi recente, que apresentou dados animadores: 70% das e dos entrevistados consideram sindicatos importantes para a luta por direitos e valorização. Isso, explica o dirigente da Sedufsm, mostra que as entidades representativas de classe ainda são referência quando o assunto é direitos trabalhistas, negociações coletivas ou mesmo questões sociais mais amplas.
Assim, não obstante as orientações restritivas da Advocacia-Geral da União (AGU) e da UFSM para o período de defeso eleitoral, as e os docentes apontaram para a necessidade de promover ou participar de ações de conscientização sobre o que está em jogo nas eleições de outubro. Somar forças com outros sindicatos, de dentro e de fora da universidade, ocupar espaços em mídias sociais e conversar nos locais de estudo e trabalho estiveram entre os apontamentos. Ceder à apatia e ao silenciamento, definitivamente, não foi considerada uma opção.
ANDES-SN
Em circular enviada no dia 10 de setembro às seções sindicais e secretarias regionais, a diretoria do ANDES-SN orientou que as e os docentes de todo o país organizem ou participem de comitês e frentes para contribuir com a resistência e luta em defesa da soberania nacional, da democracia e dos direitos da classe trabalhadora. A Plenária da última terça foi também uma resposta a essa orientação.
Texto e foto: Bruna Homrich
Assessoria de Imprensa da Sedufsm
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