Obra relembra a censura em tempos obscuros
Publicada em
02/10/26
Atualizada em
02/10/26 09h48m
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Jornalista Candido Otto da Luz comenta “Mordaça”, livro que detalha a censura musical no Brasil
Nesta sexta, 2 de outubro, a dica cultural é do jornalista que atua na Rádio Universidade AM da UFSM, Candido Otto da Luz. Ele comenta sobre o livro “Mordaça- histórias de música e censura em tempos autoritários”, publicação que reúne alguns dos casos mais emblemáticos sobre o incessante embate entre música e censura, arte e autoritarismo, no Brasil.
O livro, publicado em 2022, de autoria de João Pimentel Zé McGill, foi escrito a partir de depoimentos exclusivos de alguns dos nomes mais importantes da música brasileira, colhidos pelos autores entre 2018 e 2021.Confira a dica abaixo.
“Censura sempre foi fabricante de sucessos
Quem quiser saber sobre a censura nas músicas brasileiras durante a ditadura militar, recomendo o livro ‘Mordaça - histórias de música e censura em tempos autoritários’, dos autores João Pimentel e Zé McGill. São vinte e seis capítulos com depoimentos exclusivos de personagens marcantes da música brasileira, como Odair José, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Edu Lobo, Gilberto Gil, Paulo César Pinheiro, entre vários outros, relatando censura que sofreram durante o período ditatorial.
A partir do AI-5, de 13 de dezembro de 1968, aí sim, o governo pegou pesado, não só nas músicas, mas também no teatro, novelas, cinema e literatura. No Estado Novo ditatorial de Getúlio Vargas, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) também fazia seus estragos. O DIP serviu de modelo para o futuro Serviço de Censura e Diversões Pública, mais tarde trocando o Serviço por Divisão, com a colaboração de um Conselho Superior, desmoralizado por Millôr Fernandes, quando escreveu no jornal "se é censura, não pode ser superior".
Bem antes disso tudo já aconteceram proibições de músicas. Em 1921, "Ai Seu mé", uma marchinha carnavalesca de autoria de Freire Júnior foi censurada, mas foi sucesso no carnaval daquele ano (a música gozava Artur Bernardes, candidato à sucessão do presidente Epitácio Pessoa).
"Diabo sem rabo", de Haroldo Lobo e Milton Oliveira, foi censurada em 1938 (...em vou botar um anúncio no jornal / precisa-se de um rabo para brincar o carnaval). "O Bonde de São Januário", de Wilson Batista e Ataulfo Alves foi censurada em 1940 pelo DIP. Nesse ano o DIP vetou mais de 300 músicas e 100 programas de rádio.
Antes do AI-5, em 1966, Chico Buarque teve censurada a música "Tamandaré", por suposta ofensa ao Marquês Tamandaré, patrono da Marinha Brasileira. Edu Lobo teve censurada duas músicas...instrumentais! "Apesar de você", do Chico, passou na censura. Depois de vender mais de 100 mil compacto simples foi censurada porque a censura "desconfiou" que o "você" era o general-presidente Médici. Chamado a dar explicações, Chico disse que o "você" era uma mulher ciumenta. Mas não colou e a música só foi liberada para o disco de 1978.
O livro traz dezenas de histórias de músicas censuradas nos seus 26 capítulos e o espaço é pouco. Não vou dar spoiler, mas um dos maiores dribles na censura foi a música "Pesadelo" (...você corta um verso, eu escrevo outro /... você me prende vivo, eu escapo morto), de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós. Agnaldo Timóteo cooperou (sem saber) para a liberação da música, que foi gravada pelo MPB-4. Mas, a exemplo de "Apesar de você", a censura acordou bem mais tarde e a música foi censurada.
Taiguara teve 82 músicas censuradas; Odair José, dezenas. Sem falar, é claro, em outros grandes nomes da MPB, alguns deles citados no primeiro parágrafo desta matéria. Leiam o livro, vale a pena.”
Dica cultural
O quê? Livro
Nome: ‘Mordaça - histórias de música e censura em tempos autoritários’
Ano: 2022
Páginas: 425
Autores: João Pimentel e Zé McGill
Editora: Sonora
Valor: de 35 a 60 reais.

Candido Otto Haupt da Luz
Radialista e jornalista da UFSM.
Imagens: Divulgação
Edição: Fritz R. Nunes (Sedufsm)
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