Eleições: professor defende importância da regulação de redes sociais
Publicada em
30/10/26
Atualizada em
30/10/26 13h17m
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Lúcio Massaferri Salles, jornalista, psicólogo, filósofo e escritor, vislumbra necessidade de desenvolvimento de tecnologias digitais nacionais
Na ótica do jornalista, psicólogo e filósofo, Lúcio Massaferri Salles, a atuação dos conglomerados que comandam as plataformas digitais em boa parte do planeta, especialmente a Meta, prejudicou a campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). E ele cita vários exemplos de distorção nos algoritmos, impedindo que determinados conteúdos avançassem em alcance nas redes sociais. O próprio conselho da empresa admitiu que houve “falhas”.
Salles, que é professor no Instituto de Psicologia da Universidade Candido Mendes (RJ), é um estudioso de temáticas que abordam as redes sociais e a democracia, por exemplo. Autor do livro “Democracia e Palavra, Arquitetura do Caos: Guerra Híbrida, Operações Psicológicas e Manipulação Digital”, o professor considera fundamental a regulação das redes sociais.
Todavia, Lúcio Salles vai além e considera que em um quarto mandato do presidente Lula, um dos assuntos que deveria ganhar ênfase é a “soberania digital”. Ele defende que é preciso viabilizar uma “plataforma nacional, quem sabe uma inteligência artificial brasileira, para não ficarmos à mercê de forças estrangeiras, cujos interesses, quando não são de negócio, são alheios aos nossos”.
Na entrevista que concedeu à assessoria de imprensa da Sedufsm, por e-mail, o professor, que integra a Rede Ibero-Americana de Filosofia Política (Rede RED), também analisa a pressão que o mercado financeiro vem fazendo, após a reeleição de Lula, quase que exigindo um ajuste fiscal nas contas públicas, promovendo o corte de recursos orçamentários.
Para Salles, é difícil conciliar os interesses de um mercado que está sempre pedindo cortes e a necessidade de milhões de brasileiros que votaram em Lula esperando que o governo não apenas mantenha, mas amplie as políticas sociais. “A Bolsa caiu, o dólar subiu, mas isso não pode decidir sozinho o rumo de um governo. O país tem problemas bem maiores do que a oscilação do mercado. Responsabilidade fiscal é importante, ninguém está dizendo que não. Só que ela não anda separada de investimento, emprego, renda e crescimento”, argumenta o professor, que torce para que Lula 4 seja um governo “mais firme, radical”.
Acompanhe a seguir, a íntegra da entrevista.
Pergunta- Professor, para além da mobilização popular e nas redes sociais, fatores importantes na vitória de Lula, o que se viu foi uma série de medidas, admitidas até pelo Conselho da Meta, prejudicando o alcance da campanha de Lula na internet. Na sua avaliação, o quanto isso pode ter prejudicado o candidato petista? Há algo que se possa fazer além de denunciar ao TSE?
Resposta- Acho que prejudicou, e não foi pouco. Não sei traduzir isso em números, mas acompanhei de perto, principalmente no primeiro turno. Eu recebi vídeos e mensagens feitos para dar medo. O vídeo do porta-aviões americano, que passou por aqui há um tempo, circulando como se fosse de agora. O avião do sequestro do Maduro, a mesma coisa. Meme de pizza sendo servida no Pentágono, como se estivessem lá de olho na nossa eleição. Tudo isso num clima de embaixada fechada. Aquilo mexe com a cabeça das pessoas, sobretudo das menos politizadas, que podem simplesmente ficar em casa, com medo, no dia de votar. Logo depois do primeiro turno eu fiz um vídeo curto, em linguagem simples, explicando o que é uma operação psicológica, uma operação de influência. Não citei o nome de ninguém. Mostrei o depoimento do professor Leonardo Boff sobre uma pessoa de Petrópolis que não foi votar com medo de uma guerra. Estima-se que um milhão e meio de pessoas tenham visto. O Flávio Bolsonaro foi ao TSE para tentar derrubar o vídeo e punir o jornal Pragmatismo Político, onde tenho coluna. O vídeo ficou no ar, porque eu só descrevi o que estava acontecendo. A Meta também entra nessa conversa. O que eu vi foi o alcance do Pragmatismo Político diminuir, e o meu canal no YouTube, Portal Fio do Tempo, ficar praticamente congelado, como se os algoritmos tivessem mudado. E vi pedidos de imagem com inteligência artificial recusados quando eram do Lula com a camisa do Brasil ou com a bandeira, coisa comum, enquanto os do Flávio Bolsonaro eram atendidos. Tem ainda o contexto internacional.
Em 2022, durante a campanha, o secretário de Defesa de (Joe) Biden, Lloyd Austin, esteve em Brasília e disse ao nosso ministro da Defesa que esperava eleições livres e limpas, com os militares sob controle civil. Em 2026, a postura do governo americano foi outra. Na minha avaliação houve interferência, sim, e precisamos investigar até onde ela foi. Mas tem outra parte dessa história. Depois do primeiro turno veio uma reação enorme.
O Janones entrou forte com o conhecimento prático que ele tem dessa guerrilha nas redes, com as hashtags, as missões, a mobilização de milhares de pessoas. E as ruas foram simplesmente avassaladoras, muitos jovens e idosos. Muita gente resolveu reagir ao perigo de um governo de extrema-direita desses, ao medo, muitas vezes por conta própria, enfrentando uma estrutura de comunicação muito poderosa. Na minha leitura, sendo Lula candidato à reeleição, foi isso que virou o jogo. Quanto ao que fazer além de denunciar ao TSE, a denúncia é necessária, mas se ficar só nela cai no esquecimento. Eu defendo documentar tudo, guardar as provas e registrar como verdade o que aconteceu, porque o que não fica registrado alguém nega depois. E agora, com o Lula eleito, dá para ajudar o Brasil a pensar a soberania digital: uma plataforma nacional, quem sabe uma inteligência artificial brasileira, para não ficarmos à mercê de forças estrangeiras, cujos interesses, quando não são de negócio, são alheios aos nossos.
Pergunta- Após o fim do segundo turno, Lula falou em regulação das redes sociais no país. Na sua visão, qual a importância desse tipo de medida? E, caso de não se conseguir avançar na regulação, tendo em vista um congresso nacional adverso, qual seria a alternativa?
Resposta- Imagine uma pessoa dentro de um ônibus, a caminho do trabalho, passando o dedo na tela do celular. Vão aparecendo notícia, vídeo, opinião, propaganda. Quem escolheu aquilo que ela está vendo? Ela mesma, pouco.
Quem decide o que aparece, o que some e o que ganha destaque são os algoritmos de empresas estrangeiras, e isso molda o jeito como milhões de brasileiros enxergam a realidade, a política inclusa. Por isso acho a regulação das redes indispensável. As plataformas precisam prestar contas de como seus algoritmos funcionam, de como deixam circular conteúdo falso e de que critério usam para aumentar ou diminuir o alcance de uma publicação. Empresa privada com tanto poder sobre o debate público do país, sem transparência e sem responder a ninguém aqui, eu não consigo aceitar. Regular rede social não tem nada de censura, porque liberdade de expressão nunca significou poder tudo.
A Constituição brasileira coloca limites. Cada um pode dizer o que pensa, mas sem anonimato, e quem comete crime, injúria e coisas assim responde por isso. Então é preciso ter cuidado com certas coisas. Sei que, com este Congresso, qualquer proposta assim esbarra em resistência grande. Há interesse econômico e político em jogo, e esperar indefinidamente pela lei ideal não dá. Vou seguir defendendo a regulação, mas o país precisa pensar em outros caminhos também. Um deles é investir em tecnologia nossa.
Por que o Brasil não pode ter uma plataforma nacional de comunicação, com regra pública, transparência e proteção dos dados de quem usa? E uma inteligência artificial brasileira, feita pelas nossas universidades e pesquisadores? Capacidade científica para começar a gente tem. Não resolveria de um dia para o outro, e as plataformas de hoje continuariam por aqui, mas já seria um passo para depender menos delas. Fica a pergunta que eu me faço: quando um brasileiro olha para a tela do próprio celular, quem é o dono daquela tela?
Pergunta- Um dos primeiros sinais da insatisfação do mercado com a vitória de Lula foi a queda nas bolsas e o aumento do dólar. O recado para o Presidente é fazer o ajuste fiscal, corte de gastos. No seu modo de ver, qual seria a saída para o presidente Lula diante de uma instabilidade?
Resposta- O mercado financeiro se assusta num dia, numa semana. Aquilo de que o Brasil precisa se mede em anos. A Bolsa caiu, o dólar subiu, mas isso não pode decidir sozinho o rumo de um governo. O país tem problemas bem maiores do que a oscilação do mercado.
Responsabilidade fiscal é importante, ninguém está dizendo que não. Só que ela não anda separada de investimento, emprego, renda e crescimento. Quando se fala em cortar gastos, eu pergunto quais gastos e quem vai sentir o corte, porque a conta não chega do mesmo jeito para todo mundo.
Tem ainda a política. Lula acaba de receber um novo mandato nas urnas. Milhões de brasileiros votaram nele esperando melhorar de vida, e agora o mercado financeiro pressiona por ajuste. Conciliar uma coisa com a outra é difícil. Eu penso que o caminho é um governo mais firme, um pouco mais radical.
Não dá para tratar cada movimento da Bolsa como ordem dada ao presidente. O Brasil precisa de estabilidade, claro, mas precisa também crescer e enfrentar suas desigualdades. E toda vez que alguém fala em ajuste fiscal, eu volto à mesma pergunta: quem vai pagar essa conta?
Pergunta- De que forma avalias que a eleição de meio de mandato nos EUA, com avaliação do governo Trump, pode impactar no Brasil?
Resposta- A eleição de 3 de novembro nos Estados Unidos pode ter consequências importantes para o Brasil. Os estadunidenses vão renovar a Câmara dos Representantes e parte do Senado, e o resultado vai mostrar até onde Trump conserva força política. Se perder o controle do Congresso, ou mesmo de uma das Casas, terá mais dificuldades para governar. Isso pode mudar muita coisa na relação com o Brasil, principalmente depois do que vimos durante nossa eleição. E agora temos a fuga de Flávio Bolsonaro.
Ele perdeu a eleição, não reconheceu a derrota, recebeu uma ordem para entregar os passaportes e apareceu nos Estados Unidos, onde seu irmão Eduardo já estava. A fuga passou pela Argentina e pelo Equador, num avião particular, até chegar a Miami. Trump manifestou apoio à sua entrada no país. Eu me pergunto quem ajudou a organizar tudo isso, que interesses estão envolvidos e se houve participação de serviços de inteligência estadunidenses. Não espero que uma agência de inteligência venha a público contar o que fez ou deixou de fazer.
A eleição estadunidense entra nessa história porque pode alterar o ambiente político em que os dois irmãos estão abrigados. Um Congresso mais disposto a fiscalizar Trump poderia criar dificuldades para certas iniciativas do governo, inclusive no relacionamento com o Brasil. Mas isso não significa que Flávio perderia automaticamente a proteção que possa receber.
O que me preocupa é a possibilidade de os Estados Unidos se tornarem uma espécie de abrigo para quem perde uma eleição aqui, contesta o resultado e tenta continuar a disputa política de lá. Um asilo de golpe, por assim dizer. O Brasil precisa acompanhar de perto o que acontecer em novembro, sem imaginar que os estadunidenses vão resolver nossos problemas. Lula recebeu um novo mandato dos brasileiros, e esse resultado precisa ser respeitado dentro e fora do país. No fim das contas, a pergunta é até onde um governo estrangeiro pode interferir na nossa vida política e o que estamos dispostos a fazer para defender nossa soberania.
Pergunta- Diante de um Congresso Nacional com força da direita e da extrema direita e mais governos estaduais e assembleis legislativas, o sr. acredita que o país deu uma guinada rumo ao neofascismo?
Resposta- Não acho que o Brasil tenha dado uma guinada rumo ao neofascismo. Se fosse assim, como explicar a reação que vimos agora no segundo turno? Foi uma mobilização histórica, inédita, com gente de todas as idades nas ruas, nas redes, nas famílias, enfrentando o medo e reagindo à possibilidade de um governo de extrema-direita.
A sociedade brasileira tem uma capacidade de reação que não pode ser desprezada. Ao mesmo tempo, é inegável que a presença tão grande da extrema-direita no Congresso, no Senado, nos governos estaduais e nas assembleias legislativas preocupa muito. São forças políticas que conquistaram espaço, têm organização, recursos e poder de influenciar decisões que afetam a vida de milhões de pessoas. Não é pouca coisa. Só que também não dá para pôr toda a direita no mesmo saco, como se ser conservador fosse ser neofascista.
Não considero que todo eleitor de Bolsonaro seja neofascista, e lamento a polarização afetiva, de intensidade patológica, que fechou a escuta ao diálogo. Há ainda o papel das redes sociais. Tenho insistido que os algoritmos não criaram do nada os preconceitos, os ressentimentos e as predisposições autoritárias que existem na sociedade. Isso já estava aí. O que as plataformas fizeram foi achar jeitos de estimular, organizar e ampliar esses comportamentos, muitas vezes transformando medo e indignação em força política.
Isso ajuda a entender como a extrema-direita conseguiu crescer, mas um crescimento assim também pode ser revertido. O segundo turno mostrou justamente isso. Milhões de brasileiros reagiram, se mobilizaram e impediram a vitória de um projeto político que, na minha avaliação, representava um risco muito grande para a democracia. A extrema-direita continua forte, está presente nas instituições e não vai desaparecer porque perdeu uma eleição. Mas o país mostrou que tem forças democráticas vivas, capazes de enfrentar esse avanço. Por isso acho que nenhuma guinada rumo ao neofascismo se consumou. A disputa política e social segue muito séria, e o resultado dela ainda está sendo construído.
Pergunta- Qual será, no seu modo de ver, o ou os grandes desafios do quarto governo Lula?
Resposta- Acho que o quarto governo Lula vai exigir muito de tudo o que ele aprendeu ao longo da vida. Ele já entrou para a história mundial, é respeitado em muitos países e tem uma trajetória política extraordinária. Lula tem uma capacidade rara de juntar afeto, pensamento e ação. Consegue falar com as pessoas, entender suas dificuldades e transformar isso em força política. Aos 81 anos, chega a esse novo mandato com uma bagagem que poucos governantes têm.
O primeiro grande desafio será governar diante das pressões que o Brasil enfrenta, dentro e fora do país. Há um Congresso difícil, interesses econômicos poderosos e um cenário internacional complicado. Lula vai precisar de toda essa experiência para fortalecer nossa soberania, que passa pela economia, pela ciência, pela tecnologia e também pelo mundo digital, e fazer isso sem deixar de cuidar da vida das pessoas, porque é para isso que um governo existe.
O outro desafio, que considero igualmente importante, é preparar o Brasil para depois de Lula. Este será seu último mandato, e precisamos pensar seriamente em quem vai receber esse bastão. Temos uma juventude que mostrou muita força agora nas eleições e que precisa encontrar espaço para participar, aprender e assumir responsabilidades. A experiência acumulada por Lula, sua maneira de fazer política, de ouvir as pessoas e de construir caminhos, precisa ser transmitida.
Uma liderança assim tem muito a ensinar, e seria um desperdício deixar que esse aprendizado se encerrasse com sua passagem pela Presidência.
Eu gostaria que, ao final desses quatro anos, tivéssemos um Brasil mais soberano e uma democracia mais consolidada, fortalecida pelas crises que enfrentamos e pela capacidade de reação que nossa sociedade demonstrou.
Que as novas gerações estejam preparadas para defender as conquistas democráticas e enfrentar os problemas que certamente virão. Lula já deixou uma marca enorme na história do país. Agora tem a oportunidade de ajudar a preparar o Brasil para seguir em frente, com suas próprias forças.
Entrevista concedida a Fritz R. Nunes
Imagem: Instagram
Assessoria de imprensa da Sedufsm
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