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A Economia da Pandemia

28/07/2021

José Maria Pereira
Professor aposentado do departamento de Economia e Relações Internacionais

Existe uma economia da pandemia? O professor Francisco Eduardo Pires de Souza (1), da UFRJ, acredita que sim. Assim como houve uma economia da guerra, também existe uma economia da pandemia. Neste caso, a política macroeconômica apropriada é singular e diferente da que se verifica na economia usual. Um exemplo é que o próprio Keynes (famoso economista britânico que estudou a Grande Depressão dos anos 1930) inverteu completamente o seu raciocínio macroeconômico no texto de 1940 (“Como pagar a guerra?”) em relação ao seu texto de quatro anos antes (“Teoria Geral”). É que agora, na II Grande Guerra, havia escassez de poupança e era necessário conter o consumo, situação oposta à que se verificava quando publicou o seu livro em 1936.

A economia da pandemia, ao contrário da economia de guerra, é uma macroeconomia da recessão. Mas não igual ao conceito de recessão tradicional. Ela é diferente de todas as outras e, por isso, mesmo exige um tratamento diferenciado. A começar pelo fato de que a recessão é um evento necessário, e até mesmo desejável, se o objetivo for salvar vidas. Por isso, não seria recomendável, ao menos numa fase inicial, que a política econômica tivesse como objetivo promover a recuperação da economia. Certamente, o ministro (da Economia) Paulo Guedes jamais iria concordar com isso. Mas o fato é que, diante de pandemias como a da gripe espanhola (1918-1920) e a Covid-19, caracterizadas por alto nível de contágio e falta de vacinas, o principal remédio para salvar vidas é o isolamento social. E este requer evitar aglomerações nas atividades de consumo “intensivas em contato” e isso exige redução do consumo e produção, ou seja, recessão. Enquanto a pandemia não estiver avançada na sua fase descendente, a recessão é a principal medida de saúde pública.

A política de socorro a pessoas vulneráveis e a empresas ganhou proporções gigantescas, impondo um custo fiscal sem precedentes para a maioria dos países. Dentro disso, ocorrem dois processos deflagrados pela pandemia: a) interrupção forçada e prolongada do fluxo circular da economia, por imposição legal ou medo de contato, interditando parte da oferta e demanda (sobretudo, serviços); b) redistribuição de renda que decorre da resposta dos governos à pandemia.

Para entender como interagem esses dois processos, identificamos uma dualidade na economia. Primeira, a existência de um setor interditado (total ou parcialmente) – denominado pelo autor de setor “circo”, por implicar aglomerações, e que opera com oferta e demanda abaixo do potencial. Segunda, outro setor que não sofre interdições, cuja demanda está sobreaquecida pelas políticas de transferência de renda – denominado de setor “pão”, por motivos mais ou menos óbvios. Essa dualidade da economia cria um dilema para a política econômica: as políticas de apoio a empresas e famílias do setor circo gera inflação crescente no setor pão. A solução para o dilema depende da desinterdição completa do setor circo. Mas esta não é viável enquanto a população suscetível à doença não tiver sido totalmente vacinada ou que atinja o que alguns chamam de “imunidade de rebanho”.

Por outro lado, o auxílio emergencial e as demais transferências do governo elevaram o déficit público. Ao mesmo tempo, aumentaram a renda disponível do setor privado, sendo uma parte deste aumento alocada para mais consumo e outra parte para mais poupança privada. Ou seja, a restrição ao consumo de bens e serviços intensivos em contato, típicos da cesta de consumo das camadas da população de alta renda, elevaram a sua propensão a poupar. Em resumo, a renda do setor privado subiu muito como proporção do PIB, enquanto o consumo diminuiu por causa das restrições associadas à pandemia. Sendo isso verdadeiro, a pandemia criou, ao mesmo tempo, um grande problema fiscal e a sua solução – a “poupança forçada” das camadas da população de renda mais alta, que resultou da pandemia e de seu enfrentamento.

É consenso entre os economistas a respeito do fato de que, diante da mortalidade imposta pela Covid-19, era imprescindível fazer tudo o que fosse necessário – inclusive incorrer em déficits fiscais sem precedentes – para enfrentar as consequências da pandemia. No Brasil, o Congresso aprovou o chamado “orçamento de guerra”, que permitiu ao governo descumprir o teto de gastos. Porém, como financiar esse déficit tão elevado? Na verdade, existem três maneiras: colocação de títulos da dívida pública, pela emissão de moeda ou pela liquidação de ativos (no caso brasileiro, principalmente reservas internacionais). No nosso país, as três maneiras foram utilizadas, porém com preponderância da colocação de títulos da dívida pública.

Costuma-se ouvir que a geração presente está comprometendo a geração futura, por causa do aumento da dívida do governo. Isso não é, necessariamente, verdadeiro. Como a dívida adicional é toda interna, deixou-se uma dívida, mas também uma riqueza financeira da mesma magnitude da dívida para as gerações futuras. Se fosse possível taxar a riqueza financeira adicional, a questão da dívida adicional estaria resolvida. Como, no atual momento, isso não parece viável, o problema que fica é que uma dívida grande sempre traz maior instabilidade futura. A herança da geração futura deverá ser o agravamento do conflito distributivo. A distribuição de renda, que beneficiou os mais pobres durante a pandemia, cessa com o fim do auxílio emergencial. Mas a riqueza financeira líquida ampliada do setor privado, em poder das parcelas mais ricas da sociedade, tenderá a influenciar negativamente a distribuição de renda futura, via recebimento de juros.

Diante de uma economia completamente fora dos padrões usuais, a teoria econômica tradicional é de pouca serventia. A esperança de que a expansão dos gastos de consumo das classes de renda mais alta, através do uso da poupança acumulada durante a pandemia, seja um contrapeso para a queda do consumo derivada do fim do auxílio emergencial é infundada. Seja pela interdição parcial da economia, seja por uma razão financeira: quem comprará os títulos da dívida pública a serem liquidados por estes poupadores? A questão mais conjuntural de recuperação da economia, nesse caso, não está na política macroeconômica e sim na vacina.  Só com o fim do risco associado aos contatos e aglomerações será possível restabelecer plenamente a produção no setor circo, que compõe uma parte importante da produção e do emprego agregados.

 

1) Artigo-resenha: FRANCISCO EDUARDO PIRES DE SOUZA. Panem et circenses: a propósito da macroeconomia da pandemia. Revista de Economia Política 41 (2), 2021




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