Acessibilidade desrespeitosa na UFSM SVG: calendario Publicada em 07/10/2026 SVG: views 50 Visualizações

Aproveitando o momento em que estão falando da nossa ministra, quero compartilhar uma experiência que vivi no dia 14 de agosto de 2026, eu tive a oportunidade de assistir pessoalmente a palestra da ministra Cármen Lúcia, grande referência da Justiça brasileira.

A palestra aconteceu na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), instituição onde atuo como docente, com muito orgulho. Sou cria da primeira universidade federal criada em uma cidade do interior do Brasil, e é uma honra fazer parte dessa história.

Na ocasião, tive o acompanhamento de duas intérpretes de Libras. Foram elas, inclusive, que conseguiram uma cadeira para que eu pudesse me sentar em um local onde tivesse uma visão mais adequada. Para uma pessoa surda usuária de Libras, isso não é um detalhe: Libras é uma língua visual, e eu preciso ter acesso visual às intérpretes para compreender o que está sendo dito.

Infelizmente, durante a palestra, fotógrafos e jornalistas passavam constantemente na minha frente, bloqueando minha visão. As próprias intérpretes precisaram alertá-los de que estavam atrapalhando meu acesso à palestra, mas, em muitos momentos, os avisos foram ignorados. Desrespeito.

E a questão não se resume aos profissionais que estavam registrando o evento. Também me senti desrespeitada pela organização e pela própria universidade, que deveriam ter garantido previamente condições adequadas de acessibilidade.

Fiquei muito tensa com a movimentação constante diante de mim. A cada passagem, eu perdia parte da informação.  No fim, não consegui compreender integralmente a palestra da magnífica ministra Cármen Lúcia.

E foi justamente uma fala da própria ministra que ficou ainda mais significativa diante do que vivi naquele dia:

“A universidade não é espaço apenas de ministrar aulas como se alguém fosse o dono da verdade, que ninguém é. Nós temos o DIREITO de sermos iguais na nossa dignidade, e temos o DIREITO de sermos diferentes, absolutamente diferentes. E é isso que nós temos como a experiência universitária, da educação em geral.”

Essa fala dialoga profundamente com a minha experiência.

Eu sou diferente. Sou uma pessoa surda e tenho na Libras a minha língua de acesso ao mundo, à informação, à educação e ao conhecimento. Mas ser diferente não significa ter menos direitos.

Sobre direitos, eu quero poder entender igual a vocês ouvintes, sem perder um trecho sequer da palestra.

Acessibilidade não é favor. Não é privilégio. Não é apenas colocar uma intérprete no palco. É organizar o espaço, com vista correta e justa.

 Acessibilidade é garantir que a pessoa surda consiga, de fato, ver, compreender e participar em igualdade de condições.

Quando a minha visão é bloqueada, meu direito de acesso à informação também é bloqueado.

A universidade deve ser justamente o espaço onde as diferenças são respeitadas e onde todas as pessoas possam exercer sua dignidade.

Eu não quero receber menos.

Eu quero ter acesso igual.

Eu quero compreender igual.

Eu quero participar igual.

Porque inclusão de verdade acontece quando os direitos existem não apenas no papel, mas também na prática.

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Carilissa Dall'alba
Professora do departamento de Educação Especial da UFSM. Ativista e militante do Movimento Surdo

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