Os caminhos que marcam o adoecimento docente SVG: calendario Publicada em 30/05/25
SVG: atualizacao Atualizada em 30/05/25 18h12m
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Causas já podem ser detectadas, mas a busca de saídas ainda enfrenta muitos obstáculos

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“Eu não sei como que consegui dar conta, não sei também se eu dei conta, né? Os meus filhos hoje, que são maiores, dizem ‘mãe, tu nunca estava em casa’”. Ao relembrar os anos em que esteve na vice-direção do Centro de Educação (2009-2017) e, posteriormente, entre 2017 e 2021, na direção da unidade, Ane Carine Meurer, professora do departamento de Fundamentos da Educação da UFSM, confessa que já trabalhou muito.

Atualmente fora dos postos de gestão, ela pondera que, nos dois dias da semana em que não dá aula, consegue por vezes preparar uma refeição para os filhos e participar um pouco de suas vidas, algo que, no passado, era mais difícil. “Infelizmente eu nem me dava conta de todo o atropelo que eu vivia e do tanto que eles sentiam a minha ausência”, completa.

Hoje ela acredita que a maturidade a faz enxergar melhor quais são suas prioridades no trabalho, de forma que consegue sentir prazer em estudar e se permitir descansar. Ainda assim, no entanto, os momentos reservados ao lazer são poucos. “E não digo nem um lazer muito grande, mas até a própria perspectiva de poder assistir um filme à noite, durante o semestre é bem difícil a gente conseguir ter tempo para isso”, exemplifica Ane Carine.

Integrando o corpo docente de um centro cuja natureza do trabalho é bem diversa daquela observada no CE, o professor Flávio Mayer, do departamento de Engenharia Química da UFSM, partilha de alguns sentimentos com Ane Carine. Sua rotina diária de trabalho, de segunda a sexta-feira, envolve de 10 a 12 horas de aulas na graduação e pós-graduação, além de atividades de pesquisa, extensão (em menor grau) e gestão. Durante o final de semana, contudo, o trabalho continua, com cerca de 5 a 10 horas dedicadas à correção de provas ou revisão de artigos para revistas.

Mayer, que já foi diagnosticado com transtorno de ansiedade, diz que o trabalho afeta suas relações pessoais, constantemente postergadas em função de atividades relacionadas à docência e pesquisa. Quando questionado sobre sentimentos de cansaço e sobrecarga, ele diz que os conhece de perto. “As atividades que desenvolvo demandam muita atenção em detalhes burocráticos e o volume de trabalho é grande, o que gera cansaço, certamente”, partilha.

No departamento de Arquivologia da UFSM, Gláucia Konrad teria de cumprir, formalmente, sua jornada docente de 40 horas com Dedicação Exclusiva. Ocorre que, na prática, somando bancas, palestras, orientações e outras atividades do tipo, excede essa carga horária. Quando há trabalhos de graduação e pós-graduação para revisar e corrigir, dedica o final de semana inteiro a tais tarefas.

Em virtude dessa dinâmica, ela sente que não se faz tão presente na vida da família e amigos como gostaria. “Não poder dedicar os finais de semana para ficar com a filha, não poder visitar com frequência a família que reside em outras cidades. Não ter tempo ou estar cansada para visitar ou receber amigos”, partilha a docente.

Embora até então não tenha recebido diagnóstico de doença psíquica, Gláucia diz sentir o alerta do corpo e da mente para procurar ajuda. “Acredito que qualquer trabalho 'invade' [a nossa casa], mas o trabalho docente tem esta particularidade, não encerra com o expediente. Levamos ele para casa”, comenta.

Os relatos de Ane Carine, Mayer e Gláucia podem ser os de muitos professores e professoras da UFSM. Somente entre janeiro e 30 de abril de 2025, 68 docentes da instituição solicitaram licença para tratamento de saúde. Desse número, 18% foram afastados por CID-F, significando que, segundo a Classificação Internacional de Doenças, seu adoecimento estava vinculado a transtornos mentais e comportamentais. Os dados foram cedidos à assessoria de imprensa da Sedufsm pela Perícia Oficial em Saúde, ligada à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas.

Ocorre que os dados, embora interessantes para ajudar a compor o cenário, não dão conta de explicar com precisão o que vem acontecendo com a saúde mental docente. Há possivelmente um exército de professoras e professores adoecidos que, não obstante o esgotamento, seguem na ativa.

Jadir Lemos, diretor da Sedufsm e docente aposentado do curso de Fisioterapia da UFSM, já verificava essa tendência ao heroísmo docente no início de 2002, quando escrevia sua tese de doutorado, intitulada “Cargas psíquicas no trabalho e processos de saúde em professores universitários”, publicada em 2005. Em sua pesquisa, ele ouviu docentes do Centro de Ciências da Saúde (CCS) e constatou a possibilidade que a categoria tem de seguir trabalhando mesmo adoecida.

“O sujeito tira férias para tratar da sua saúde, faz cirurgia em período de férias ou, ainda, não dá aula, mas não entra em atestado, pois manda uma atividade para os alunos pelo monitor ou secretário do departamento, repondo a ausência posteriormente. Ele fica doente também, só que nunca se afasta. Esse sujeito não entra nos números oficiais de afastamento. Então, a subnotificação entre docentes é muito, muito forte”, comenta Lemos.

De 2020 até 30 de abril de 2025, mais de 900 professores e professoras pediram licença para tratamento de saúde na UFSM. Na tabela abaixo, é possível ver qual porcentagem desses afastamentos se refere a doenças psíquicas.

Dentre os fatores que podem explicar o adoecimento entre a categoria docente, o diretor da Sedufsm destaca aqueles ligados à esfera organizacional, ou seja, à forma de organização do trabalho. Questões como quantidade de trabalho, produtivismo e falta de valorização perante a sociedade, incluindo os governos das três esferas, estariam no cerne no problema.

Dilemas contemporâneos

Quando são abordadas as dificuldades enfrentadas por docentes, o professor do departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP, Marcelo Afonso Ribeiro, aponta o que ele qualifica como os “dilemas contemporâneos da atividade docente”.

Ribeiro, que também coordena o Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho (CPAT) do próprio Instituto de Psicologia, elenca três pontos que considera relevantes de serem analisados: 1. Aspectos pessoais e profissionais; 2. Questões estruturais e organizacionais e 3. Questões sociais.

No que se refere ao item 1 (aspectos pessoais e profissionais), o pesquisador destaca elementos como a falta de limite entre vida pessoal e vida no trabalho; docente gosta do que faz, mas não encontra condições para tal; insatisfação versus realização; falta de tempo para si e para aperfeiçoamento; falta de sentido no trabalho; questionamento de sua capacidade profissional, o que pode fazer com que a autoavaliação e autorreflexão sejam afetadas.

Em relação ao item 2 (questões estruturais e profissionais), Marcelo Ribeiro cita a falta de condições de trabalho e de recursos; a intensificação e a ampliação do trabalho; a sobrecarga de trabalho e exigência excessiva com metas de produtividade grandes; a defasagem entre trabalho prescrito e trabalho real – exigência de maior investimento afetivo e cognitivo do/a professor/a; assédio moral, com lógica de resultados; exigência de quantidade em detrimento da qualidade; autorresponsabilização por solução de problemas estruturais e demanda por lidar com a tecnologia e o mundo digital.

E quanto ao item 3 (questões sociais), ele ressalta aspectos comuns à docência de uma forma geral na atualidade: falta de reconhecimento, com o declínio no discurso de autoridade; falta de autonomia, na vivência entre ser formador/a ou doutrinador/a de novas gerações. Há um senso contraditório, em que o/a professor/a é atacado/a, mas às vezes é exaltado/a. No ambiente privado sofre pressão de familiares e, no ambiente público, a pressão é por mudanças, com demandas políticas e controle interno e externo.

Dando conclusão a esses pontos, Ribeiro explica que “manter a saúde mental requer condições dignas de vida, respeito, reconhecimento e autonomia, equilíbrio entre os papeis de vida, proteção social contra opressões e violências e ainda capacidade de realização”.

Nesse sentido, complementa ele, o “adoecimento mental de professores/as não é simplesmente um problema individual; não é uma doença preexistente, não é uma incapacidade pessoal.” Para Marcelo Ribeiro, “a falta de condições de trabalho com sobrecarga de tarefas, com uma organização do trabalho centrada na produtividade e uma falta de reconhecimento social e econômico da/o professor/a tendem a levar ao adoecimento, não como condição individual, mas como resposta a este conjunto de condições insatisfatórias de trabalho”.

O que pode levar ao adoecimento?

Quando se olha para as causas que podem levar ao adoecimento docente, existem múltiplas percepções, mas há uma certa dificuldade em ter um panorama central, com uma visão totalizante dos problemas. Todavia, há indicativos semelhantes a partir de olhares diversos.

Matéria publicada em novembro de 2019, na revista da Adusp (1), destaca pesquisa realizada entre outubro de 2009 e março de 2010 com 96 docentes (56 homens e 40 mulheres) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). No trabalho realizado pela professora Isabel Cristina Ferreira Borsoi, do departamento de Ciências Sociais da UFES, foram abordados os temas “condições e jornada de trabalho, formas de organização e efetivação de atividades docentes, além de sentimentos e modos de sofrimento e adoecimento indicado pelos pesquisados”.

Entre as/os docentes participantes da amostra, distribuídos por 18 diferentes departamentos acadêmicos, 94,8% trabalhavam em regime de Dedicação Exclusiva (DE). Os resultados foram analisados no artigo “Trabalho e produtivismo: saúde e modo de vida de docentes de instituições públicas de Ensino Superior”, publicado em 2012 (Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, vol. 15, n. 1).

A autora reuniu num quadro alguns comentários dos docentes acerca da “exigência desmedida de produtividade”, expressão empregada por um deles: “A pressão, cada vez maior, por produtividade, sem a devida melhoria das condições básicas de trabalho, principalmente infraestrutura — equipamentos em boas condições e suporte administrativo, funcionários em número suficiente e bem preparados”.

Ainda destacou outras observações dos/as pesquisados/as: “Ser obrigado a publicar sob pressão, não ter tempo para estudar com prazer e calma”. “Metas impossíveis de cumprir, ou somente cumpríveis se não trabalhasse adequadamente. Exemplo: para publicar como quer a Capes (ou dizem que ela quer) [eu] teria que negligenciar a graduação”.

A pesquisa de Isabel detectou também a existência de forte competição no meio acadêmico. Esse aspecto foi destacado por docentes da seguinte forma: “Rivalidade, competição, falta de companheirismo”. “Arrogância de alguns que acham que são mais que outros”. “Relações de poder e dominação de grupos [dentro do próprio departamento]”. “Vaidade excessiva que há no meio acadêmico”.

Analisando algumas dessas manifestações, a professora da UFES comenta que: “As perspectivas produtivista e competitiva, próprias do mundo globalizado do trabalho, invadiram o mundo acadêmico. As regras estão cada vez mais homogeneizadas e naturalizadas, a ponto de os docentes, em sua maioria, já não perceberem que há certa dose de coação nas políticas acadêmicas que regem, principalmente, os programas de pós-graduação. Consideram que estão numa espécie de caminho sem volta, uma vez que as normas são estabelecidas em instâncias sobre as quais eles não sentem que podem ter algum controle”.

As informações constatadas no trabalho de Isabel Borsoi podem ser facilmente percebidas na maioria das instituições. Contudo, quando é que a universidade enredou-se nessa trama?

Na tese de doutorado intitulada “Trabalho docente, carreira doente: elementos que impactam a saúde mental dos docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Estudos de caso”, defendida em 2014 na Escola de Serviço Social (ESS), a professora Alzira Guarany assinala algumas possibilidades (2). Segundo ela, as mudanças ocorridas no ensino público superior no Brasil, a partir da década de 1970, impuseram um ritmo de trabalho estranho ao universo acadêmico, uma lógica gerencial e um novo processo de trabalho, intensificando assim o sofrimento psíquico e o adoecimento mental.

Esse “estranhamento” no trabalho é vinculado por Alzira ao uso de “estratégias neoliberais na esfera das políticas públicas”. Segundo a pesquisadora, o uso dessas estratégias “levou o ensino superior público no Brasil a reproduzir a lógica das organizações e instituições privadas, uma nova ordem que resultou no desinvestimento e na precarização das universidades públicas brasileiras, promovendo um processo de reversão sob vários aspectos”, tais como, a prioridade da “quantidade em detrimento da qualidade, as parcerias entre o público e o privado, a adoção de metas, padrões e métricas que não levam em conta as especificidades das áreas do saber, estabelecendo um novo padrão de trabalho” e, assim, afetando a qualidade de vida de trabalhadores e trabalhadoras.

Um olhar para a busca de saídas

Luciélem Chequim da Silva, professora do departamento de Terapia Ocupacional (TO) do Centro de Ciências da Saúde da UFSM, que atua na área de Saúde do Trabalhador e Reabilitação Física, aponta algumas causas possíveis para o adoecimento docente e, que, de certa forma, aparecem em outras análises: produtivismo (cobrança exacerbada por produtividade), sobrecarga de trabalho e falta de condições de trabalho.

Quando se analisa a falta de condições de trabalho, ela detalha questões como redução de material de trabalho para a sala de aula, para laboratórios, diminuição de recursos para fazer Extensão. “No ensino, quantas vezes a gente não tem o local ideal, o laboratório ideal. E isso impacta muito”, frisa Luciélem. Além disso, comenta também que a própria falta de valorização do Ensino e da Extensão no momento da progressão funcional é um fator que pode levar ao desestímulo e ao adoecimento.

Para além do diagnóstico, que saídas buscar para essas causas do adoecimento, levando em conta que os problemas não são conjunturais, mas estruturais?

Em relação ao produtivismo, a docente analisa que “nem todo docente entra para a carreira para ser pesquisador, no entanto, quando observamos a carreira e as formas de avançar nela, encontramos uma valorização da pesquisa, enquanto as atividades da graduação (ensino) e extensão, por exemplo, não têm o mesmo peso”. E acrescenta: “Trabalhar com as especificidades e os diferentes perfis dentro da docência pode ser uma forma de amenizar o sofrimento dos professores, assim como quem se dedica à pesquisa, precisa estar atento às tantas demandas”, acredita Luciélem.

Quando reflete acerca da sobrecarga de trabalho, a docente avalia que “as chefias poderiam ser atentas à distribuição dos encargos, para que estes ocorressem de forma igualitária, assim como rodízios organizados para os cargos de gestão, de acordo com os diferentes perfis. A instituição poderia acompanhar de forma mais próxima essa divisão de encargos docentes”, ressalta. 

Durante a greve do ano passado, o Comando Local de Greve da Sedufsm encaminhou à gestão da UFSM uma pauta de reivindicações que continha, em um dos itens, a necessidade de estabelecimento de um limite máximo de carga horária de ensino e de equidade na distribuição da quantidade de docentes entre os departamentos. 

Ao ser questionada sobre como superar as más condições de trabalho, Luciélem defende que é preciso “transparência nas ações, assim como dos gastos dos Centros e Departamentos”, que facilitaria a visualização dos investimentos e gastos. “Sabendo onde há o recurso e onde está sendo gasto, melhora o entendimento de por que algumas coisas acontecem e outras não dentro da Universidade.”

Ela acrescenta ainda que “um fato importante é desburocratizar o acesso aos pedidos de materiais, ou que cada Centro tenha pessoas capacitadas e disponíveis a realizar pedidos de materiais, levantamentos, etc.” Luciélem também detecta os/as docentes enfrentando uma sobrecarga relacionada ao Ensino, Pesquisa, Extensão, sendo alguns também na gestão, e ainda precisando entender de processos burocráticos que, muitas vezes, se modificam com rapidez, o que gera sofrimento.

Educação em Saúde

Apenas 20% das e dos docentes têm consciência corporal e, assim, percebem de forma mais sensível seu corpo e o próprio processo de adoecimento. A estatística é do professor Jadir Lemos que, como fisioterapeuta, acredita que a aposta da universidade deveria ser em projetos de educação em saúde, visando à prevenção. Não basta, reflete o dirigente da Sedufsm, oferecer ginástica laboral no meio do expediente, em uma espécie de imposição, onde as e os professores não conseguem se desligar verdadeiramente das demandas de trabalho.

“Tem que haver uma política institucional permanente e uma consciência dos trabalhadores e das chefias. Tem que ter toda uma construção para que a pessoa crie consciência de que fazer alongamento é benéfico para ela. Não pode ser uma imposição da universidade. Então os programas da universidade têm limitações, não dão conta de tudo”, pondera Lemos.

Uma política efetiva de educação em saúde tenderia a frear o ritmo do adoecimento entre docentes, uma vez que desenvolveria neles e nelas a capacidade de escutar e conhecer seus próprios corpos.

“Por exemplo, quando estamos no frio, nos encolhemos para guardar a temperatura, né? Mas, muitas vezes, mesmo em uma temperatura natural, ficamos assim, pois estamos tensos. Nossos ombros estão lá em cima das orelhas. Então, essa musculatura está sofrendo, mas não estamos vendo isso”, explica.

As e os professores que ouvimos para essa matéria, e que trouxeram seus relatos ainda no início do texto, vêm buscando, à sua maneira, desenvolver essa consciência, estabelecer limites individuais de trabalho e abrir brechas para o descanso.

Ane Carine consegue hoje descansar, ainda que um pouco, sem se sentir culpada, especialmente quando dá conta de organizar previamente as aulas, ou corrigir os 40 trabalhos semanais com antecedência. Mas é uma vigilância constante.

“Eu fico sempre postando atividades no Moodle, e fico estudando também, né? Porque eu tento repensar a minha prática. Uma coisa é você estudar, outra coisa é você planejar a aula, como é que você vai trabalhar um determinado conteúdo. Então na sexta-feira eu termino uma aula e, no sábado, já começo a pensar e organizar as outras. Consigo desligar, mas com certo esforço, porque a tendência de ficar muito em cima do trabalho é grande”, comenta a docente do Centro de Educação.

Flávio Mayer tem tentado separar um tempo para as questões pessoais, ainda que isso ocasione alguns atrasos em atividades de trabalho, quando possível. Ao responder sobre o que mudaria em sua dinâmica de trabalho para torna-la mais prazerosa e menos desgastante, o professor diz que a resposta não é simples, pois não realizar as atividades de trabalho que hoje realiza significaria deixar de atingir os índices de produtividade cobrados na pós-graduação, por exemplo.

“Também deixaria de obter verbas de agências de fomento para financiar as pesquisas que desenvolvo. Acaba sendo uma decisão difícil. Algo que poderia ser modificado na estrutura da UFSM seria um maior suporte de técnicos e secretários para realizar atividades correlatas que demandam muito tempo, desde obter orçamentos para conserto e aquisição de equipamentos, contato com empresas, preparo de aulas práticas, manutenção da infraestrutura de laboratórios de pesquisa, etc”, sugere Mayer.

“Culpa só de não descansar o suficiente” - Gláucia Konrad acredita que não há como, individualmente, romper com a lógica acadêmica “produtivista” e “ranqueadora”, que preconiza a qualidade em detrimento da quantidade. “Mas a docência é prazerosa e por isso, devemos continuar buscando a nossa autonomia, melhores condições de trabalho e reconhecimento social do nosso fazer”, diz a docente, que hoje não se sente culpada ao reservar um tempo para o descanso, mas sim de não descansar o suficiente.

O papel institucional

A Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progep) é definida no site da UFSM como sendo “o setor competente pelo planejamento, implementação, coordenação e avaliação das atividades que envolvem os servidores docentes e técnico-administrativos em educação da Universidade Federal de Santa Maria”. Dentre os órgãos que funcionam dentro da Progep está a Coordenadoria de Saúde e Qualidade de Vida do Servidor (CQVS).

A assessoria de imprensa da Sedufsm buscou saber como funciona a estrutura da CQVS, não apenas para o atendimento de casos de adoecimento, mas também sobre como atua para a prevenção desses processos. Importante ressaltar que a Coordenadoria trabalha de forma ampla, abrangendo servidores/as, sejam eles funcionários/as ou professores/as. Não há ações privativas apenas de uma ou outra categoria.

Daniela Huppes, coordenadora da CQVS, explica que as ações são realizadas por meio do Núcleo de Promoção à Saúde. Através desse setor são realizados projetos, programas, cursos, atendimentos individualizados e intervenções em grupo. Ela destacou alguns serviços e ações:

- Serviço Psicossocial: conta com psicólogos e assistente social que atendem, orientam e acompanham servidores(as) e gestores(as) no âmbito organizacional e do trabalho na perspectiva da promoção da saúde do(a) servidor(a). Desenvolve as suas atividades para a integração funcional, através de atendimentos individualizados aos(às) servidores(as) que manifestam dificuldades de adaptação laboral e onde algum tipo de conflito esteja ocorrendo. Os atendimentos são realizados, na sua maioria, por demandas diretas dos(as) próprios(as) servidores(as) e com agendamento prévio ou por solicitação das chefias. Também desenvolve atividades em conjunto com outras unidades da Progep, elaborando avaliações, visando o crescimento, desenvolvimento e qualificação das atividades laborais. Desenvolve cursos de capacitação e promoção da saúde.

- Cursos de capacitação para servidores/as e chefias. Esses eventos, descreve ela, são sempre avaliados e definidos de acordo com as temáticas identificadas como sendo as mais necessárias ao momento e contexto institucional.

Em 2025, escreve Daniela, ocorrerão, por exemplo, os ‘Encontros de Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho: o hoje e o amanhã’, que abordarão, de forma transversal, os eixos de saúde integral, desenvolvimento humano, determinantes sociais, planejamento financeiro e legislação, com foco na educação em saúde e na construção de estratégias de cuidado coletivo e individual ao longo da trajetória funcional do(a) trabalhador(a), desde o ingresso até a aposentadoria.

- Movimenta: Programa de Promoção da Saúde Integral dos(as) Servidores(as) da UFSM, destinado aos(às) docentes e técnico-administrativos da instituição. A proposta, segundo a CQVS, centra-se na promoção à saúde, por meio de oficinas e práticas multidisciplinares, que fomentem a cultura do cuidado e da valorização da saúde física e mental no ambiente organizacional. Também visa promover a interação, diálogo e integração dos(as) servidores(as) de diferentes unidades e centros de ensino da universidade, ativos e aposentados.

Em que pese a lista de ações da CQVS, ela parece não dar conta da complexidade dos problemas envolvendo o adoecimento. Jadir Lemos, diretor da Sedufsm e docente aposentado do curso de Fisioterapia, já participou do programa ‘Movimenta’. Para ele, além do limite de vagas, ainda tem o fato de haver pouca capilaridade nessas ações (da Coordenadoria), que dependem muito mais do interesse de cada trabalhador/a e não fazem parte de uma política institucional mais ampla, que dialogue e chegue a todos os setores como uma medida de prioridade.

Esse aspecto citado acima também foi questionado à coordenadora da CQVS. Daniela Huppes concorda que existe a necessidade de fortalecimento das estruturas internas e da interlocução dos diversos setores/unidades que atuam no acolhimento à comunidade universitária. Segundo ela, a Instituição “reconhece essa necessidade e vem desenvolvendo um projeto com esse objetivo, que será lançado em breve, com previsão para o início do segundo semestre letivo.”

Perguntamos também à professora Luciélem Chequim da Silva, da Terapia Ocupacional, que caminhos poderiam ser trilhados para a construção de uma política institucional de prevenção ao adoecimento docente. Na visão dela, seria necessário que a universidade dispusesse de um espaço de escuta e acolhimento das diferentes demandas.

Segundo Luciélem, a CQVS possui frentes atentas aos servidores, porém, analisa que é preciso cuidar também de trabalhadores “que muitas vezes exercem suas funções com recursos humanos reduzidos”. Por isso, diz ela, é importante que “tenhamos um setor que facilite este acolhimento, pois as demandas são variadas”. Afinal, complementa a docente, “cada pessoa lida de uma forma com as adversidades do mundo e do mercado de trabalho, por isso é essencial a atenção individualizada.”

Realidade nacional e responsabilidade sindical

Enquanto pesquisas de mais de uma década atrás já apontavam para o adoecimento e suas causas, ao se olhar para a realidade atual, não são percebidas mudanças substanciais. Ao contrário, os problemas parecem agudizar-se. Essa percepção é reforçada por Jadir Lemos, que além de professor aposentado da Fisioterapia, integra o Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA) do ANDES-SN e da Sedufsm.

Nos encontros dos quais participa, em âmbito nacional, Jadir afirma que a expressão mais ouvida em relação às universidades se refere à “precarização do trabalho docente”. Segundo ele, isso se dá de norte a sul do país. “Todos percebem a precarização da universidade e do trabalho docente, com a depredação do patrimônio físico, dos prédios, das instalações, além da falta de reposição de vagas. Docentes se aposentam e as vagas não são repostas”, enfatiza.

Esse quadro preocupa o ANDES-SN já faz algum tempo. Tanto que o sindicato realizou, com a colaboração das seções sindicais, uma enquete concluída em fevereiro deste ano sobre saúde docente. No total, 5.974 docentes responderam o questionário, sendo deste total, 5.393 docentes em atividade e 581 docentes aposentados/as. Participaram da enquete professoras e professores de 144 instituições, sendo que, destas, 110 eram seções sindicais do ANDES-SN.

Um dos dados destacados dessa divulgação parcial é, que, do total de pessoas que responderam, 57,9% manifestaram piora no seu estado de saúde no período recente. Contudo, muitas informações advindas da enquete ainda precisam ser interpretadas, avalia Jadir. O ANDES-SN segue trabalhando nesses números e os resultados finais deverão ser apresentados e analisados no seminário de saúde do trabalhador e da trabalhadora, que ocorrerá no dia 15 de junho, em Brasília.

Em referência ao panorama nacional, Jadir Lemos acredita que o ANDES-SN necessitará aprofundar mais a análise do que foi coletado, e talvez até fazendo a contratação de uma pesquisa mais ampla, e não somente uma enquete, até como forma de pensar uma diretriz nacional para todas as universidades.

Sobre os números extraídos da enquete, eles serão estratificados por participantes de cada seção sindical, incluindo a Sedufsm. Dessa forma, explica o diretor do sindicato, os dados concernentes à UFSM servirão como base para análise e discussão por parte da seção sindical. Após, a ideia poderá ser a construção de um debate junto à Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas e à gestão universitária como um todo, para que seja pensada e construída uma política institucional de enfrentamento às questões que levam ao adoecimento docente.

(1) Artigo da Revista da Adusp de novembro de 2019: “Desgaste mental, sofrimento físico e assédio moral na universidade produtivista”;

(2) Dossiê Saúde Mental na UFRJ- Parte III: trabalhadores. Conexão UFRJ, 24 de setembro de 2018.

 

Texto: Bruna Homrich e Fritz Nunes

Imagens: Italo de Paula

Assessoria de Imprensa da Sedufsm

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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