Sociólogo defende abandonar a ideia equivocada de que o povo brasileiro é corrupto
Publicada em
23/09/25
Atualizada em
23/09/25 18h09m
697 Visualizações
Em entrevista ao Ponto de Pauta, Jessé Souza cobra que a universidade se contraponha a esta teoria
Jessé Souza foi convidado pela Sedufsm para uma atividade promovida pela Seção Sindical na 52ª Feira do Livro de Santa Maria. Autor de mais de 30 livros, ele se dedica a investigar alguns temas que se apresentam como feridas que marcam a história e a realidade atual do país. Entre eles, o escritor de "Como o racismo criou o Brasil" aborda este assunto que perpassa tantos outros temas urgentes em nosso cotidiano.
Ao programa Ponto de Pauta, o sociólogo sustenta que o país é dividido racialmente e que a elite e "a classe média branca não admitem que seus filhos estudem com negros na USP", pois "acham que preto só deve lavar banheiro e cortar a grama". A fala, em tom grave, vem de um intelectual que se define como um mestiço nordestino, região do país de prevalência negra e vítima do racismo sulista e branco, não apenas segundo observa o pesquisador, mas que facilmente pode ser identificado nas ruas reais ou nas redes sociais.
A mentira de que o povo é corrupto
O preconceito, muitas vezes, se aproveita de outro tema controverso e contestado por Jessé: o de que o brasileiro seria naturalmente corrupto, em boa parte herança dos colonizadores portugueses. “Povo corrupto. Sérgio Buarque e todos os grandes pensadores disseram essa bobagem. E isso está na cabeça de 213 milhões de pessoas agora. Quando se cria essa ideia de que o Brasil deu errado porque pegou essa cultura da corrupção portuguesa da Idade Média, isso é ensinado em todas as universidades, em todas as escolas. É um lixo isso. No fundo, o que está sendo dito aí é de que o povo é percebido como culpado. Você culpa a vítima”, defende o sociólogo. Ele explica que é exatamente a mesma forma como os Estados Unidos legitimaram o seu imperialismo depois da Segunda Guerra mundial, chamando o sul global sistematicamente de corrupto.
Segundo o escritor, este pensamento está em todas as grandes teorias, está em todos os cinemas: “Você diz, olha, eles são corruptos, e destrói a moralidade da pessoa, o centro da personalidade, a coisa mais importante do espírito humano, como dizia Kant. E isso foi importado para dentro do nosso país. Aí você tem a elite de São Paulo que vai dominar todas as outras, que vai se ver como americana... É como se São Paulo fosse a Massachusetts tropical, e que fosse modernizar o país, ou seja, americanizar o país... É o pessoal que sai à rua fingindo que se importa com a corrupção. Esse pessoal nunca se viu como parte desse povo corrupto, preto e mestiço. Ele é (se sente) europeu até hoje”, denuncia Jessé, afirmando também que “todo o racista é um canalha, um covarde”.
Uma universidade elitista
Questionado sobre as causas de um possível distanciamento entre a população e a universidade, Jessé acredita que, de alguma forma, as instituições de ensino superior estiveram de costas para o povo. “Até porque, por excelência, é o bunker da classe média”, afirmando que a universidade nunca foi de esquerda, mas elitista. E volta ao tema da corrupção, cobrando uma postura diferente da academia: “Os Estados Unidos assaltam o planeta inteiro, mas em todos os jornais, teatro, cinema, toda a indústria cultural sai como se corrupto fosse a África, América Latina. Sempre que tem um traficante num filme americano, ele é latino-americano. Ou seja, tudo montado para que haja essa mentira. E a nossa universidade deveria se contrapor a isso, porque é quem tem a capacidade, mas ela não se contrapõe”.
Jessé cobra que o papel do intelectual brasileiro e do docente universitário deve ser de romper com essa tradição intelectual, acadêmica, de fomentar essa humilhação, “até porque, fazendo assim, você cumpre o seu dever de ser um soldado da ciência, um soldado da verdade”, afirma.
Confira como foi a atividade da Sedufsm com Jessé Souza na Feira do Livro de Santa Maria: "O racismo permeia tudo, basta ter olhos para vê-lo, diz Jessé Souza".
Texto: Jefferson Pinheiro
Ilustração: Italo de Paula com foto de Jefferson Pinheiro
Assessoria de Imprensa da Sedufsm
Galeria de fotos na notícia