Quem tem medo da liderança feminina (e feminista)? SVG: calendario Publicada em 25/03/2026 SVG: views 139 Visualizações

Outro dia estava em uma reunião e ouvi de um colega que ele não era machista. Ao que respondi: “quem sabe se tu és ou não, sou eu, que sofro teu machismo. Não conheço nenhum homem, nem progressista, que não tenha um grau de machismo.” Sinto dizer, mas vivo e trabalho numa cidade e em uma Universidade machista. O fato de termos, em pleno século XXI, apenas uma reitora diz muito do que somos. Eu, como filha da UFRGS, vivi o mandato de uma reitora nos anos 1990, há mais de 30 anos.

Lembro-me do dia em que assinei meu termo de posse e fiquei perplexa olhando a galeria de fotos da gestão. Não tinha ideia do quão machista podia ser um lugar em pleno século XXI. Vou fazer nove anos de instituição e sofri (e ainda sofro) o machismo na UFSM e no sindicato. 

Minha mãe me criou para não ter papas na língua e falar o que penso e, talvez por isso, ou pela formação estudantil e acadêmica, acabei exercendo espaços de liderança ao longo da vida. Na escola, era líder estudantil, apesar de tímida. Profissionalmente, como jornalista, exerci cargos de chefia muito jovem. E o que ouvia? Nunca eram meus atributos profissionais que explicavam, para meus colegas homens, minha ascensão. No serviço público, como passamos por concurso, este discurso não tem como ser usado. O que significa que não exista machismo.

Aqui na UFSM, logo que assumi, peguei a coordenação de curso e, com isso, fui para o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE). O que tive em troca? Assédio moral de colegas que não aceitarem minha liderança, que precisavam “me combater”, para que eu não chegasse mais longe: chefe de departamento, diretora de centro, etc. Uma vez fui acusada de, no meu exercício sindical, incitar estudantes – porque eu defendia o voto contra a volta do vestibular.

Depois de uma reunião em que fui desqualificada profissionalmente por um colega, em uma típica violência de gênero, fui à Ouvidoria e o que me disseram? Que não abrisse processo, que o acusado saberia e que eu seria perseguida. O lugar que devia me proteger me deu as costas. Minha solução, à época, foi denunciar todas as violências (minhas e de estudantes) em um discurso de formatura na qual fui paraninfa. Por isso, dentro da Sedufsm, tenho lutado, desde o ano passado, no Grupo de Trabalho Políticas de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS), para que tenhamos, dentro da UFSM, protocolos específicos e, se necessário, Ouvidoria específica.

Por que falo disso aqui, neste espaço? Porque no mês internacional da mulher ainda temos muito o que avançar. Apesar de termos uma politica de gênero, ainda falta que ocupemos espaços e que, quando estivermos nesses espaços, não soframos assédio.

Outro dia, para falar de nós mulheres no mundo sindical, vi o machismo escancarado também aqui na Sedufsm. Tivemos na primeira diretoria eleita uma presidenta: Berenice Corsetti (1990-1992, com reeleição para mais um mandato). Depois disso, apenas a Laura Fonseca (2020-22, que não completou o mandato). Ou seja, 30 anos depois!

A professora Fabiane Costas foi presidenta (2008-2010) quando o professor Sérgio Prieb pediu afastamento. Mesmo em diretorias majoritariamente femininas, a cabeça de chapa é masculina. Por quê? Por que votamos em homens? Por que sofremos quando estamos na liderança e preferimos estar em outros cargos?

Olhando para esta outra galeria, fiquei refletindo: quem tem medo de liderança feminina? E se, além de feminina, for feminista? Há oito anos sou sindicalizada e há cinco estou na direção sindical. Neste tempo, nunca vi um colega homem falar grosso ou meter o dedo na cara de outro homem. Mas vi colegas mulheres sofrerem violência de gênero no exercício de suas lideranças.

Os homens só vão aprender a lidar com nossas lideranças quando estivermos nestes cargos e, mais que tudo, quando forem punidos por suas violências. Nossa política de gênero prevê equidade de representação nas instâncias de poder da UFSM. Quando será efetivada? A propósito: temos eleição para os conselhos em abril. Mas isso é outra pauta...

Espero que esta pequena reflexão nos ajude a pensar sobre as lideranças femininas e como lidamos com ela: nós, mulheres, mas sobretudo vocês, homens.

 

 

 

 

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Neila Baldi
Professora do curso de Dança-Licenciatura da UFSM, diretora da Sedufsm

Veja também