A República dos Patriotários
Publicada em
17/06/2026
209 Visualizações
Dizem que existem épocas críticas em que somos obrigados a escolher entre o vermelho e o azul, entre rosas e cravos, entre o legal e o legítimo.
Essas épocas costumam produzir personagens caricatos, tribunos de ocasião, bufões que confundem convicção com espetáculo.
A nossa produziu o cidadão permanentemente indignado. O indivíduo que acorda ultrajado, almoça ofendido e janta conspirando contra algum inimigo imaginário que ameaça a pátria, a família, a civilização ocidental ou o estacionamento do condomínio.
O curioso é que essa figura raramente luta contra grandes tiranias.
Seu campo de batalha costuma ser mais modesto: a caixa de comentários, a fila da padaria, o grupo de WhatsApp ou, em casos mais lamentáveis, a calçada diante da casa de um idoso ou o elevador do condomínio. E, quando são confrontados com as consequências dos próprios atos, muitos abandonam a valentia performática e recorrem ao velho repertório da negação, da vitimização ou da amnésia conveniente.
A política, que deveria organizar divergências, transformou-se, para muitos, numa religião sem transcendência. Não exige reflexão. Exige fé. Não pede argumentos. Pede palavras de ordem. Não constrói cidadãos. Produz torcidas.
O resultado é uma sociedade em que opiniões passam a valer mais do que fatos, slogans mais do que princípios e identidades mais do que seres humanos.
Quando alguém se sente autorizado a hostilizar outra pessoa por causa de um adesivo, de uma crença religiosa ou de uma preferência política, não estamos diante de convicção. Estamos diante da falência da própria convicção.
A democracia pressupõe adversários. O fanatismo produz inimigos.
E há uma diferença fundamental entre os dois.
Adversários disputam ideias.
Inimigos devem ser eliminados.
Toda vez que a política atravessa essa fronteira, a barbárie dá mais um passo à frente usando a máscara da virtude.
Os verdadeiros democratas não são aqueles que amam apenas os que pensam igual.
São aqueles capazes de defender a liberdade até de quem prefeririam jamais encontrar.
Porque a missão do democrata não é proteger apenas os seus. É defender a liberdade, a dignidade humana e a justiça para todos, sem distinção de raça, gênero, credo, origem, orientação ou condição social.
A democracia só faz sentido quando seus direitos alcançam inclusive aqueles de quem discordamos. Quando a liberdade é seletiva, deixa de ser liberdade. Quando a justiça escolhe destinatários, deixa de ser justiça.
Infelizmente, essa continua sendo uma lição difícil para uma era que transformou a indignação em identidade, o ressentimento em espetáculo e a intolerância em método.
O problema nunca foi a divergência política. Democracias sobrevivem a ela há séculos. O problema começa quando cidadãos deixam de disputar ideias e passam a colecionar inimigos.
Nesse momento, a política deixa de ser civilização e volta a ser "tribo".
Sobre o(a) autor(a)
Professor do departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM