Hýbris: a lei do retorno e a tragédia do poder SVG: calendario Publicada em 28/10/2026 SVG: views 136 Visualizações

Os antigos gregos conheciam uma palavra capaz de sintetizar uma das mais profundas tragédias da existência humana: hýbris. A desmedida. A arrogância que ultrapassa os limites da prudência. A convicção de que o poder conquistado concede ao seu portador uma espécie de imunidade diante da história.

Na tragédia grega, a hýbris não constituía simplesmente um defeito moral. Representava uma ruptura da ordem, uma transgressão dos limites impostos à condição humana. O indivíduo dominado pela própria grandeza imaginava-se superior às circunstâncias, às instituições e, sobretudo, às consequências de seus atos.

O castigo, quando chegava, não era necessariamente obra dos deuses. Muitas vezes, encontrava-se inscrito na própria lógica das escolhas realizadas.

É nesse território, entre a soberba e suas consequências, que encontramos uma chave para interpretar a política brasileira contemporânea.

A eleição presidencial de 2026 revela, de forma cruel, como a soberba pode preceder a queda.

Lembremos que um jogo de futebol somente termina com o apito final do árbitro. Uma eleição presidencial somente se encerra institucionalmente quando a apuração é concluída e o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral.

Antes disso, existem expectativas, pesquisas, projeções, discursos e apostas. Não existem vencedores oficialmente reconhecidos.

Essa distinção, aparentemente elementar, possui uma extraordinária importância política.

A democracia não é um exercício de adivinhação. Tampouco constitui uma cerimônia destinada a confirmar as convicções daqueles que acreditam possuir antecipadamente o direito de governar.

Não se escolhem ministros como se a posse estivesse consumada. Não se anunciam cortes orçamentários como se o comando do Estado já tivesse sido transferido. Não se distribuem posições de poder como se a vontade popular fosse uma formalidade secundária.

A formação de equipes e o planejamento de medidas são legítimos em qualquer campanha presidencial. O problema surge quando a preparação para um eventual governo se confunde, no discurso político, com a certeza de uma vitória ainda não reconhecida pelas instituições.

É nesse ponto que a antecipação simbólica do poder pode converter-se em manifestação da hýbris.

No caso de Flávio Bolsonaro, a crítica à postura de antecipação da vitória permite examinar os riscos da autoconfiança excessiva na competição democrática. A questão não é a legitimidade de preparar um programa de governo, mas a fronteira entre a expectativa eleitoral e a pretensão de autoridade.

A trajetória do bolsonarismo e a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro oferecem, igualmente, um campo privilegiado para investigar as relações entre herança familiar, personalismo político e exercício do poder.

Flávio Bolsonaro representa uma continuidade dinástica dentro de um movimento que construiu parte significativa de sua identidade em torno da figura de Jair Bolsonaro.

Essa continuidade suscita uma questão fundamental: até que ponto a autoridade política pode ser transmitida como patrimônio familiar sem comprometer a autonomia das instituições democráticas?

A questão ultrapassa a personalidade de um candidato. Ela alcança a própria natureza do poder.

Nas democracias, a legitimidade política não constitui propriedade hereditária. É uma construção permanentemente submetida ao julgamento público, à competição eleitoral e aos limites constitucionais.

Quando uma liderança ou um grupo político passa a confundir sua própria permanência com o destino da nação, aproxima-se daquilo que os gregos identificavam como desmedida.

A concentração da liderança de um bloco político em torno de um grupo familiar merece atenção precisamente porque pode enfraquecer a distinção entre interesses particulares, lealdades pessoais e responsabilidades públicas.

Nesse ponto, torna-se indispensável recuperar a contribuição de Raymundo Faoro.

Em sua magnífica obra Os Donos do Poder, Faoro investigou a persistência histórica de estruturas patrimonialistas na formação do Estado brasileiro. Sua interpretação demonstra como a apropriação privada das estruturas de poder e a confusão entre o público e o particular constituem problemas recorrentes de nossa organização política.

O patrimonialismo não significa simplesmente a presença de famílias na política. Seu problema fundamental reside na transformação das instituições públicas em instrumentos de reprodução de interesses particulares.

A República pressupõe a separação entre o patrimônio privado e a autoridade estatal. Quando essa fronteira se enfraquece, o Estado corre o risco de ser percebido como extensão de uma família, de uma liderança ou de um círculo restrito de aliados.

A análise de Faoro, portanto, permite compreender um problema que ultrapassa o bolsonarismo e atravessa diferentes períodos da história brasileira: a dificuldade de consolidar uma cultura política plenamente impessoal e institucional.

A personalização do poder também altera a própria natureza da competição democrática.

Nesse ambiente, a política perde sua dimensão deliberativa e transforma-se em um permanente tribunal de fidelidades.

O debate público deixa de perguntar quais projetos são capazes de responder aos problemas coletivos e passa a investigar quem pertence ao grupo, quem deve ser excluído e quem merece a condição de inimigo.

Trata-se de uma transformação particularmente perigosa.

A democracia pressupõe conflito, mas não pode sobreviver à destruição sistemática da legitimidade do conflito.

A história oferece inúmeros exemplos de lideranças que confundiram força com invulnerabilidade. A tragédia começa quando o governante acredita que sua vontade pode substituir as mediações institucionais e que a popularidade dispensa a responsabilidade.

Entretanto, a política possui uma característica que frequentemente escapa aos seus protagonistas: suas consequências não obedecem integralmente às intenções daqueles que agem.

Uma estratégia concebida para demonstrar força pode produzir isolamento. Uma retórica destinada a mobilizar seguidores pode aprofundar resistências. Uma demonstração de autoridade pode revelar os limites concretos do próprio poder.

A arrogância política contém uma contradição fundamental: quanto maior a pretensão de controlar os acontecimentos, menor pode ser a capacidade de reconhecer os limites impostos pela realidade.

É nesse sentido que podemos compreender a chamada lei do retorno. Não como uma justiça sobrenatural que distribui recompensas e punições, mas como uma expressão da responsabilidade histórica. Toda ação política produz consequências. Toda escolha estabelece compromissos. Toda palavra pronunciada no espaço público deixa marcas na memória coletiva.

Na tragédia grega, a némesis representa a resposta à desmedida, o restabelecimento dos limites que a arrogância procurou ignorar. A relação entre hýbris e némesis encerra uma advertência universal: nenhuma grandeza humana está protegida das consequências de seus próprios excessos.

Na política contemporânea, essa lição permanece atual. Nenhuma liderança está acima da Constituição, nenhuma família possui direito natural ao governo e nenhuma maioria eleitoral autoriza a eliminação do pluralismo.

A urna confere mandatos. Não concede infalibilidade.

A vitória produz responsabilidades. Não transforma governantes em proprietários da República. A derrota, por sua vez, não elimina a legitimidade da oposição.

A experiência brasileira demonstra que o maior desafio democrático não consiste apenas em escolher governantes, mas em impedir que o poder se transforme em patrimônio pessoal, familiar ou partidário.

A hýbris começa quando desaparece a consciência dos limites. A tragédia se aprofunda quando a soberba substitui a prudência e a convicção de vitória se sobrepõe ao respeito pelas instituições.

A história não oferece garantias de justiça automática. Entretanto, nenhuma liderança consegue controlar indefinidamente as consequências de suas escolhas.

Porque a história não precisa de vingança para revelar as consequências da arrogância.

Basta que o tempo continue passando.